UM BEIJO ROUBADO:


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Original: My Blueberry Nights
País: Hong Kong/China/França
Direção: Wong Kar-wai
Elenco: Norah Jones, Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman, David Strathairn, Cat Power, Frankie Faison
Duração: 111 min.
Estréia: 11/04/2008
Ano: 2007


Wong Kar Wai dilui impacto de seu cinema em estréia no ocidente, mas continua grande


Autor: Fernando Oriente

Wong Kar Wai cria em seus filmes personagens apaixonantes, mesmo que às vezes passe a impressão de não querer aprofundá-los psicologicamente ou lhes dar mais complexidade e textura dramática. O cineasta de Hong Kong compõe tipos que são ágeis em suas ações físicas, embora na maioria dos casos apareçam na tela incapazes de externar seus sentimentos mais profundos, impossibilitados de concretizar seus desejos e de romper com a solidão em que vivem.

“Um Beijo Roubado”, último filme de Wong e seu primeiro trabalho no ocidente, deixa a desejar em relação aos outros longas do diretor exatamente por apresentar personagens mais fracos, que não são desenvolvidos de forma satisfatória e acabam por não despertar a mesma simpatia e interesse dos tipos a que estamos acostumados a ver em seu cinema. Com exceção da jovem interpretada por Norah Jones e o solitário dono de restaurante vivido por Jude Law, as pessoas que vemos na tela não têm o carisma necessário para dar sustentação aos dramas que vivem.

Outro problema de “Um Beijo Roubado” são as concessões estéticas feitas por Wong Kar Wai. Embora muitas das características visuais do cineasta estejam presentes (os enquadramentos sofisticados, a granulação da imagem, o uso constante dos recursos da variação de foco, planos feitos através de vidros, muitos reflexos e luzes artificiais), tem-se a sensação em vários momentos que a ousadia estética é diluída para se dar maior ênfase aos dramas encenados. Ora, as situações dramáticas no cinema de Wong sempre estão diretamente associadas ao virtuosismo visual do diretor; talvez esse processo seja sua principal marca registrada. Em seu novo trabalho, toda vez que ele abre mão dessa característica o filme cai.

Mas um filme menor Wong Kar Wai ainda é bem melhor do que a maioria das estréias que chegam a nossos cinemas a cada ano. O primeiro longa do diretor em território americano retoma os tipos solitários e desiludidos amorosamente, mas que seguem com a esperança de um dia romperem com essa solidão. São pessoas que agem na defesa de sua fragilidade, que não conseguem se expor por medo de serem novamente magoados. Percebe-se claramente nelas a dificuldade em confiar no próximo, por mais que tenham vontade de fazê-lo. É uma espécie de incomunicabilidade pós-moderna, diferente daquela brilhantemente trabalhada por Michelangelo Antonioni em seus filmes (em especial “A Aventura”, “A Noite” e “O Eclipse”), mas que ao mesmo tempo impõe limite às ações existenciais dos personagens.

Essa incomunicabilidade, tão bem assimilada e retratada por cineastas asiáticos a partir dos anos 90 (principalmente Tsai Ming Liang e Hou Hsiao Hsien), assume em Wong Kar Wai características mais “pop”, embaladas pelo excelente uso da música e pela sofisticação das imagens, sempre trabalhadas no limite do anti-naturalismo. O tempo também é fator fundamental no cinema de Wong. Seus planos sãos constantemente alterados com o uso do slow ou através da aceleração da velocidade das imagens. Relógios aparecem na tela com freqüência e, principalmente em sua obra-prima “Amor à Flor da Pele” (2000), as elipses são a base da construção narrativa. Em “Um Beijo Roubado”, esse trabalho do tempo-espaço não é tão bem elaborado, parece até que o diretor optou por um estilo mais convencional, uma tentativa de mostrar uma maturidade que acaba por ir na contra-mão do cinema passional e cheio de frescor estético que consagrou seus filmes anteriores.

“Um Beijo Roubado” tem um contraponto interessante em seus dois personagens centrais. A jovem vivida por Norah Jones precisa lançar-se em uma viagem sem destino pelos Estados Unidos, necessita urgentemente estar em constante movimento para tentar esquecer a dor de um romance fracassado. Em sua jornada entra em contato com pessoas igualmente amarguradas, carentes de um sentido ou mesmo de um remédio para seus tormentos. Esses tipos são como um espelho para a jovem; ela se vê neles, em suas dores encontra alguns dos sintomas de suas agonias. Ao compartilhar suas aflições, acaba por reencontrar a esperança e a vontade de seguir adiante, mesmo sem muita certeza do que irá encontrar.

Já o dono do restaurante que serve a “blueberry pie” do título original do filme (um Jude Law perfeito no papel), encontra-se forçadamente imobilizado, acredita que não deve nunca abandonar seu “local de viver”. Pensa que só estando onde pode ser facilmente encontrado irá resolver os assuntos pendentes em sua vida. Espera que as respostas para suas angústias venham bater em sua porta. Wong Kar Wai não condena sua posição em relação à vida, tanto que em uma das melhores seqüências do filme, vemos o reencontro do solitário “homem comum” com aquela que provavelmente foi o grande amor de sua vida. A cena, filmada com toda a beleza estética do cineasta, não apresenta soluções para o casal, mas deixa a sensação de que algo importante foi superado.

Cada um dos protagonistas cumpre seu percurso existencial para que possam se encontrar novamente no final, para retomar do ponto onde tinham parado no começo do filme. E esse ponto é exatamente uma das maiores qualidades do longa: um dos beijos mais sensuais da história recente do cinema. O beijo, sutilmente sugerido por Wong Kar Wai no início, retorna na última cena para deixar o destino de seus personagens em aberto, cheio de possibilidades. É nesse instante que o cineasta deixa bem claro que mesmo com um filme menor continua apaixonado pelos tipos humanos que põem na tela.



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