JOGOS DO PODER :


Fonte: [+] [-]
Original: Charlie Wilson's War
País: EUA
Direção: Mike Nichols
Elenco: Tom Hanks, Amy Adams e Julia Roberts
Duração: 100 min.
Estréia: 29/02/2008
Ano: 2007


Como ainda pode existir um filme desses?


Autor: Fernando Oriente

Independente de qual seja a ideologia ao a visão de mundo de qualquer espectador de cinema, um filme como “Jogos do Poder” (de Mike Nichols) é, antes de tudo, uma ofensa a inteligência e ao bom senso. O longa procura através de sua pobreza visual e seus clichês de quinta categoria legitimar e difundir os conceitos sócio-políticos da mais reacionária, moralista e abjeta direita que existe em solo estado-unidense.

Ao tratar da história de como os Estados Unidos financiaram, deram suporte e logística aos afegãos para lutarem contra a ocupação soviética durante os anos 80, o filme enaltece com a maior cara de pau o poder do dinheiro americano e sua força para solucionar qualquer problema que surja no caminho da maior potência do globo. Mesmo tentando disfarçar sua tentativa explícita de exaltar valores da mentalidade republicana de dominação político-ideológia, “Jogos do Poder” apresenta seus personagens centrais (americanos super-poderosos) como heróis do mundo moderno e, no contraponto, põe na tela um desfile de caricaturas grotescas e preconceituosas; o povo afegão é composto por seres primitivos em busca da “luz” civilizatória do Tio Sam e os soldados soviéticos são “monstros cruéis e frios em sua maldade nata”.

É difícil imaginar que, nos anos 2000, ainda haja filmes como esse, que pode ser comparado ao devaneio reacionário de John Wayne e seu patético filme “Os Boinas Verdes”, que o astro do bang-bang dirigiu nos anos 70 e mostra uma absurda visão da guerra do Vietnã em que os “bravos rapazes americanos” acabam vencendo o conflito.

A guerra do Vietnã também ecoa nas entrelinhas desse péssimo filme. Ao mostrar os resultados positivos das ações da resistência afegã aos soviéticos, o longa tenta afirmar que os russos também perderam um conflito para os americanos de forma indireta, da mesma forma como os Estados Unidos foram notoriamente derrotados pelo Vietnã com o apoio da União Soviética. Só que essa teoria beira o ridículo, o insucesso russo em território afegão é infinitamente menor do que a patética e catastrófica derrota americana no sudeste asiático. Nem como registro histórico o longa consegue sucesso.

Talvez o que mais chame atenção em “Jogos do Poder” é o atual momento vivido pelos Estados Unidos. É interessante notar que essa resistência afegã, montada e financiada pela Casa Branca, virou o Talebã, um dos maiores inimigos do país na atualidade, que notoriamente faz parte do grupo dos “malvados do mundo” que a pseudo democracia americana combate. Fazem parte do grupo dos legítimos substitutos dos russos como vilões mundiais. No longa, a alusão ao futuro Talebã vem apenas nos minutos finais, e ainda através de uma brincadeira, uma piada de péssimo gosto.

Embora o filme ainda tente mostrar, de forma cômica (o que por si só já diluiu seu potencial crítico), algumas manobras de bastidores no mundo da política e retrate alguns congressistas americanos como figuras de caráter suspeito, isso não impede que fiquem claras para qualquer espectador as intenções de difusão das idéias reacionárias que o longa carrega.

Em uma seqüência do filme, vemos alguns pilotos de helicóptero soviéticos conversando calmamente entre eles pelo rádio antes de atacarem e matarem vários civis afegãos. O longa tenta, por meio dessa caricatura maniqueísta, passar a imagem da crueldade dos russos da antiga União Soviética. Mas será que essas imagens de ficção medíocre são mais fortes do que os registros reais de soldados americanos torturando e humilhando prisioneiros no próprio Afeganistão, no Iraque e em Guantánamo, que recentemente assombraram o mundo?

O protagonista, vivido por Tom Hanks, é um congressista que nos é apresentado como cínico e egoísta ao inicio do filme. Mas uma viagem a fronteira do Afeganistão com o Paquistão o faz mudar seu comportamento. Ao ver o sofrimento de civis, crianças e mulheres, o político sensibiliza-se e passe a dedicar-se em arrecadar fundos para o combate às forças soviéticas. Ora, não são políticos como ele que autorizam e liberam verbas milionárias para os Estados Unidos invadirem esses mesmos países, entre outros, e infringirem a esses povos o mesmo tipo de sofrimento, ou até pior? Não foram políticos estado-unidenses que aprovaram os conhecidos memorandos que legitimam o uso da tortura em prisioneiros?

“Jogos do Poder” é esteticamente pobre, preso a um estilo narrativo quadrado e não tem um único aspecto criativo ou que fuja do lugar comum do cinema comercial já saturado visualmente. Como ainda é possível existir um filme como esse? A pergunta é pertinente, não só pelo fato do longa ser ruim como é, mas por representar uma indústria de entretenimento que atinge os quatro cantos do mundo e que tem o poder de influenciar as pessoas. Até quando o establishment americano vai tentar impor sua patética e reacionária ideologia? Se esses senhores começassem a olhar os acontecimentos recentes pelo planeta talvez percebessem que, felizmente, o estado das coisas já começou a mudar, mesmo que ainda seja de forma tímida.

Leia também: