RAMBO IV:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Matthew Marsden, Graham McTavish, Reynaldo Gallegos, Jake La Botz, Tim Kang, Maung Maung Khin, Paul Schulze, Kasikorn Niyompattana.
Duração: 91 min.
Estréia: 29/02/2008
Ano: 2008


Virtudes americanas. E o que é o ser humano


Autor: Cid Nader

Sylvester Stallone, picareta de plantão, canastrão de carteirinha. Senhor Stallone, que surgiu para o cinema do mundo como o americano de cara torta, origem italiana como marca indelével – e bastante cultivada por ele -, mas, mesmo assim, criou dois personagens que acabaram por se tornar mitológicos dentro da seleta galeria de personagens mitológicos da arte; a saber: o lutador Rocky Balboa, e o "exilado" soldado/conturbado/matador John Rambo. Além das semelhanças físicas abrutalhadas entre eles, semelhanças comportamentais abrutalhadas também, o grande fator de ligação – na realidade, o importantíssimo fator de aproximação entre os dois – é o inequívoco traço de personalidade que os remete, e às suas atitudes, ao encontro da "virtude americana".

O próprio Sylvester é um defensor ardoroso do modo americano de ser. Esse modo – devidamente adeqüado a seus personagens ícones – tem a ver com a maneira correta, reta, acima de qualquer pecado a ser condenado por atitudes de aparência espúria, que a raça ianque arrogou para si como ato natural de virtude; com o passar do tempo e com o desenvolver de sua formação. Seus filmes se utilizam de métodos até violentos na tentativa de demonstração dessa virtude – fato não tão incomum como resultado óbvio obtido na formação dessa sociedade -, mas no fundo estão sempre à busca da elevação virtuosística de seu povo; da defesa de seu modo de pensar, de seu modo de isolamento quase "casulístico" em núcleos familiares quase indevassáveis. A civilização lá de cima manteve como maior sustentáculo – maior e mais ostensivo pilar – desse "caráter" incorruptível, a religião, o cristianismo.

Um cristianismo protestante, batista, que é rígido nas cobranças, seco nas possibilidades oferecidas, correto e intransigente quanto a possíveis deslizes – isso sempre visto sob a ótica dos que professam esse americanismo, dos que vivem por lá, dos que se "sabem" como o povo da virtude; como quase o verdadeiramente escolhido por Deus. Estranha a contraposição que deveria vigorar quando da oposição natural do modo de comportamento e pensamento de um católico Silvester Stallone, à do institucionalizado na nação americana protestante – apesar da mesma raiz cristã. Mas talvez por conta desse estranhamento entre concepções os personagens principais do diretor/ator, principalmente o de John Rambo, até agem como donos dessa virtude que tudo permite - que tudo libera, que não imagina o "outro" como o próximo quando o aconchego do lar virtuoso é ameaçado... -, mas transitam pelo mundo, pela vida, com a culpa como companheira (Rambo insiste em que não matará mais, "jamais", reclusa-se com a mente tremendamente conturbada – sentimento de culpa católico?). Se capitulam e cedem no final, se matam e trucidam, é porque a alma, a "aura" pura, americana sobrepõe, com seu apelo forte pela família, pela pátria; e as pequenas diferenças religiosas se percebem dentro de um mesmo segmento enorme cristão. Se vêem como a pátria acima de tudo, e a partir dessa aceitação, tudo se faz permitido.

Clint Eastwood também tem construído sua inquestionável bela carreira de diretor como uma espécie de "defensor" desse modo americano – anteriormente tínhamos Capra, por exemplo -, mas o comum é jamais se pensar em qualquer tipo de comparação entre as duas (ou três) carreiras. Clint tem um olhar, poderia dizer, mais humanista quando apresenta o resultado de algum seu trabalho. Quando nos entrega a obra pronta revela-se um cristão mais contundente do que Stalone, já que imagino seu humanismo – aliás, boa parte da maneira moderna do pensamento humanista – como o braço forte do ensinamento cristão: a igualdade dos direitos humanos, as mesmas chances a serem dadas para todos sobre a Terra...

