JUNO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Jason Reitman
Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney.
Duração: 96 min.
Estréia: 22/02/2008
Ano: 2007


“Juno”, Jason Reitman


Autor: Liciane Mamede

Apesar da temática espinhosa e de certo modo bastante conectada a uma determinada “realidade adolescente”, “Juno” remete a uma fábula. Artifícios usados para dar um tom suave e meigo à narrativa; abstração de conseqüências verossímeis para os problemas ali retratados; a “lição” (muito embora, bastante sutil) que podemos depreender da história no final; certa alienação em relação ao mundo - os personagens parecem viver dentro de um aquário; essas são algumas das características que podem justificar de alguma forma o que foi dito acima. Sendo intransigentes, poderíamos dizer que tudo nesta obra parece devidamente “maquiado” para que a trama da menina de 16 anos que fica grávida e decide doar seu filho soe mais palátavel ao público e não cause polêmicas desnecessárias (não a toa o filme foi indicado ao Oscar). Indo mais longe, poderíamos ainda afirmar que, dificilmente, esse tipo de “maquiagem” escapa de um conservadorismo em relação às nuances mais controversas do tema abordado. Esse tipo de afirmação, porém, pode acabar sugerindo que, unilateralmente, todo tema socialmente “pesado” tem necessariamente que ter uma abordagem carregada que dê conta de toda sua complexidade. E é aí que o conservadorismo pode capciosamente mudar de lado. “Juno” claramente não quer ser um filme-reflexão, não quer colocar o dedo em nenhuma ferida e muito menos por o espectador em xeque. Tudo é, acima de tudo, muito fofo no filme de Jason Reitman e esse parece ser seu real partis pris. Desde o rosto doce e meigo da personagem principal, passando pela sua forma ingenuamente direta de lidar com (ou de simplificar) a situação, desenbocando na trilha sonora recheada de músicas indies entoadas por riffs e vozes graciosos (passam por “Juno” The Velvet Underground, Sonic Youth, Cat Power). A cena de abertura, em que Juno se coloca a pensar sobre a importância de uma poltrona em sua vida e, logo depois, se transforma em desenho animado para ir à farmácia fazer o seu terceiro teste de gravidez do dia (enquanto os créditos vão passando e a música de Barry Louis Polisar, “All I want is you”, entra), já nos diz, de certa forma, o que esperar a partir dali. Juno está grávida mas de fato ainda parece uma persongem de desenho animado, ou de fábula infantil. Aquilo que podia ser um certo paradoxo no filme logo irá se dissolver. A gravidez de Juno está longe de ser retratada como o vilão que dará fim a sua adolescência – como de fato acontece para muitas adolescentes da vida real.

O pai do filho de Juno, Paullie Bleeker, ao mesmo tempo que nos desperta certa empatia logo num primeiro momento, encarna também um tipo estereotipadamente estranho. Roupas um tanto autênticas demais, introspectivo, tímido, com algumas manias estranhas, mãe opressora, não-popular, a pergunta inevitável diante da figura é: o que Juno viu em Bleeker afinal (dado que o “acidente” só aconteceu porque ela foi atrás dele)? Paullie e Juno formam o tipo de casal que soaria como uma aberração em filmes adolescentes clássicos, no máximo eles poderiam estar juntos em algum filme cult independente (o que “Juno” realmente é), talvez num filme de Wes Anderson. Aos poucos, porém, vamos criando nossos próprios parâmetros para o filme de Reitman. Apesar de bonitinha e de ter certa desenvoltura, Juno não é uma garota popular. Ela não quer se entrosar na escola, mas apenas ouvir suas músicas e tocar sua guitarra. Paulie Bleeker também parece não fazer questão de muito mais do que isso. Apesar de serem aparentemente diferentes, Bleeker e Juno têm em comum o interesse pelas únicas coisas que parecem importar quando se tem 16 anos (os dois tinham uma banda juntos – este é um filme indie afinal). Leah, melhor amiga de Juno e que a acompanha durante toda a gravidez, é do tipo “garota popular”, bonita, cheerleader e apaixonada por um professor barrigudo. Num filme em que a garota não-popular pode ser a melhor amiga da cheerleader, parece não haver incongruência em esta se apaixonar por um professor que não tem nada de galã. Ou, muito menos, em Juno ter uma queda por pelo freak Paullie Bleeker.

Abandonada pela mãe, filha de pai ex-militar, com uma madrasta e uma irmã pequena. A ficha de Juno parece não ser das melhores. E é como se uma bomba estivesse para explodir no momento em que ela conta sobre a gravidez para o pai, acompanhada de Leah. O pai e a madrasta, sentados em poltronas, olham fixamente para Juno que, em pé, tenta encontrar a melhor forma de formular o problema. Quando a notícia é dada, porém, é como se, até ali, tanto Juno, como nós tivessemos superstimado toda uma questão relativamente simples. “Pensei que ela estivesse envolvida com drogas”, diz o pai aliviado. Como junto com o problema, veio também a solução – doar a criança para pais que não podem ter seu próprio filho biológico –, a coisa ficou tão mais simples que nem mesmo um pai ex-militar, em outros tempos um símbolo de repressão, representou em maiores complicações para a história de um filme fofo por princípio.

Em “Juno”, a adolescência é uma fase que não deixa de ter suas questões: às vezes somos incompreendidos, às vezes não somos aceitos pelo que somos, às vezes ficamos grávidos. Mas nem tudo precisa ser um processo traumático, pelo menos até que se saia desse período. A adolescência de Juno provavelmente vai passar e talvez seu ato tenha implicações em sua vida adulta, porém o filme não quer discutir isso agora. “Juno” é um filme onde os problemas, por maiores que sejam, tem “apenas” o impacto que qualquer grande problema pode ter desde que seja visto pela visão de uma garota de 16 anos (e nesse sentido, seria interessante comparar o filme de Reitman com “Paranoid Park”, de Gus Van Saint, onde a adolescência é retratada como uma espécie de queda do paraíso).

Um dos grandes méritos do filme, é preciso dizer, é que, a despeito da tradição cult independente que ele parece seguir, não há o emprego de estigmas pesados na construção dos personagens. Paullie Bleeker parece ser um freak estereotipado a princípio, mas consegue fugir disso. Ele não tem nenhuma perversão, um grande segredo ou um defeito maior do que ser um banana. No final, sem necessariamente sofrer grandes mudanças, o personagem vira o par ideal para Juno e torcemos para que eles fiquem juntos. E essa é, no geral, uma característica positiva desse simpático filme. Os personagens não sofrem grandes transformações de uma hora para outra para que gostemos deles, ou o contrário. Eles apenas, no decorrer do filme, vão se mostrando mais aos nossos olhos (e, no geral, podem acreditar, há uma preferência do filme em evidenciar as boas qualidades), sem exageros ou revelações inesperadas, é tudo apenas uma questão de trazer os personagens à superfície da tela. E isso é suficiente.

Em seu filme anterior, “Obrigado por fumar”, Reitman também explorava seu personagem de forma lúdica, porém carregava tanto na ironia politicamente incorreta de apelo (e choque) fácil que se tornava maçante em muitos momentos. Talvez, a face meiga de Reitman tenha muito mais a dizer.

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