CADA UM COM SEU CINEMA:


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Original: Chacun son cinéma
País: França
Direção: Walter Salles, Gus Van Sant, Manoel de Oliveira e outros
Elenco: Vários
Duração: 117 min.
Estréia: 14/03/2007
Ano: 2007


"Cada um Com Seu Cinema" – quem é bom é bom sempre. O contrário também se aplica...


Autor: Cid Nader

Para homenagear os 60 anos do festival de cinema mais badalado pelos críticos e cinéfilos mais exigentes, o de Cannes – embora não seja o de maior importância artística, hoje em dia, na realidade -, seu presidente, Gilles Jacob, convidou algo em torno de 30 cineastas (digo algo em torno, por que, realmente, não tenho certeza se é esse mesmo o "megalonúmero" de realizadores envolvidos; difícil contar) para emitirem suas opiniões e declararem suas homenagens através do ofício em que transitam. Já começa com uma boa sacada tal iniciativa, que é a de ter limitado o tempo em três minutos para cada realizador, fazendo com que eles "disputassem" a primazia de mostrarem suas habilidades em pé de igualdade, e fazendo com que o público já, de antemão, tivesse a certeza de quanto teria de sofrer ante uma obra ruim, ou de quanto teria de sofrer por conta do fim próximo de trabalho feito por realizador de cabeceira.

Filmes de conjunto costumam ser bastante irregulares – fato óbvio -, mas também carregam em si a maldição do cansaço que passa, a partir de um dado momento, a tomar conta do espectador – bastante compreensível pela mudança drástica de rumos, estilos (até iluminação ou velocidade), num fenômeno que o obriga a sair fora de sua acomodação mental de repente, quando já acostumando com o que vê -, o que até acontece por alguns momentos em "Cada um Com Seu Cinema". Mas a limitação de um tempo bastante curto – não começa a viciar a ninguém – e a qualidade da maioria dos trabalhos caíram como uma bênção dos céus. Há uma homenagem oficial a Fellini – lá nos créditos iniciais -, pensada pelo organizadores do trabalho, mas os cineastas se espalharam com suas próprias homenagens particulares a alguns outros cineastas, sendo que o que mais mereceu méritos louvatórios foi Robert Bresson, com dois de seus filmes "citados": "Au Hasard Balthazar" e "Mouchette a Virgem Possuída", respectivamente em belos exemplares de Jean-Pierre e Luc Dardenne e Hou Hsiao-hsien.

Já que citei dois trabalhos vou dizer que o filme dos irmãos belgas não foge de suas temáticas recorrentes: fala de pecado (por falta de oportunidade, talvez) e perdão, enquanto se ouvem os barulhos do filme de Bresson emanando da tela; e o "trabalhinho" de Hou Hsiao-hsien só confirma a razão de estar sendo ele considerado como um dos grandes do momento, com capacidade de utilização dos recursos técnicos para se obter uma boa filmagem, mas extrapolando o que simples mortais obteriam; a câmera plana, escolhe detalhes sutilmente, invade a sala de cinema abandonada e "imagina" a mais bela e lúdica cena, "Mouchette". Theo Angelopoulos homenageia Mastroiani, mas extrapola um pouco na tentativa de carregar na carga emocional – que tem até um belo momento, com a ajuda de Jeanne Moreau; mas um tanto over. Nani Moretti também não escapa de seu estilo falastrão inteligente, e homenageia o "baixo" cinema, por vezes com sinceridade, por vezes de forma jocosa. Olivier Assayas repete seus signos e vícios – um trabalho morno. Os irmãos Cohen repetem seus signos – moderninhos – e seus vícios, e entregam um outro trabalho morno.

Mais trabalhos exemplares são, o do mestre Abbas Kiarostami, que – esse sim sabe o que fazer sem carregar artificialmente na emoção facilitada – filma essa tal emoção nos olhos de suas mulheres ante a tela de cinema; o do mestre português Manoel de Oliveira, que ao contrário, vai fundo no humor e obtém um resultado de muita qualidade e principalmente, muito perspicaz; o do ainda não mestre, mas craque David Cronemberg, que foge de suas características "estranhas", mas cria um outro tipo de estranhamento, com muito humor arrancado de racismo "fingido"- detalhe é a protagonização executada pelo próprio diretor.

Takeshi Kitano está longe de ser um mestre, mas também é craque em alguns estilos, e sabe fazer humor "diferente", esquisito, como poucos: se auto-goza, concluindo seu filmete com uma tomada pra lá de cinematográfica. Sabendo também usar estilo próprio comparece Wong Kar-wai, se repetindo, às suas trilhas sonoras, aos seus vermelhos...; ainda bem. E dentro de seus domínios outro oriental, que visita sua infância, coloca sua assinatura, se mantém fiel e produz um trabalho dos melhores: Tsai Ming-liang; e dentro dos que se deram bem nesse espetáculo de desafio, mantendo característica – quando fala de sexo de modo estranho e ousado -, mas fugindo dela quando revela ser seu trabalho uma piada, temos o polonês Roman Polanski.

Não dá para dar pitaco de todos, mas pesando prós e contras é obra a ser vista – os prós foram em muito maior quantidade. Decepções: Amos Gitai e Atom Egoyan - não tão decepções, pois não me causam grandes expectativas. Mesmices: Claude Lelouch, Zhang Yimou, Alejandro Iñarritu, e por aí afora.
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