Silvester Stalone – cristão e americano até a medula também, vale repetir – nos entrega obras com formato e impacto mais sanguinolento, digamos assim. A seu modo cristão de entender um projeto finalizado, ele não se revela um humanista, mas um "decifrador" do que seria realmente ser humano. O diretor e seu Rambo observam esse "ser" através de um olhar muito mais incrédulo. Não vêem "ganhos cristãos" nos outros – na realidade, Rambo é quase toda a pureza e virtude em seus filmes (quando pensado comparado aos seus conterrâneos, cristãos) -, e percebem quase todos os outros por um viés humano na essência. Quero dizer que para os dois (diretor e protagonista) a raça é cheia das piores falhas, entre as outras raças animais do planeta. O "ser" humano tem paralelo com inconsciência, com arrogância, com violência gratuita contra o outro semelhante; não há, no modo de observar desse ex-soldado recluso do mundo, bondades ou atitudes louváveis adquiridas – por cristianismo, humanismo, ou o que seja -, fazendo desses seres que habitam ao seu lado, em sua película, uma espécie indigna de sua companhia.

Rambo IV" desloca todo tipo de complicações possíveis para as terras do extremo oriente. Vai à fronteira da Tailândia e Mianmar e tenta se fazer de politicamente correto quando "revela" ao mundo as atrocidades que lá ocorrem. As questões religiosas do local são fortes como um grande componente a incitar a violência dos militares locais contra a população quase miserável. Um grupo de missionários – e aí, novamente, o cristianismo atormentando a cabeça do velho Rambo – e médicos resolve que é sua tarefa "invadir" de alguma maneira a região, com o intuito da ajuda; e novamente se vê aí a virtude e pureza americana (sempre com a motivação religiosa ao fundo, como amparo maior), pois que somente eles poderão salvar ou ajudar os "pobres coitados" massacrados lá de longe. Por conseqüência do desenrolar da história, mercenários passam a participar do filme a partir de um dado momento. Todos acorrem à pequena barca de John para atingir seus objetivos, e a cada grupo ele – com aquele olhar de cachorro molhado e "sorriso" duro – infere opinião sobre sua inutilidade naquele local, naquele momento.

Os militares de Mianmar são desprovidos de qualquer atenuador psicológico. Os missionários são quase todos movidos por atitudes de quem usa viseira e não consegue pensar diferente. Os mercenários – ao menos no princípio – são também um bando, que age em bando, sem qualquer tipo de pensamento individual. Todos os personagens "paralelos" do filme são desprovidos de atitude própria, caricatos ao extremo, como se fosse um modo de o diretor dizer que uma parte da humanidade é "humana" – como uma raça animal –, mas não conseguiu atingir, ou perceber, na verdade, algum avanço humanista, religioso, virtuoso. Todas as figuras paralelas são duras, esquemáticas, muito a propósito do que deseja Stalone. Seu Rambo, com cara de canastrão, com corpo esculpido e estranho nos seus mais de sessenta anos, suas atitudes pacíficas – a princípio -, suas armas brancas, seu barco, seu olhar de quem não quer compreender ou se intrometer, é personagem muito moldado ao seu propósito.

Dizer que o objetivo do diretor, desde sempre e em tempo integral, é o de tentar revelar o que é o ser humano, ou o que é a virtude americana (no caso, encarnada somente pelo próprio) pode até parecer história fantástica, mito, coisa ilógica, principalmente a partir do momento em que o filme passa a explodir, a sangrar, a se partir. Talvez fique difícil acreditar em outras razões quando se percebe que começa a morrer gente como se fossem moscas, quando se nota que um só pode dar conta de mais de vinte numa girada, quando se ouve o uivo de espectadores que buscam violência. Há um filme violento e improvável para os sensíveis menos atentos. Mas cada vez creio mais que esse diretor americano de origem italiana é da estirpe dos que tentam revelar o modo americano de ser, à sua maneira sim, mas com a vantagem de quem criou dois ícones que jamais serão esquecidos pelos historiadores e estudiosos; dois personagens ícones da arte. É só perguntar para qualquer criança, para qualquer pessoa que já tenha ouvido falar em cinema.

Leia também: