A MENINA DA BAÍA DOS ANJOS:


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Original: Marie Baie des Anges
País: França
Direção: Manuel Pradal
Elenco: Vahina Giocante, Frédéric Malgras, Nicolas Welbers, Swan Carpio, Jamie Harris e Amira Casar.
Duração: 90
Estréia: 09/09/2005
Ano: 1997


Anjos e malvados na terra do sol


Autor: Érico Fuks

A Baía dos Anjos, em torno de Nice, era o lar de uma espécie de tubarão chamada "anjo do mar". A lenda diz que as duas enormes pedras em forma de barbatanas protegeram a região de invasões estrangeiras no passado. Para agradecer a proteção, a princesa que vivia no local teria sacrificado uma criança aos tubarões. De acordo com o diretor e roteirista Manuel Pradal, essa lenda de seu primeiro longa-metragem foi o ponto de partida para uma alegoria da Riviera Francesa que apresenta a baía como um local paradisíaco, belíssimo, mas que esconde um aspecto caótico e problemático.

E haja problemas. A cena inicial tem a locução em off resumida dessa lenda, enquanto que as imagens mostram um garoto dando um tiro no outro dentro do mar. Ou seja, a dissonância cognitiva da voz calma e onisciente não retrata as duas “barbatanas” juvenis em conflito, nada protegidas pelos tais deuses contra as invasões.

A Menina da Baía dos Anjos mostra um verão na vida de dois adolescentes tempestuosos. Marie é considerada a "Lolita" das praias. Com seu apetite pelas descobertas e provocações sexuais, ela decide que este será o verão mais importante da sua vida. Caminha pelas ruas da Baía dos Anjos mas, na verdade, está interessada no grupo de marinheiros americanos em temporada na região. Eles a recebem, a alimentam e a divertem em seu alojamento, e essas conquistas realizam o sonho da menina por champanhe, homens mais velhos e boates. Orso é um delinqüente de 17 anos, capaz de qualquer coisa para conseguir algum dinheiro. Ele espreita as florestas e praias com gangues de outros garotos igualmente rebeldes, quase tão primitivos quanto a geografia da região. Depois de um primeiro encontro, Orso e Marie descobrem que se sentem atraídos um pelo outro, e fogem juntos para uma ilha isolada, idílica.

O filme é praticamente um anti-Rohmer. Expõe seus personagens num ambiente bucólico e escapista, deixando para a natureza dar as explicações para os conflitos do ser humano. Há sim, um vai-e-vem de affairs, encontros e desencontros. Entretanto, com pouquíssimos diálogos, e as relações amorosas não são nada dilemáticas ou problematizadas. A Menina da Baía dos Anjos elimina qualquer possibilidade de aprofundamento nos questionamentos sobre o tema dentro do próprio filme. Tudo é muito mais movido por impulsos, ações e reações quase animalescas de provocação. Trata-se de um filme instintivo, olfativo, orgânico, que não encontra lugar para a elaboração, mesmo que conflituosa, de psicologizações racionais. É como se o impacto das imagens fosse mais forte do que a tentativa de dar conta do entendimento do comportamento humano.

Nesse sentido, A Menina da Baía dos Anjos encontra maior ressonância com a obra de Godard. Primeiro, pela ruptura lingüística. O espectador fica meio perdido ao tentar decifrar onde está ou deixa de estar o flashback. Imagens que voltam para o passado, “colam” em outras do presente e ficam o tempo todo pra lá e pra cá, mais insinuando do que seduzindo o público. Há uma valorização pelo silêncio e pelos sons diegéticos do ambiente, como o barulho do mar, o estampido do revólver e outros pormenores sonoros. Segue-se aqui à risca a lógica de que as cenas são mais importantes do que o discurso. A ordenação confusa dos fotogramas, num subliminar paralelismo ao universo caótico dos personagens, é uma maneira de tentar deixar atordoado aquele que procura fazer os julgamentos sobre aquilo que está vendo. Os sintagmas cristalizados, as frases feitas e a ideologia pré-fabricada em torno da construção de caráter dos envolvidos na história são deixados de lado.

Outro aspecto relevante é a presença dos americanos no território. Há uma ridicularização evidente em sua caracterização, retratada no microcosmo como metonímia do macrocosmo. São estupradores, numa leitura mais semiológica, “invadem” planícies alheias sem permissão. São hedonistas e beberrões, ou seja, estão mais voltados ao prazer imediato e ao consumo sintético de bem-estar. Fazem parte do corpo da Marinha, uma das entidades que protegem as fronteiras do país e conquistam outras. São meio abobalhados, o que denota uma certa estabilidade, pois não estão preparados para os pequenos furtos da trama e para os acasos e imprevistos num espectro mais global.

Essa opção minimalista porém não reducionista de visão de mundo é a força de um trabalho complexo. O impulsivo que toma o lugar do elaborado, o sensorial que rouba a presença do analítico, são escolhas de significados vários mesmo que tiradas a partir da raiz de seus significantes. Apesar de encaixotada num oásis paradisíaco, a visão de mundo do diretor é que, de anjo, a sociedade não tem nada.

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