O SOL:


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Original: Solntse
País: Itália/ França/ Suíça
Direção: Aleksandr Sokúrov
Elenco: Issei Ogata, Robert Dawson, Kaori Momoi, Shirô Sano, Shinmei Tsuji, Taijiro Tamura, Georgi Pitskhelauri, Hiroya Morita
Duração: 110 min.
Estréia: 04/04/ 2008
Ano: 2005


"O Sol": a neutralidade oriental que mais constata do que julga


Autor: Fernando Watanabe

Mais do que um cinema “humanista” (termo errôneo que tem sido atribuido ao diretor, Sokúrov possui uma qualidade bem apreciada por quem tem alguma relação de prazer com as imagens: a busca incansável pela beleza. Em “O Sol”, as imagens são rigorosamente compostas, enquadradas por uma câmera elegantemente flutuante, trabalhadas com uma textura esfumaçada muito peculiar a toda obra do diretor. A novidade, que já pudemos conferir em “Arca russa” e “Pai e Filho”, é o uso do vídeo de alta definição como captador de imagens. Então “O Sol” imageticamente parece estranho em comparação com os outros dois filmes da trilogia, se aproximando mais de “Pai e Filho”, e isso também nos enquadramentos. Sokúrov em certos planos enquadra de forma estranha, fugindo ao padrão de harmonia geométrica que o cinema consolidou. O legal disso é que quando ele coloca a cabeça do imperador Hirohito na parte inferior do quadro deixando um imenso espaço vazio acima do pequeno personagem, sente-se a diminuição da potência do imperador. Esses quadros estranhos são estritamente necessários à idéia do filme de mostrar a dimensão humana do imperador. A montagem várias vezes quebra a direção dos olhares e corta de forma abrupta. Uma estranha fruição cinematográfica que Sokúrov vem desenvolvendo.

Essa ambientação não naturalista afirma uma autêntica encenação fictícia, denotando o fato de que o cineasta não está interessado numa reconstituição burocrática dos fatos. Aliás, se a história escrita pelos livros e filmada pelo cinema é feita de fatos, Sokúrov busca o que há entre tais fatos. Algo como: o que Hirohito jantou com o oficial americano, ou Hirohito sozinho na noite escrevendo uma carta endereçada ao filho, ou mesmo encenando os estudos em biologia do imperador. Os “entre fatos” tomam um ar de cenas cotidianas, mas que pelo simples fato de serem protagonizadas por uma grande figura histórica, acabam tornando o banal cotidiano em algo ritualístico. Somos convidados a ver a intimidade de um Deus, numa atitude voyeur de nós e do cineasta. Nossa atitude pode ser comparada a dos oficiais americanos que em uma cena vão fotografar Hirohito. Ao verem o corpo da pessoa, o ignoram. Mas quando um oficial japonês diz “este é o imperador!”, todos correm ávidos para registrarem uma imagem do Deus. Quando se nomeiam as coisas, elas mudam de valor. Esse culto aos ícones idealizados pelo texto e pela palavra é tão atual em tempos de massificação da mídia movida à invasão da privacidade. Aliás, uma privacidade que Sokúrov respeita, ao dotar seu ator de uma formalidade mesmo nos momentos mais íntimos.

Mas, em última instância, o que realmente fica é a beleza e o apuro de suas imagens. O último plano com os créditos subindo são puro prazer estético. Ver um filme de Aleksandr Sokúrov é tranqüilizador, até demais. A beleza transbordante, às vezes, parece atenuar perguntas importantes que seus filmes trazem, como aquela sobre quem seria o verdadeiro responsável pela carnificina da guerra. Hirohito pergunta acusa Mac Arthur de ser o culpado pela bomba atirada em Hitoshima, e o general americano responde “Não fui eu que dei aquela ordem”. O general Mac Arthur então retruca “E Pearl harbour ?”, recebendo o troco na mesma moeda de Hirohito “ Não fui eu que dei aquela ordem de ataque ”. Então, lembramos da obra–prima de Alain Resnais “Hiroshima Mon Amour ”, na qual a certa altura o locutor perguntava “ Quem é o responsável? Não sou eu, diz o oficial, não sou eu, responde o outro oficial. Então, quem é responsável? ”. A diferença é que Resnais usou imagens de arquivo cruas e horríveis, onde se viam ossos e corpos mutilados. Na cena em que Hirohito tem a visão/sonho de Hiroshima em chamas, a beleza absurda da cena acaba nos confortando mais do que nos indignando. Talvez é aí que seu cinema perde em força política, ao priorizar a plasticidade imagética em detrimento da indignação. A visão de mundo de Sokúrov é a da neutralidade oriental que mais constata do que julga.

Apesar dessa beleza erudita parecer anacrônica por pouco nos inquietar em relação à arte e à vida, ver “O Sol” se assemelha à experiência hedonística de quem vai a um museu contemplar uma obra de arte requintada e antiga. Uma experiência absurda e prazerosa.

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