PERSEPÓLIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França
Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco: Animação
Duração: 95 min.
Estréia: 22/02/2008
Ano: 2007


Não é aula aprofundada de história


Autor: Cid Nader

O Irã é um dos países que mais tem histórias ricas e diferenciadas a serem contadas através dos tempos. País da antigüidade – mais conhecido como Pérsia -, berço da civilização ariana, foi terra de passagem e de dominação por diversas vezes, mas tem suas mudanças mais drasticamente gravadas na memória ocidental atual por situações ocorridas em períodos recentes. No início/meio do século XX passou a ser governado pela dinastia Pahlevi, que acreditava num futuro para o país baseado nas modernidades ocidentais, quando saiu de estágio de fortíssima ligação ao religioso, para entrar nas "luzes" que possibilitavam o consumismo, mulheres liberadas e com direito de trabalhar e estudar, fortes favores devidos às grandes potências capitalistas e perseguição sistemática e violenta aos líderes religiosos que viam nesse novo estágio do país um caminho aberto para o inferno. No final dos 70, um líder religioso radical, Ayatollah Khomeini, retornou triunfal ao país, depôs o Xá Rezah Pahlevi, superou os movimentos de esquerda e dos trabalhadores que também contribuíram para a queda do monarca, e instituiu, junto com um apanhado de religiosos radicais, uma república islâmica pouco aberta ao ocidente, e que recrudesceu a tal ponto que praticamente obrigou toda a população a "optar" pelos deveres religiosos típicos da idade média – ou que remetiam a situações talvez até inéditas no quesito "embrutecimento".

História bastante incutida no imaginário recente, mas jamais contada em formato de animação no cinema. A diretora e pretensa auto-biografada, Marjane Satrapi (iraniana de nascimento e residente na França), juntamente com Vincent Paronnaud, resolveu, depois de historietas publicadas em outros veículos, passar para a tela grande uma versão animada desse período de transição no Irã, onde era criança. Existem acusações de falsidade por parte da diretora quanto à total autenticidade de sua autobiografia – se contestam, e aparentemente com dados, o fato de ela dizer ser de família de intelectuais e comunistas perseguidos pelo regime islâmico, por exemplo. Mas, para falar a verdade, o que é a arte senão um amontoado de imaginação transformada, manuseada e reciclada, para ser repassada a algum tipo de público ávido; por razões diversas.

Se ela mentiu ou exagerou na sua autobiografia, isso não reduz em nada a qualidade do produto entregue e concretizado – ela que se vire com quem cobra, apresente suas razões e arque com o ônus da irresponsabilidade de se mostrar não autêntica, acreditando na força e na inocência que a arte por si só pressuporia relaxamentos patrulhescos. A animação tem cara de 2D, mas lendo atentamente aos créditos finais restou a dúvida, quando li e percebi somente informações que remetiam o trabalho a ter sido concretizado e realizado em 3D – há um fenômeno recente bastante aceitável e compreensível, que faz com que obras desenhadas (2D), na realidade também tenham sido feitas em computador e com programas avançados (3D). O que importa é que o resultado é bem bom, quase todo em PB e com grande jogo de sombras; um traço reto e funcional. e uma velocidade e liberdade na narração que causam empatia imediata. Alguns poucos momentos são coloridos – bem poucos – mas de resultado muito interessante e elegante. O contar a história à sua maneira, a seu modo de ver, talvez suscite discussões e questionamentos, pois o que nos é relatado está muito próximo do conhecimento mais superficial ocidental do assunto – não deturpado, não, mas de poucas camadas -, ou das famílias mais cultas de lá, e menos ligadas às razões que fizeram um povo quase na totalidade aderir tão estreitamente às mudanças acenadas quando da volta dos religiosos. Mas não é aula avançada de história e sociologia o que se vê na tela, e a opção "leve" do desenho pode ser compreendida dentro da leveza do que nos é contado. Arte também é uma visão muito pessoal do artista, afinal: seu modo de compreender e seu modo de se corresponder.
Leia também: