ANGEL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França / Reino Unido / Bélgica
Direção: François Ozon
Elenco: Romola Garai, Michael Fassbender, Sam Neill, Charlotte Rampling
Duração: 134 min.
Estréia: 07/03/2008
Ano: 2006


Basta olhar com calma.


Autor: Cid Nader

Bastante profícuo François Ozon. Esse jovem diretor francês tem concretizado um número um tanto acima da média de realizações entre diretores europeus. Acima da média – como avaliação artística - também tem sido o resultado desses seus trabalhos, que evidenciam um amadurecimento narrativo e conceitual notável, a ponto de permitir com que ele trafegue por histórias e modelos diversos, contando-as de modo que raramente poderia ser classificado como comum ou acomodado. Talvez por conta desse não comodismo, seus trabalhos iniciais me pareciam à época mal concretizados ("Sitcom – Nossa Família" e "Gotas d'Água em Pedras Escaldantes", por exemplo – lembrando que Gotas D'Água é considerado por muitos de meus companheiros como um de seus maiores filmes; lembrando, também, que a meu ver o filme era uma recriação da obra de Fassbinder que ainda denotava um Ozon menos confiante, fazendo com que o resultado permitisse uma obra somente reverencial), com um excesso de ousadia que sua pouca idade ainda não se fazia suficiente para sustentar. Mas sua ascensão se tornou evidente demais diante de meus olhos, e toda vez que percebo um novo trabalho seu concretizado, a curiosidade ante o resultado se faz presente, e muito mais urgente a vontade da constatação.

Imagino que ele – junto com Pedro Almodóvar – é o cineasta que mais sabe lidar com o lado feminino da espécie. Sabe trabalhar suas personagens, dar-lhes características absolutamente bem impressas; sabe obter grandes atuações das atrizes, e sabe como confeccionar todo o entorno dentro da construção de um filme que evoca, respeita, tenta entender e está sempre desafiando a “feminilidade”. Em "Angel", evidente e sabiamente, preferiu continuar pisando nesse terreno feminino conhecido. Continua ousado nas propostas, mas demonstra mais uma vez que trabalhar dentro desse universo talvez constitua desafio para emprestar-lhe coragem nessas ousadias, tanto quanto certeza de que obterá resultados nada conformados. Foi pegar um romance da década de 50, escrito pela novelista inglesa Elizabeth Taylor: a história fala da filha de uma comerciante, Angel (Romola Garai), que sonha em se tornar famosa através das escritas. Angel tem, também, um sonho repetido – um sonho de consumo –, que é o de conhecer uma mansão por onde sempre passou desde a infância, e, com seu modo de escrever bastante romanceado, lembrando textos do século XIX (o filme se passa já no início do XX, bem próximo da Primeira Grande Guerra), imagina ganhar dinheiro suficiente para tê-la para si.

Ozon mostra o sucesso inesperado da Angel já romancista – improvável por conta de ser seu texto considerado antiquado –, sua ascensão social, e o apego que tem em inventar histórias, mais do que para consumo literário, como intenção calculada de construção de uma imagem própria fictícia. Ela se apaixona por um pintor medíocre para o momento – numa anteposição evidente ao que sucede com ela e seu sucesso, já que ele age com seus quadros como um antecessor de tendências nos modo de pintura da época, com o uso da “pouca luz” em seus quadros, e nas suas cores quase monocromáticas – e seu desempenho junto a ele, na relação trocada, quando se casam e tudo mais, acaba por ser um dos grandes momentos na opção narrativa do filme. O diretor aposta forte no jeito meio fabulesco do sucesso de Angel, no seu desempenho e no desenrolar de sua vida, passando a impressão o tempo todo de que tudo poderia ser fruto de um sonho factual, ou produto de sonho realizado – num revezamento de impressões. Ela não aparenta ter forças para caminhar dentro um mundo real, mais moderno e perigoso – afinal há a Guerra que ronda a história e o auto-isolamento na mansão dos sonhos, agora habitada por ela.

O que o diretor consegue com bastante virtude é carregar junto o espectador para esse mundo, que vai se tornando melodramático – ao melhor estilo das produções americanas do meio do século passado -, isolando-o junto com os sonhos e delírios de grandeza da escritora. Para isso, a construção estética do filme tem papel preponderante, onde as cores são exacerbadas, os cenários configurados de maneira hiper-realista, e um belo jogo de impressões obtidas pela força das imagens explodindo com "bom gosto" incessantemente na tela.

Há uma ironia fina em tudo isso também, como mais uma marca registrada que se repete. Ozon "brinca" com coisa séria e consegue atingir, com muita capacidade e um certo mal-estar, o público. Esse mal-estar está paralelo à fantasia em todo transcorrer da história. A personalidade de Angel é complexa demais sob seus fru-frus. Ela se nega a perceber a realidade quando se pede que mude um pouco de seu texto; tenta aprisionar em gaiola de ouro seu amando – que demonstrará de várias maneiras o quanto isso o afetará -; "aprisiona" a irmã dele junto a si, por emotividade e sentimentos. O filme que é pintado na superfície com cores fortes e fantasiosas, tem muitas camadas por baixo. É complexo, como toda a obra do diretor. Basta olhar com calma.

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