NÃO ESTOU LÁ:


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Original: I'm Not There
País: EUA/Alemanha
Direção: Todd Haynes
Elenco: Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett, Richard Gere, Julianne Moore
Duração: 135 min.
Estréia: 21/04/2008
Ano: 2007


"Não estou lá" - Contadores de histórias


Autor: Cid Nader

Todd Haynes, aparentemente, tem apreço especial por música. Basta lembrar que havia realizado um curta-metragem em 1987, "The Karen Carpenter Story", e bem mais recentemente (2002) o longa "Velvet Goldmine". Daí a "I'm Not There", um pulo não tão estranho, se pensarmos na construção de uma obra que encontra nesse apreço à música uma ligação e coerência que acabam por lhe dar um certo rumo e uma certa identidade. Mas, um pulo muito mais do que estranho nos quesitos técnica, qualidade, imaginação, roteiro, essência; um pulo genial, isso sim. Em "Velvet Goldmine" – no qual o músico "retratado" é o mitológico David Bowie – há a construção ousada, não acomodada também, digna e, principalmente, cheia de "imaginação cinematográfica"; o "azar" desse outro é que em "I'm Not There" Haynes conseguiu se superar, e essa tal "imaginação cinematográfica" foi às raias. Digo brincando "imaginação cinematográfica", como o resultado e a capacidade do diretor em utilizar possibilidades e ferramentas que qualquer um que mexa com a arte tem à mão, mas que poucos ousam tentar, usar, e muitos menos com tanta qualidade.

Começo como grande exemplo citando a "desativação" da personalidade central a ser retratada – no caso aqui, o cantor e ídolo genial, Bob Dylan -, que é pulverizada em seis ou sete personagens distintos fisicamente, temporalmente e até em aspectos fundamentais de traços de personalidade; que na realidade são o mesmo cantor em diversas instâncias, visto por diversos modos de olhar, mas que extrapolam em sua existência na tela o que poderia ser considerada uma genial "sacada" estética do diretor, ao darem razão mais lógica para tal ousadia ao "se" emprestarem como personagens criados pelo próprio Dylan no transcorrer de sua vida. O cantor é o grande contador de histórias da música americana; teve diversos momentos de modificação no foco de suas letras e de suas controversas entrevistas; inventou histórias e inventou a si mesmo variadamente. E o que Todd Haynes fez ao pulverizar um Dylan "real" em diversos outros, nada mais foi do que respeitar e entender sua trajetória, seu modo de deixar suas marcas, o que suas letras sempre cantaram; aproveitou-se de um contador de histórias que nunca se deixou mostrar verdadeiramente, e o "homenageou" com esse espargimento.

Para alguém mais desatento pode ser confuso pegar o fio da meada desse filme, quando uma criança negra – Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) - assoma com traços adultos, falando de bebedeiras, cantando sobre trens e vagabundos, e se deixando ser "adotado"; quando o filme pula para outro personagem que irá se casar, se apaixonar e ter dois filhos; quando um "dândi" faz declarações para um entrevistador oculto com caras e bocas de gênio de saco cheio. Mais alguns outros "quando" e surge a personagem mais parecida fisicamente com o cantor, que é interpretada por Cate Blanchet. E aí, talvez, aquele que pode ter demorado a pegar o fio da meada, tem algo mais sólido do ponto de vista de não dubiedades e pode começar a compreender que um diretor de cinema está contando uma história fantástica de alguém que sempre jogou lenha na fogueira em busca de sua não elucidação fácil. Como seria de se esperar, num filme que aposta tão fortemente na ousadia muitas pistas têm que ser seguidas para uma tentativa de compreensão e correto aproveitamento. Muito do que se diz no filme é originado de supostas declarações de Dylan, de entrevistas ou documentários não comprovadamente verdadeiros; mas muito também é extraído de letras de suas músicas de contador de histórias. Não há, portanto, como seria novamente de se esperar, uma verdade "total", didática, careta, biográfica sendo contada e, junto com a alternância das faces e corpos de um Bob Dylan que jamais é único mesmo, uma amplidão para a compreensão e para a avaliação se abre, o que ratifica o filme como peça múltipla e muito mais interessante.

