SERRAS DA DESORDEM:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Andrea Tonacci
Elenco: Carapirú, Tiramukõn-Bemvindo, Myhatxiá, Sydney Ferreira Possuelo, Wellington Gomes Figueiredo, Luis Aires Do Rego, Estelita Rosalita Dos Santos, Talita Rocha
Duração: 135 min.
Estréia: 28/03/2008
Ano: 2005


"Serras da Desordem": O que é isso que acabamos de ver?


Autor: Fernando Watanabe

O que é isso que acabamos de ver? Um filme? De cinema? Se levarmos em conta que sua exibição segue todos os rituais da instituição cinema (luzes apagadas, sala de exibição, projetor de uma cópia em película), sim, isto é um filme feito para cinema. Mas a dificuldade de categorizar “Serras da Desordem” em algum lugar comum específico (filme de arte, subversivo, anti-cinema) já dá idéia da desordem emocional/intelectual que vemos passar diante de nossos olhos. No entanto, cabe à crítica escrever, porém sem a obrigação ingênua e a pretensão soberba de tentar explicar o sentido do filme.

Um documentário ou uma ficção? O primeiro corte do filme já esclarece: após o primeiro plano geral do índio trabalhando no tronco de madeira, há um corte para um plano próximo em continuidade de movimento, com a câmera filmando de um local que estes dois planos dão a entender que eles só podem ter sido filmados com um intervalo razoável de tempo. Estamos diante de uma ficção genuína. Estamos diante do olhar de Andréa Tonacci sobre aquela história real do índio Carapiru.

Esse olhar é compreensível acima de tudo, e busca a beleza de forma incansável. Certos planos a princípio podem parecer chocantes para o nosso bom gosto: macacos queimando ao fogo para logo depois serem comidos pelos índios. Ora, mas não será o massacre, conduzido pelos fazendeiros no início do filme a verdadeira crueldade? E mais, matar não para se alimentar da carne, mas por terras, por propriedade agrícola a ser anexada a seus feudos? Tonacci não julga, retira a beleza do improvável, e ainda dá a dica de seu posicionamento em relação ao assunto de forma cinematográfica: na cena dos macacos cozinhados o som é tecido com ambiência (passarinhos, vento), enquanto no massacre a música é sinistra e incisiva.

Da mesma forma como nos créditos finais. A câmera está fixa sobre Carapiru sentado sozinho, e de forma inesperada o enquadramento faz uma panorâmica para o céu. Um avião criado por efeitos gráficos corta a tela, o som da máquina é alto, reforçado pela mixagem. A tecnologia (avião, câmera, manipulação cinematográfica) e sua potência criadora e destrutiva converge num único plano.

Ao final sobem os créditos, acompanhados por uma música tensa e sombria. Com essa construção, estará o filme dizendo que a tecnologia está sendo mais negativa que positiva? Que ela sufoca a individualidade dos seres (Carapiru sentado sozinho)? Ou que na verdade a tecnologia pode ser usada para o mal (a dominação cultural) e para o bem (o aparato cinematográfico que possibilita a criação artística bela)? São múltiplas perguntas em meio as quais podemos nos dar ao luxo – e ao prazer - de nos perder, durante e após o filme. “Serras da Desordem” é eterno porque muitas boas análises tentarão explicá–lo de formas diferentes, e com o distanciamento do tempo os bons críticos saberão racionaliza-lo de forma a localizar o filme na história e julgar com a devida sobriedade seus devidos valores estéticos. Cada texto carregará sua verdade convicta.

Por enquanto, a única certeza que tenho é que Serras é o filme mais impressionante que existe, seja no mundo, no cinema, ou somente na minha cabeça. Não importa onde, felizmente “Serras da Desordem” existe, e temos sorte de estarmos vivos para assisti-lo no momento de seu surgimento.

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