A ERA DA INOCÊNCIA :


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Original: L'Âge de Ténèbres
País: Canadá
Direção: Denys Arcand
Elenco: Marc Labrèche, Diane Kruger, Sylvie Léonard, Caroline Néron, Rufus Wainwright, Macha Grenon, Emma de Caunes, Didier Lucien, Rosalie Julien, Jean-René Ouellet, André Robitaille, Hugo Giroux, Christian Bégin, Pierre Curzi, Gilles Pelletier
Duração: 104 min.
Estréia: 29/02/2008
Ano: 2006


Difícil de se compadecer


Autor: Fernando Watanabe

Sobre Denys Arcand, seus dois melhores filmes são justamente aqueles que parecem ser os mais distintos dentro de sua trajetória, aqueles que não se ligam de forma tão evidente com o resto de sua filmografia, infelizmente constituindo filmes isolados que não geraram uma continuidade, pelo menos não de forma explícita: “Jesus de Montreal” (1989) e “Amor e Restos Humanos” (1993). A seu nome automaticamente é associada a característica de fazer filmes “geracionais”, com certeza tendo como fonte sua formação em história. “O Declínio do Império Americano” (1986), “Invasões Bárbaras”(2003), e agora este “A Era da Inocência”.

O filme em questão, quando visto sob a ótica desta “trilogia” acima citada, parece justamente confirmar suas concepções de cinema e de mundo. Sem a mínima ambição de linguagem, conseqüentemente sem atingir expressão cinematográfica qualquer que seja, há o privilégio do tema. Ou seja, decupagem e demais elementos fílmicos burocráticos, apostando que a força do filme venha do enredo, do personagem principal, ou mesmo de suas sempre freqüentes mensagens finais sobre a vida. Falando de conteúdo – que na verdade está sempre relacionado à forma -, o cineasta confirma o seu apreço por certas questões: melancolia, decadência, desconforto com a atualidade sem vontade alguma de lutar, sentimentalismo, tudo ancorado e representado por personagens que simbolizam todos esses sintomas.

De todos os problemas que “A Era da Incocência” possui, o maior deles diz respeito a seu personagem principal, Jean Marc. Se em “Invasões Bárbaras” havia o interessante Rémy como principal condutor de interesse do espectador no filme, agora este elo de empatia parece faltar, ou carecer de força de atração e sedução maior. Se Rémy era um nostálgico resignado, ao menos ele o é com um certo entusiasmo, tirando verdadeira graça de seu estado atual de apatia, ria e fazia rir da impotência dos homens diante de um mundo material e cruel incontestável. Jean Marc, encontrado no mesmo mundo, reage a ele de forma mais cínica e sem a mesma energia. Toda possibilidade de exaltação não se encontra mais entre amigos, com outros seres humanos, mas, sim, em suas fantasias autistas que, por serem repetidas durante todo o filme, acabam perdendo a graça e a qualidade da surpresa. Não há vontade de estar no mundo e, agora, tampouco há desejo de compensar esse desconforto buscando a satisfação nas relações humanas. Jean Marc é um conformado com sua própria apatia, e mesmo quando procura o elo com um “outro” (a maluquinha que fantasia sobre os tempos medievais), o filme trata a situação com um humor extremamente bola baixa, fadando o mote, de antemão, ao fracasso. Em Invasões, a galeria de personagens secundários acabava se tornando tão principal quanto Rémy, em função da expressividade e entusiasmo daqueles. Em “A Era da Inocência”, só há mortos-vivos ambulantes.

Nem cabe comentar muito a suposta crítica ao sistema de saúde canadense, ao mundo imbecil do trabalho corporativo, e à estrutura familiar cada vez mais desagregada; tudo isso passa pelo filme sem terem suas nuances encaradas de frente, pois, o que importa, é o desânimo de Jean Marc frente a um todo mais geral que desestimula qualquer motivo de ânimo para qualquer coisa.

Ao final, a mesma trajetória cumprida também por Rémy em Invasões: abandona-se a cidade para morrer na casa de campo – simbolicamente, a recusa à contemporaneidade. A morte de Jean Marc é solitária, e não oferece ao espectador o final catártico da memorável seqüência de despedida entre amigos que havia em Invasões. O último plano apresenta um quadro de maçãs velhas, podres, verdadeira natureza morta. Tal imagem, na verdade, poderia estar em qualquer lugar do filme, uma vez que para Denys Arcand não há muito o que fazer mesmo diante da vida atual, só restando se lamentar cinicamente, traduzindo (e confundindo) a melancolia humana em preguiça cinematográfica. Então, a despeito de sua visão de mundo conservadora e estratificada, fica realmente impossível apreciar a bola murcha narrativa inexpressiva privada ainda de seu elemento humano. Assim, desta vez, fica difícil se compadecer.

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