TRAÍDOS PELO DESTINO:


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Original: Reservation Road
País: EUA
Direção: Terry George
Elenco: Joaquin Phoenix, Elle Fanning, Jennifer Connelly, Mark Ruffalo, Mira Sorvino
Duração: 102 min.
Estréia: 28/03/2008
Ano: 2007


Thriller trata de dor e vingança com competência


Autor: Fernando Oriente

A vingança, principalmente quando é movida por um sentimento de justiça, é um tema caro ao cinema. Desde os primórdios da sétima arte diretores e roteiristas tentam traduzir na tela esse que é um dos mais viscerais mecanismos de funcionamento do ser humano em situações “limite”. “Traídos pelo Destino”, do inglês Terry George (que também assina o roteiro ao lado de John Burnham Schwartz), trata da vingança e da obsessão em fazer justiça de um pai que tem seu filho morto em um atropelamento. Após o acidente, o motorista foge sem deixar praticamente nenhuma pista para sua captura. A culpa e a dor também estão presentes ao longo de toda a projeção e não são exclusividade de apenas um ou outro protagonista. A mistura de sentimentos que acaba por aproximar os dois homens é um dos pontos de destaque do filme.

O plote do longa não é nem um pouco original, mas a construção do filme, das tensões e das situações dramáticas, fazem de “Traídos pelo Destino” uma obra interessante, que deve ser conferida. Além das qualidades como thriller, George consegue um bom resultado ao dar textura e complexidade a seus personagens principais. Tanto o pai atormentado (Joaquin Phoenix), quanto o assassino consumido pela culpa (Mark Ruffalo) são construções sólidas, tipos bem compostos pelo roteiro e levados à tela com talento pela boa mis-en-scene do cineasta inglês.

Uma das principais qualidades estéticas do longa está no abuso da montagem paralela, que desde o início contextualiza os personagens e garante uma boa sensação de expectativa para os dramas que irão se desenrolar. Ao vermos esses dois homens em seu estado de fraqueza, em seus momentos de desespero e dúvida, sentimos todo o aspecto da fragilidade humana que os faz, sem quase nenhuma noção lógica, seguirem em frente.

A escolha de Mark Ruffalo para o papel do assassino é outro acerto do filme. O ator passa uma enorme fragilidade para seu personagem. Vemos que ele é um homem comum, que cometeu um ato terrível, que causou uma dor impossível de ser suportada para outras pessoas, gente comum como ele. Esse aspecto ordinário, de homem frágil que tem que lutar todo o tempo para seguir vivendo em meio ao complicado relacionamento com o filho, com a solidão de uma vida profissional medíocre e sem perspectivas de grandes triunfos, faz com que o espectador entenda seu comportamento e sensibilize-se com sua luta em preservar o pouco que tem na vida. Mesmo entendendo o mecanismo de suas ações, o público sabe das conseqüências de seus atos e da impossibilidade de sair ileso dos fatos que desencadeou.

Ao mesmo tempo em que “Traídos pelo Destino” trabalha bem seus protagonistas masculinos, cai no erro de apresentar tipos femininos fracos, que são colocados em papeis secundários e mal trabalhados, principalmente pelo roteiro. A presença de boas atrizes como a bela Jennifer Connelly e Mira Sorvino, se perde em meio a fragilidade dramática e ao lugar-comum de suas personagens.

A edição ágil é outro fator positivo no longa, dando-lhe um bom ritmo do começo ao fim, através de planos curtos e bem amarrados. A câmera de George procura sempre o rosto de seus personagens, registrando em suas expressões o turbulento estado mental que move suas ações.

O filme de Terry George levanta algumas questões profundas, embora não chegue a desenvolvê-las em todas as suas possibilidades. Fazer justiça, à margem do sistema legal, pode diminuir os efeitos do que talvez seja a pior dor do mundo (a perda de um filho)? Qual o real valor, qual a recompensa que alguém pode ter em aplicar um castigo em uma pessoa, por mais que ela mereça?

Esses questionamentos permeiam todo o filme e ajudam a manter o vigor da narrativa. Mas, ao concluir seu longa através de uma escolha até certo ponto contemporizadora, George deixa transparecer uma certa falta de coragem em romper com certas convenções do cinemão. Sente-se que o diretor inglês evitou ousar mais com a intenção de agradar um maior número possível de espectadores.

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