CHEGA DE SAUDADE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Laís Bodanzky
Elenco: Tônia Carrero, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Paulo Vilhena, Maria Flor, Elza Soares, Leonardo Villar
Duração: 92 min.
Estréia: 21/04/2008
Ano: 2007


O drama de não saber para onde ir


Autor: Liciane Mamede

“Chega de Saudade” começa apresentando seus personagens principais (se é que é possível dizer que essa hierarquia existe no novo filme de Laís Bodanski) por meio de planos demasiadamente apressados. Percebemos o que está se passando em cena – Paulo Vilhena e Maria Flor chegam com os equipamentos de som, no mesmo instante em que Tônia Carrero e Leonardo Villar, este com o pé imobilizado, descem de um taxi –, mas não sem que um ligeiro incômodo nos acometa. Quem são aqueles personagens que invadem a tela em planos tão frenéticos? Por que não podemos nos deter sobre eles por mais tempo do que os dois ou três segundos da duração de cada plano? Muito cedo para que qualquer impressão possa nos conduzir com alguma propriedade a uma conclusão sobre o filme (já que, até aí, só se passaram cinco minutos), certo? Porém, a sensação de que os planos de “Chega de Saudade” se auto-fagocitam diante de nós, quando, na realidade, o que queríamos era estar sendo calmamente conduzidos pela mão para o interior de sua diegese, gera um inevitável receio quanto ao que virá em seguida.

A certeza de que o filme apostará alto em seus personagens já pode ser depreendida desta cena inicial: Villar vai ao baile mesmo com o pé imobilizado; se recusa a pagar a parte da mulher, Tônia Carrero, na corrida de taxi (depois, descobriremos que ambos são “apenas” namorados). Enfim, pequenos detalhes e alguns conflitos já indiciados que, logo de início, prometem alguns bons ganchos dramáticos.

Não demorará muito para percebermos que “Chega de Saudade” não consegue desenvolver esses ganchos. Pelo contrário, o peso dos papéis (ou, muitas vezes, estigmas) simbólicos que cada um dos mais de 10 personagens do filme carregam tornam a narrativa tão labiríntica, que a obra acaba tendo que dar aos dramas de cada um soluções simplórias. Mas, enquanto estamos ainda nesta primeira seqüência do filme, por que não nos mostrarmos passíveis de sermos cativados por uma proposta que, para dizer o mínimo, parece muito simpática?

A idéia de fazer um filme cujo espaço-tempo se configura quase todo dentro de um “baile da saudade”, soa bastante cativante – embora, não menos arriscada. Ser introduzido à obra pelo simpático casal Tônia Carrero e Leonardo Villar, que chegam ao local do evento para dançar, se divertir, encontrar seus amigos; a insistência do filme em nos mostrar a cumplicidade existente entre as pessoas que fielmente se encontram no local toda semana; a forma com que o baile nos é apresentado, como uma espécie de elemento capaz de preencher um espaço vazio e devastado dos personagens; todos esses exemplos citados não deixam de ser recursos usados em prol de nos induzir a ficar na superfície bonitinha e “humana” do filme e, assim, ter dele uma impressão positiva.

Se por um lado, o filme faz sua escolha e elege como critérios prioritários de mise-en-scene uma abordagem que poderia render maior apelo popular (as linhas narrativas são conduzidas quase como num capítulo de novela). Por outro, ele negligencia de forma arriscada a construção do plano e das cenas. As soluções usadas na obra para superar as limitações de se filmar numa única espacio-temporalidade, por exemplo, são bastante frustrantes. O uso da câmera (extremamente inquieta), fotografia e, por fim, a edição (um tanto esquizofrênica) não parecem convergir para a atmosfera que a obra parece demandar. Isso acaba criando um grande impasse. Dificilmente um filme que não consegue se expressar esteticamente consegue ser grande em dramaticidade. “Chega de Saudade”, na contra-mão de todas as suas apostas, não constrói personagens que nos tocam porque não consegue criar uma dramaticidade suficientemente forte e vasta para inseri-los.

Aliás, o desvio grosseiro que o filme acaba fazendo daquele que seria seu principal objetivo adquire formas explícitas na personagem de Betty Faria. Assídua freqüentadora do baile, ela raramente é tirada para dançar ou recebe elogios. A razão para tal fato é sugerida por um conhecido que chega à mesa com o intuito de paquerar sua amiga: mau hálito. Não sabemos ao certo se esse é o problema de Betty, que parece bastante inteirona e, por isso mesmo, chega até a destoar das outras mulheres do local, o fato é que ela acaba tendo que remediar sua solidão e desilusão com uma espécie de michê de baile. Por dez reais, dança com ele e ainda lhe rouba um beijo e um amasso num canto escuro. É quase dispensável dizer que a cena soa bastante desconfortável e constrangedora para quem assiste ao filme. Mas o pior, realmente, é perceber o quanto “Chega de Saudade” está longe de conseguir explorar seus personagens de forma a fazer com que eles cativem o espectador. A mão parece pesada demais para isso. Há um abismo entre aquilo que o filme parece querer ser e o que ele de fato é.

No fim das contas, o filme não consegue ir além de ser um grande painel de personagens e historinhas sob o ponto de vista dos clichês mais grosseiros: o marido que trai a esposa; a velha encalhada que não consegue parceiros; a mulher de meia-idade que é trocada pelo brotinho de 20; o velho-garotão que arrasta asas para a menininha; o homem que quase morreu, mas não o bastante, ainda frequenta o baile assiduamente; o casal que se conheceu dançando; a velha fogosa que não se importa com a condição de amante. É difícil pensar em algum estereótipo que tenha sido esquecido – e nesse sentido, o grande mérito do filme pode ser atribuido à equipe de pesquisa. Ressalto que a questão não é necessariamente trabalhar com estereótipos, boas comédias freqüentemente fazem isso, o problema é perder a mão e transformar aqueles que supostamente seriam o grande trunfo da obra em entraves que nos constrangem, ao invés de nos seduzir.

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