Saindo um pouco da história e dos personagens e voltando ao início da película, a cena inicial é de um primor PB inigualável, quando toma emprestada para si cenas do palco do Royal Albert Hall em 1966, divaga pelo "negro" do não se saber o que ocorre e, mais à frente, revela as caras sujas dos trabalhadores e marginalizados, que foram muitas vezes tema das canções do cantor, remetendo o espectador a um mundo que põe em dúvida o que irá ser contado mais à frente. Há uma manipulação da ferramenta câmera, muito pouco usual – tanto quanto saudável e coerente com o modo optado para o filme - a partir desse início e no decorrer de todo o trabalho. Tanto quanto uma edição que – obviamente – alterna modelos padrões, cortes secos, emendas "comandadas" pela opção na utilização dos travellings, e verdadeiros "quadros" retratando em cores e potência capas de diversos discos. Há todo um primor inventivo estético que simplesmente – muito além de ser demonstração gratuita de mera capacidade na manipulação dos instrumentos da arte – se faz justo em desafio, paralelamente ao desafio lançado pela escolha dos personagens e pelo modo nada "natural" da fruição.

Todd Haynes não diz abertamente porque resolveu "inventar" tanto. Certo que já deu para perceber um pouco das razões por conta do paralelo de vida de Bob Dylan. Mas há muito mais por trás. Há a impressão da tentativa deliberada e forçada na quebra de estruturas mais comuns. Há a possibilidade de o diretor estar tentando com esse trabalho criar uma novidade, que ligaria um modo de ser a um modo de mostrar, o que indicaria novas e incontáveis tendências e possibilidades nos modelos fílmicos para quem resolver optar por tal estratégia. Mas não dá para discutir somente sobre a bela esperteza da diluição do ser central – bom lembrar, também, que o nome de Bob Dylan não nomina nenhum dos personagens do filme -, ou sobre a beleza da utilização das idéias gerais do cantor misturadas a letras suas para compor o painel literário, ou, mais ainda, sobre os resultados obtidos nas grandes composições de imagens, sem destacar, dentre tudo de bom que o filme entrega o tempo todo, o personagem Billy the Kid/Bob Dylan (vivido de maneira sublime, terna e entristecida pelo ator Richard Gere – arrisco dizer sua melhor performance na carreira). No mais meta-filme dos metas-filmes que compõe toda a estrutura do trabalho – talvez pela enorme diferenciação no tempo histórico – aparece essa representação do cantor no segmento mais diretamente ligado ao trabalho do compositor, com o personagem que mais tem a ver com o cantor, que se indigna e tenta dar um jeito (Bob faria isso; fez isso sempre em suas letras e em seus protestos) nas situações que fogem ao controle. Há toda uma seqüência extremamente plástica e contundente nesse segmento (temos bichos soltos, temos suicidas), que ganha uma força estranha e potência indescritível com a imagem ostentada de uma jovem morta, em seu caixão, com os olhos abertos. Richard Gere foi o maior beneficiado do filme (e é bom lembrar que todos estão tremendamente bem em suas caracterizações) pelo caráter de seu personagem, e pelo que conseguiu emprestar a ele por conta de uma interpretação "Dylanesca" sem igual – de uma tristeza e inconformismo calmo comovente.

Texto difícil esse, na minha tentativa de lhe passar uma certa fluência e encadeamento. Mas creio que tenha saído assim mais pelas opções mil oferecidas por Todd Haynes à nossa compreensão. Pela tentativa de enxugar um texto que mereceria - e merecerá - muito espaço a mais para considerações. Texto que jamais conseguiria explicar a contento o quanto de cinema existe em "I'm Not There".

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