DOIS DIAS EM PARIS:


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Original: 2 Days in Paris
País: França/Alemanha
Direção: Julie Delpy
Elenco: Julie Delpy, Adam Goldberg, Albert Delpy, Marie Pillet, Aleksia Landeau, Adan Jodorowsky, Alexandre Nahon, Daniel Brühl
Duração: 96 min
Estréia: 14/03/2007
Ano: 2007


Julie Delpy estréia na direção com comédia leve e despretensiosa


Autor: Fernando Oriente

“2 Dias em Paris” é, antes de tudo, uma comédia engraçada. Escrito e dirigido pela atriz francesa Julie Delpy, o filme é despretensioso, provoca boas risadas em vários momentos e tem um inegável charme. A diretora estreante, que também protagoniza o longa ao lado de Adam Goldberg, tem o mérito de extrair graça de situações simples, temas comuns ao imaginário popular e, principalmente, consegue um bom resultado em seu primeiro trabalho por não se levar muito a sério nem tentar ser complexa em suas abordagens.

Nascida na França, onde iniciou sua carreira de atriz trabalhando com cineastas de primeiríssima linha como Godard (em “Detetive” e “Rei Lear”) e Kieslowski (“A Igualdade é Branca”) Julie vem, há anos, atuando em produções norte-americanas. Essa maior proximidade com os dois países deve ter inspirado a diretora a levar para a tela o choque e as diferenças culturais entre americanos e franceses. O casal de protagonistas, que passa os dois dias do título na capital francesa, representa arquétipos dessa grande diferença que separa o jeito de ser e agir de europeus e estado-unidenses.

O filme ri dessas diferenças, abusa com muito bom humor dos conceitos já impregnados na sociedade sobre as manias e vícios de franceses e americanos. Há no longa uma crítica sarcástica da visão que as pessoas têm sobre o jeito de ser dos representantes desses dois países. Os clichês são usados para provocar risadas e, de certa forma, enaltecer o que para Julie são características que definem o aspecto humano e a forma sadia da convivência entre seres diferentes em sua formação e também em sua visão de mundo. “2 Dias em Paris” tem, aí, uma mensagem de tolerância, que prega uma bem-vinda e proveitosa superação das diferenças e os une pelo afeto.

Guardadas as devidas proporções, existem ecos do humor de Woody Allen no filme de Julie Delpy. Como em “Atrizes”, filme de estréia da também atriz Valeria Bruni Tedeschi e que deve chegar aos cinemas brasileiros até o final do ano, a presença do estilo do cineasta nova-iorquino é sentida ao longo de quase toda a projeção. Seja através de diálogos rápidos cheios de cinismo e sarcasmo, na capacidade dos personagens de rirem de si mesmos ou no uso da cidade como pano de fundo para os sentimentos e ações dos protagonistas. A insegurança e a hipocondria dos tipos “woddy-allenianos” também estão presentes em “2 Dias em Paris”.

O bom humor marca presença em quase todo o filme, servindo como filtro para a diretora falar sobre choque de gerações e relações familiares, bem como discutir a sexualidade e o papel da mulher na sociedade pós anos 60. Todos esses temas são abordados sem prepotência, sem intenções catequizadoras ou militantes, Julie domina com firmeza a condução do filme e não se perde em tentativas de maior complexidade.

Qualidades a parte, o filme não deixa de apresentar alguns deslizes. A relação do casal, ponto central do “2 Dias em Paris”, acaba por descambar para discussões superficiais demais, contaminadas por um psicologismo de relacionamento que soa artificial. Algumas tensões dramáticas que são inseridas no longa perdem seu potencial por abusarem das caricaturas. O ciúme, que passa a mover o personagem de Adam Goldberg é mal explorado e soa banal demais, além de ajudar a quebrar o ritmo cômico da narrativa.

Ao optar por um happy end clássico, Julie abandona o senso crítico que desenvolve em boa parte do longa e abraça, mesmo que de forma sutil, os clichês que vinha utilizando para construir o humor do filme. Um pouco mais de cinismo cairia muito bem no desfecho, e seria mais coerente com o que a diretora mostra no restante de seu trabalho de estréia.

Apesar dos equívocos, “2 Dias em Paris” é um filme interessante, em que Julie Delpy demonstra talento na condução narrativa e na construção do humor. O longa mostra, também, uma Paris encantadora, em que a beleza da cidade é percebida em seus detalhes, fugindo dos clichês dos cartões postais e das imagens saturadas de seus pontos turísticos. Sem pretensões e optando pela leveza, a jovem diretora acerta mais do que erra em sua estréia.

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