JUÍZO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Maria Augusta Ramos
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 14/03/2008
Ano: 2007


"Juizo": O mal-estar em aberto.


Autor: Fernando Watanabe

Uma cartela inicial põe na mesa suas estratégias de encenação: mescla entre “não – atores” representando menores delinqüentes e personagens “verídicos” e todos os outros, menos os menores, são personagens reais. Mas, via de regra, todos automaticamente se tornam atores ao serem fotografados por uma câmera. Mas, não é isto que está em discussão (uma superada dicotomia que costuma opor documentário e ficção). O que mais interessa é essa convivência entre personagens dotados de diferentes (e opostos) registros de atuações por parte da instância narradora. Colocar no mesmo quadro personagens que parecem vir de cantos opostos do universo, e que, portanto, soam na imagem estarem em sintonias distintas. É simples: os verossímeis, figuras da lei falantes e performáticos, são alegorias, sintomas do sistema maior. Os mudos, as crianças, são os que pior falam para melhor sentirem. O filme inteiro oscila entre essa busca pelas sensações e a necessidade de fazer um espelho crítico do sistema judiciário. Talvez esteja fazendo dessa oscilação seu jogo.

Ao contrário do que seria mais fácil e óbvio, o filme não irá propor uma exploração dramática que potencialmente há no encontro dos “verídicos” (os juízes, advogados, policiais, pais, os adultos) com os “não atores” (menores delinqüentes). Não se está afirmando com isso que Juízo negue o drama. O que se pode dizer com muita certeza é que o filme se empenha em limar procedimentos que, tradicionalmente, alçam o material ao dramático mais fácil. Juízo é um esforço, quase franciscano, de secura da linguagem. Não só evita a todo custo artifícios populares como “locução em over”, como aprisiona a palavra falada exclusivamente na boca dos personagens representantes da “Lei”. Os advogados, a juíza, e um pouco menos, mas também os pais, todos estes estão condenados a falar. Os menores, por sua vez, quase não falam. Quando o fazem, é somente porque foram interpelados por outra pessoa – sendo o interpelador geralmente um adulto da Lei - ou seja, no quesito verbal, eles apenas reagem. Reação que se dá ora com apatia, ora com indiferença, ora de forma monossilábica e raras vezes articulando uma frase completa. O que essa mudez toda por parte dos garotos significa?

Conceitualmente, todos os menores infratores são vistos pelo filme mais como integrantes de um conjunto do que como individualidades plenas. Os “processos” judiciais pelos quais estão passando são apenas mais alguns dentre outros tantos deste país; imagens de papelada burocrática arquivada ressaltam esse aspecto generalizante. A palavra “próximo”, desferida pela juíza, cisma em retornar durante outros momentos do filme. E a montagem curiosamente possui cortes considerados “frouxos” dentro de uma lógica convencional. Não são frouxos, tais cortes apenas querem mostrar os espaços vazios imediatamente desocupados pelos menores infratores (como a cadeira do réu) para constituir essa noção de algo cíclico. Sendo mais claro, é como se um menino chegasse, sentasse, respondesse o processo e fosse embora, mas a cadeira continua lá. O sistema judiciário continua lá. Atolado. Estratificado. A meu ver, a montagem lenta, que teima em estender os planos, procura reconstituir esse “peso” do sistema. Procura-se limar a psicologia dos meninos, fazendo-os apenas com que reajam frente aos estímulos do mundo. Não são interioridades que se manifestam para o fora, são exterioridades que ressoam nos indivíduos. Essa força exterior que parece guiar o funcionamento dos adolescentes parece estar em todo e em qualquer lugar, vindo de fora do filme. São circunstâncias de suas vidas inteiras que o levam a se comportarem assim durante este filme em específico. É a vida vista como batalha que parece estar exaurindo as energias desses jovens autômatos. Enfim, não é o sistema judiciário o melhor foco de Juízo. O filme é mais potente quando foca o sofrimento. Diante de problemas insolúveis, seres humanos sofrem.

Não à toa, as imagens mais fortes do filme estão numa cena em que as mães vão visitar os filhos no presídio. Encontros de corpos, um corpo apoiando o outro, mães e filhos tendo um raro momento de convívio. Como isto está filmado? Planos gerais (a visão de “conjunto” do filme), mas também planos próximos que destacam alguns pares de mãe e respectivo filho. Interessante notar que, mesmo quando as imagens se aproximam de personagens específicos, a malha sonora continua a ser generalista. Nunca se houve um murmúrio ou lamento individual (por mais que estes possam ser deduzidos da imagem); um som ambiente de massa, caótico e incômodo, parece abafar qualquer espécie de choro individual. O choro é coletivo.

Para constituir esse universo em que seres humanos sofrem, resignados, diante de um mal relativamente genérico, há toda uma artificialidade que deseja ser notada. Há um desejo de cinema que grita bem alto para ser visto. Por vezes, a artificialidade e o desejo de cinema realmente estão lá. Mas nem sempre se transcende o conceito para se chegar à expressividade cinematográfica mesma (exceção feita à já comentada cena das mães). Em todo caso, o conceito é bem claro e firme, trabalhado com disciplina audiovisual, culminando em um final mais cerebral do que sensorial. Vejamos a cena. Ao final de mais um processo, as autoridades começam a rir, encarando o caso de forma banal e chegando quase a ridicularizar o garoto réu. Mais do que notarmos a escrotice das autoridades, entendemos essa cena como a ridicularização, por parte do filme, do sistema. Ironia bastante premeditada para fechar o filme de forma supostamente insolúvel. O filme se resolve pretendendo deixar a questão em aberto. Ou melhor, o mal-estar em aberto. Conclusão pseudocômica que, certamente, pretende consolidar o mal estar perpetuado pelos créditos silenciosos.

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