ROLLING STONE - SHINE A LIGHT:


Fonte: [+] [-]
Original: Shine a Light
País: EUA
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Documentário
Duração: 122 min.
Estréia: 04/04/ 2008
Ano: 2008


Scorsese celebra a grandeza dos Rolling Stones


Autor: Fernando Oriente

Ao término de “Shine a Light” uma constatação fica clara para o espectador: Martin Scorsese consegue atingir em cheio sua principal proposta em relação ao projeto, faz uma bem sucedida e poderosa homenagem ao Rolling Stones e sua música, bem como ao impacto que o mítico grupo causa aonde quer que se apresente. Diferente de “No Direction Home”, em que Scorsese desenvolve um complexo e sofisticado documentário no qual disseca vários anos na vida e na obra de Bob Dylan (além de repassar aspectos sócio-políticos dos anos 60), o novo filme do cineasta registra de forma objetiva o esplendor e explora ao máximo o caráter espetacular das imagens de um único show da banda de Mick Jagger e Keith Richards. Scorsese não quer aprofundar discussões complexas em torno dos motivos que levaram os hoje já sexagenários ingleses ao patamar em que se encontram, quer apenas expor a sua grandeza dentro do universo da música popular mundial.

“Shine a Ligth” tem a assinatura estética dos filmes de Scorsese: montagem ágil, que ao mesmo tempo em que dá ritmo à sucessão de planos, permite também a absorção plena dos quadros compostos pelo diretor, ainda que esses planos tenham pouca duração. Não existe aquela edição confusa e forçadamente frenética de apresentações de rock que o público está acostumado a ver nas performances ao vivo registradas pela MTV e nos DVDs de shows que as grandes gravadoras lançam no mercado para promover os discos de seus artistas contratados.

As câmeras de “Shine a Light” estão em constante movimento, captam os membros dos Stones em todo o vigor de suas atuações no palco; Scorsese deixa claro o papel de protagonistas do espetáculo que eles exercem. Não existe no longa aquela manjada preocupação em registrar as pessoas da platéia em estado de “prazer e alegria”; quem estava presente no teatro em Nova York onde o show foi gravado aparece apenas como parte de um espetáculo maior, surgem apenas em planos de fundo; o primeiro plano é exclusividade da banda.

Antes de vermos a apresentação ao vivo, assistimos na tela os preparativos de Scorsese e sua equipe para a realização do longa. O cineasta, nos primeiros dez minutos do filme, aparece como protagonista, dividindo a tela com os membros da banda e tentando não perder o controle daquilo que pretende registrar com suas lentes. Insiste com Mick Jagger para ter acesso às músicas que serão tocadas no show e faz de tudo para impor aos músicos a necessidade de aceitarem a presença das câmeras, da iluminação e de elementos de palco que serão usados como “cenário” para o documentário. Fica claro como Martin Scorsese encara todo o processo com o olhar apurado de um cineasta que sabe o que quer levar às telas.

O novo longa de Scorsese é totalmente direcionado para os sentidos, envolve o espectador com uma mistura precisa entre o poder de suas imagens e as músicas dos Rolling Stones. A intenção do cineasta é fazer com que o público sinta no cinema um pouco da energia e do desempenho do grupo ao vivo. Embora seja um filme de intenções estéticas, o cineasta acrescenta alguns elementos que propõem uma discussão em torno do mito do Rolling Stones. Desde a longevidade da banda, até o fato de seus membros (principalmente Keith Richards) terem sobrevivido a grandes abusos de drogas são abordados no filme através de depoimentos dos Stones, que são inseridos durante o show ao vivo de “Shine a Ligth”. Vemos Richards, Mick Jagger, Charlie Watts e Ron Wood falando sobre a banda e também sobre suas vidas em um material de arquivo que o diretor levantou com imagens desde os anos 60 até os dias de hoje. Essa discussão entre a história dos músicos e o atual momento de reconhecimento e consagração mundial que vivem serve como um elemento a mais no documentário, mas em nenhum momento tira o foco principal que é apresentação ao vivo em Nova York.

É interessante criar um paralelo entre o filme de Scorsese, de 2008, com “Sympathy for the Devil”, longa que Jean Luc Godard dirigiu na segunda metade dos anos 60. Para Godard, o que interessava era o mundo em torno dos Stones, tudo o que estava acontecendo no planeta na década de 60, principalmente as tensões políticas da época. O cineasta francês registra a banda em um ensaio e desenvolvendo uma de suas célebres composições: “Sympathy for the Devil”. Mas o principal são as cenas que Godard insere em sua obra, a dialética que cria para tentar expor seus conceitos e seu posicionamento diante de fatos muito mais relevantes do que um grupo de rock ou uma canção. Já para Scorsese, o que importa são os Stones, seu poder catártico no palco e suas músicas já transformadas em clássicos do mundo pós-moderno.

“Shine a Light” reforça que o os Rolling Stones têm uma química perfeita com o palco. É difícil imaginar seus integrantes longe das turnês, distantes de seu público. A câmera de Martin Scorsese capta o prazer de Mick Jagger e companhia, a naturalidade como encarnam o papel da maior banda de rock do mundo, pelo menos desde o final dos Beatles. Mesmo com mais de 60 anos, eles se apresentam com uma total naturalidade, nada em sua performance é forçado. Não é só pela grana que eles não abandonam os refletores. Mérito para Scorsese por ter conseguido um relato tão autêntico do poder da banda.

Leia também:


Muito show e pouco cinema