SICKO - $.O.$. SAÚDE :


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Original: Sicko
País: EUA
Direção: Michael Moore
Elenco: Documentário
Duração: 123 min.
Estréia: 07/03/2008
Ano: 2007


SICKO - $.O.$. Saúde: um Michel Moore um pouco mais comedido


Autor: Cesar Zamberlan

Em “Sicko SOS Saúde”, Michel Moore está bem mais comedido enquanto showman e isso dá mais credibilidade à sua crítica, agora centrada na política de saúde do governo norte-americano. Moore, que também narra o documentário, aparece menos vezes e, ainda assim, de maneira mais centrada que nos filmes anteriores, “Farenheit 9/11” e “Tiros em Columbine”. Filmes que levaram seus detratores, que são muitos, a acusá-lo de ser um ególatra e de manipular informações, editando seus filmes de modo sensacionalista para fazer valer sua posição política.

Parece que as críticas, que em alguns casos até são merecedoras de crédito, abriram os olhos de Moore e o jornalista, que sabe como ninguém como construir um discurso retórico via recursos audiovisuais, fez um recuo importante e estratégico, visando ampliar o poder de persuasão de seus petardos cinematográficos. Nesse sentido, a tarefa foi facilitada pelo tema: não há como contestar a fragilidade do sistema de saúde norte-americano se comparado ao dos países europeus e mesmo com o do Canadá e da miserável Cuba que pregam o acesso à medicina de forma universal e gratuita.

Esses dois fatores: recuo estratégico na forma de apresentar o tema - num tom mais jornalístico - e de se apresentar - menos caricatural e pessoal - aliado à potencialidade do tema, garantem a “SOS Saúde” uma posição de destaque na cinematografia de Moore, mesmo que não venha – e não deve vir – a ter as mesmas e excepcionais bilheterias de seus filmes anteriores, megasucessos em se tratando de documentário.

Mas, se há avanços, é preciso dizer também que alguns truques típicos do que há de pior na linguagem audiovisual continuam sendo usados e muito bem usados. A música sentimental nas seqüências mais duras, a câmera invasiva em momentos de dor e algumas piadas mais fáceis voltam a ser usadas e bem exploradas. Moore está menos picareta, mas continua picareta – um bom picareta se você concordar com o que ele ataca.

Ele “melhorou” em termos jornalísticos digamos – se é que isso é de alguma forma possível -, mas está longe da santidade. E é ingênuo aquele que imagina que ele não vá usar das ferramentas que dispõem para fazer repercutir suas idéias em outra oportunidade. Em “SOS Saúde” isso não se fez tão necessário e por isso o filme é melhor. E fará isso porque Moore está sempre em guerra e contra ele estão documentaristas que do outro lado do front também não poupam a mais baixa artilharia - quem viu “Fabricando Polêmica” de Debbie Melnik no É Tudo Verdade de 2007 sabe do que estou falando.

Posições políticas à parte, se “SOS Saúde” - assim como os outros filmes de Moore - estão longe de ser um primor ou ter alguma relevância no sentido cinematográfico, são, sim, importantes no seu engajamento e na coragem de colocar o dedo na ferida de um regime tão venal quanto o de Bush. Quem não gosta de Bush e do modelo político que ele representa irá certamente se deliciar com a ironia de Moore, com sua cara de espanto diante do relato de um grupo de norte-americanos que mora na Europa e que assume não querer voltar aos EUA e, sobretudo, com o gesto audacioso e assumidamente fanfarrão do diretor ao levar alguns bombeiros que trabalharam no resgate de pessoas nas Torres Gêmeas para serem tratados em Cuba.

Moore é um provocador, um conhecedor profundo da retórica audiovisual, um Cícero dos novos tempos só que anos-luz da elegância do orador romano. Gostando ou não dele e de seus filmes, não há como não se render ao talento desse senhor com cara de bobo, mas que de bobo não tem nada.

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