XXY:


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Original: Idem
País: Argentina/França/Espanha
Direção: Lucía Puenzo
Elenco: Ricardo Darín, Valeria Bertuccelli, Inés Efron, Martín Piroyansky, Germán Palácios, Carolina Pelleritti
Duração: 103 min.
Estréia: 29/02/2008
Ano: 2007


“XXY”: sincero e singelo


Autor: Anahí Borges

A temática é extremamente curiosa: Alex nasceu com a Síndrome de Klinefelter, ou seja, devido aos distúrbios dos cromossomos sexuais a jovem apresenta características sexuais de ambos os sexos: seios e pênis, traços femininos e masculinos. Para além da androgenia, Alex possui um distúrbio que lhe gera angústias e transtornos emocionais e psíquicos. Como tratamento para esse tipo de Síndrome a medicina orienta os pais do indivíduo defeituoso a optarem por um dos sexos e a partir daí submetê-lo a cirurgias e medicamentos a fim de que se desenvolva de acordo com a opção escolhida.

No filme, os pais de Alex a chamam de filha e têm dificuldades em lidarem com as transformações previstas em seu corpo, evitando, inclusive, falar sobre o assunto. No entanto, as mudanças começam a acontecer e o problema tem que ser encarado e para tanto um amigo médico especialista em cirurgia estética se hospeda com sua família na casa dos pais de Alex a fim de ajudá-los na decisão. “XXY” não possui uma poética fantástica nem sensacionalista, e a narrativa se desenrola de maneira convencional, em registro realista de modo a abordar a questão genética de Alex de forma natural. A sensação do espectador diante do filme é semelhante à despertada pelo “Um Ramo”, curta-metragem de Marco Dutra e Juliana Rojas. Nesse filme, uma mulher tenta lidar com o fato de começarem a brotar galhos em seu corpo. O enunciado do conteúdo é fantástico, mas o enunciado formal é realista e a contradição entre ambos os enunciados que gera o estranhamento no espectador diante da obra. “XXY” segue essa linha: ainda que seu tema não seja propriamente fantástico, é, no mínimo, instigante, e a forma escolhida por Lucia Puenzo para narrar os conflitos de Alex diante das transformações de seu corpo é singela, valorizando os tons de azul na imagem e a beleza da natureza. A defeituosidade genética de Alex é, desse modo, enunciado pela forma do filme com naturalidade e beleza e o conteúdo exposto adquire dimensões maiores e passa a significar um olhar sobre o tema da sexualidade: o triângulo amoroso que se forma entre Alex, seu vizinho e o garoto argentino que está hospedado em sua casa é instigante e complexo – o vizinho está apaixonado pelo feminino de Alex e confuso com o fato dela estar se masculinizando; o garoto argentino, ao contrário, despertou com Alex sua homossexualidade; e Alex, a ponta desse triângulo, está confusa diante de seus desejos e das transformações de seu corpo, não sabe se quer ser homem ou mulher, se quer se relacionar com homens ou com mulheres.

O olhar observador de Puenzo frente a sua personagem também é um dos méritos do filme. Alex está livre para correr, para ficar sozinha, para fugir em busca das respostas que necessita e a câmera a acompanha, observando-a ora à distância, ora se aproximando dela, sem julgamento de valor algum. Mas quando a diretora opta por vitimizar sua personagem é o momento em que o filme perde força: como, por exemplo, na cena em que os colegas tentam estuprá-la na praia. Mas no todo, “XXY” é sincero e singelo na abordagem desse tema tão curioso, e não há sequer uma imagem do pênis de Alex, fato este que revela que Lucia Puenzo evita chocar o espectador, e intenta, principalmente, instigá-lo, confundi-lo, abrir o leque do seu pensamento sobre sexualidade. E no final, a liberdade atribuída à Alex perdura e a personagem decide não ter que escolher entre um dos dois sexos. Um final libertário que incita o espectador em sua imaginação ao tentar compreender e visualizar o futuro de alguém com dupla sexualidade.

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