MEMÓRIA DE QUEM FICA:


Fonte: [+] [-]
Original: 18 - J
País: Argentina
Direção: Daniel Burman, Adrián Caetano, Lucía Cedrón, Alejandro Doria, Alberto Lecchi, entre outros.
Elenco:
Duração: 100
Estréia: 09/09/2005
Ano: 2004


"Memória de Quem Fica" - um trabalho coletivo pela paz


Autor: Cid Nader

Por conta do aniversário de 10 anos de um dos mais graves atentados sofrido por judeus, fora do estado de Israel, nove cineastas argentinos reuniram trabalho alusivo ao fato, e entregaram aos povos um "filme homenagem": "Memória de Quem Fica".

O atentado, perpetrado no dia 18 de julho de 1994, ocorreu no bairro Once - tradicional reduto de judeus mais antigos, e seus estabelecimentos comerciais, na cidade de Buenos Aires. Mais especificamente contra a "AMIA", uma associação cultural israelense, que comemorava à época 100 anos de existência - quase o dobro da idade do estado de Israel. Esse ato de barbárie resultou num macabro resultado de 85 mortos, dezenas de estabelecimentos comerciais e lares destruídos ou danificados, além da fratura emocional de toda uma nação.

Normalmente, esses trabalhos coletivos, acabam como obras irregulares, naturalmente, que não deveriam ser classificados com o selo de pureza de "obra cinematográfica". Não são idealizados com começo, meio e fim; os métodos de captação de som e imagens são diversos - dependendo de cada produtora envolvida -, inclusive com o uso de telecinagem; atores interpretando dramas, bailarinos ou material documental etc.

No caso de "Memória de Quem Fica" esse fenômeno se repete, mas o saldo é positivo. Pela qualidade do trabalho apresentado por cada um dos envolvidos e, principalmente, pelo tema abordado, de tremenda importância e relevância, por envolver povo que, passando por diásporas e holocaustos tem sua imagem calcada em nossa mentes.

Daniel Burman constrói uma espécie de documentário, no qual nos apresenta a uma região protegida por colunas e barras de concreto. Filma quase que com lente macro uma xícara de café, uma biblioteca, uma folha de papel encaixada em máquina de escrever, bolo de aniversário ou roupas penduradas num varal;com bom uso da câmera lenta, no silêncio que precede e durante o momento em que ocorre a explosão. Tem um carinho especial ao nos apresentar os tipos que têm seu comércio na região, com suas histórias e seu trabalho. Constatação feita por uma criança: a região não tem praças como o resto da cidade.

Lucia Cedron, sensível, conta a história, com atores, de Jacob e Marga, que tem uma filha já adulta, residente, por opção, em Israel, a quem ligam, no dia do atentado, por estarem preocupados com o noticiário que relata cruéis conflitos na faixa de Gaza. É véspera de sua viagem - dos pais - para visitá-la. Sua mãe prepara "maamoul" - doce de origem árabe - para levar. Aliás é curioso como o povo judeu, por conta de sua diáspora, "apoderou-se" e "maternizou" pratos de todos os lugares por onde passaram no mundo (varenike, na Bulgária ou Hungria; falafel, na Palestina, por exemplo). Uma história com final de olhar perdido a questionar por quês?

Alberto Lechia desloca o foco para centenas de quilômetros de Buenos Aires no dia do atentado. A região é a de Quebrada, nos Andes, com seus tipos indígenas, suas ovelhas e galinhas, som de rádio e céu azulíssimo. A notícia do atentado chega e então saberemos o que liga Quebrada à capital, ao bairro Once. O diretor consegue nos passar, de maneira convencional porém competente, o modo de vida simples e próximo do ideal almejado por muitos. Por quê sair, então? Por dinheiro, veja só se é possível! A pergunta de uma menina querendo saber "o que é judeu?", nos dá a dimensão do quão grande pode ser esse mundo.

Juan Baptista Stagnaro já nos traz de volta a esse mundo mais cruel, dos adolescentes e seus lemas com uma prova, que abordará um trecho da "Divina Comédia", de Dante. É um momento que o diretor faz metafórico, onde, no inferno, Virgílio diz não entender os gritos de horror e as várias línguas em que se fala. Mundo cruel da adolescência, com suas brincadeiras brutas e atitudes extremadas no caso de fracasso; nem que seja pelo simples fato de não se ir bem numa prova escolar. O diretor não me pareceu feliz ao criar tal truque dramático; o da atitude extremada um pouco antes do atentado. Um tanto quanto norte-americano demais.

Marcelo Schapces faz seu trabalho transitar pela dubiedade. Parece maniqueísta e conservador no transcorrer do drama, mas termina seu filme com uma frase antagônica a tudo mostrado até então. Conta a história de um moleque que não está satisfeito por ocasião de seu "Bar Mitzvah" e contesta a religião, para desespero da mãe e avós, ultra religiosos. Ocorre o atentado, e toda a seqüência leva a crer, ser esse, o trabalho de maior teor reliogioso/otodoxo. Mas, como citei acima, a frase final me jogou no mundo das dúvidas.

Maurício Wainrot é coreógrafo e nos apresenta um balé como seu modo expressar-se sobre o atentado. O cenário sobre o qual se realiza chama a atenção; é de panos jogados sobre o chão, que no final mostrarão a razão de lá estarem.

Adrian Suar constrói o filme de enredo mais elaborado - o que não significa ser o melhor, muito menos o de melhores atuações. Mistura os preparativos da comemoração dos 100 anos "AMIA" aos de um "BRITZMILA" (cerimônia da circuncisão). A espera, ou não, de um tio, que engendra uma maneira especial de homenagear o sobrinho. A história termina 10 anos depois.

Alejandro Doria contesta com sua obra o andamento das investigações sobre o atentado. Expõe dados sobre o número de testemunhas ouvidas - mais de 1000 - fala de subornos e provas forjadas. Pressão por parte de autoridades policiais, falta de empenho do presidente Carlos Saul Ménen, que em uma ligação ao primeiro ministro de Israel para oferecer os pêsames, recebe-os de volta com a explicação de que são argentinos os que morreram. Tudo é narrado, de maneira teatral, por uma só pessoa, de modo rancoroso e sentido; acusatório e reclamando justiça.

Carlos Sorín, de maneira simples e ao som de uma obra de Haendel, "Lascia ch'io pianga mia cruda sorte", nos oferece o mais emocionante e singelo de todos os episódios. Félix, Diego, Fábian, Cristian, Rebeca, Eliá, Gregorio, Esther... É emocionante o olhar do ser humano.

A vitória do Brasil sobre a Itália na copa do mundo, no dia anterior ao atentado faz parte de vário dos episódios. Se me permitirem, gostaria de fazer uma observação que já havia feito num outro dia: enquanto governos reacionários e apoiados sobre o poder das armas se recusarem a partir para um diálogo aberto como tentativa de entendimento, são as pessoas, os seres humanos de carne, ossos e alma que continuarão a sofrer. Não existem colunas ou pilares de concreto que possam as proteger para sempre.

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