SENHORES DO CRIME:


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Original: Eastern Promises
País: Reino Unido / EUA / Canadá
Direção: David Cronenberg
Elenco: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Jerzy Skolimowski, Mina E. Mina
Duração: 100 min.
Estréia: 22/02/2008
Ano: 2007


"Senhores do Crime" – o que é normal, quando o assunto é o ser humano?


Autor: Cid Nader

Frente a frente novamente com esse atípico, estranho e genial diretor canadense, David Cronemberg. Quando classificado de diretor estranho, que filma e faz o modelo de seu cinema constituído por situações bizarras e estranhas, principalmente, talvez seja interessante pensar se, na realidade, ele não passa mesmo de um observador extremamente perspicaz da vida, que enxerga mais facilmente as atitudes humanas como algo um tanto fora do padrão normal, principalmente quando apostas às dos outros seres vivos. "Senhores do Crime" talvez possa ser caracterizado como um grande exemplo dessa estranheza humana que não aparece tão facilmente aos nossos olhos mal(bem)-acostumados. O diretor atravessou o oceano e foi filmar meandros de setores criminais de uma sociedade que sempre caminhou um tanto à parte do que qualificamos como "normalidade" - mesmo sendo difícil em padrões normais, em se pensando no início de meu texto (o quanto me faz repetir termos relacionados à palavra "normalidade", é o quanto se pode pensar e perceber o poder de suas intromissões sem meios termos nas "pacifidades" humanas). Essa sociedade peculiar é a russa, com suas "vezes" na história humana recheadas de atos, de heroísmos, de fome, de guerras, comportamentos causados pela distância, isolamento e frio; principalmente. A Rússia que nunca caminhou muito paralela ao resto do padrão de caminhada da Europa, e que também nunca se viu – e não é mesmo muito – como asiática.

No filme, Cronemberg parece ter percebido algo desse inusitado da alma desse povo, e resolveu mostrá-lo à sua maneira. Conta a história de uma enfermeira/parteira inglesa de origem distante russa, Ana (Naomi Watts), que socorre, numa noite estranha, uma garota de catorze anos, ensangüentada, grávida, que surge do nada e deixa um monte de mistérios no ar. O roteiro a conduz ao mundo da máfia russa na tentativa de descobrir mais sobre o que aconteceu com a menina, e Ana acaba penetrando (convite complexo esse, hein?) num daqueles mundos de aspecto "cronembergianos". Gente sorridente, que agrada, se presta a ajudar, finge e seduz, mas que no fundo tem o maior jeito de que tem culpa no cartório. Gente com cara de mau, calado, enigmático, com algo de sedutor, algo de cumpridor de ordens, algo de indecifrável, que serve de elo entre um filho violento e indeciso e um pai violento e fingido – no caso, falo do novo ator/queridinho de cabeceira do diretor, que é Vigo Mortensen. Cronemberg começa retratando uma Londres comum, mas mergulha rapidamente no mundo de seus personagens russos. Recheia a história de russos comuns – estranhos, com certeza – e de russos bandidos.

A qualidade no modo de filmar dá ao filme – como em todos os outros de sua carreira – um tom próximo (que incomoda, assusta aos mais frágeis) e sombrio. Isso é fruto de composição entre iluminação, proximidade com os protagonistas – logicamente que a atuação deles também, e vale demais dizer o quão estupenda é a de Vigo Mortensen, que parece ter nascido para esses papéis dúbios, calados – e edição, que caminham quase sempre de forma elegante, mas continuam a intrometer, de repente, do nada, aspectos de impacto visual muito fortes e marcantes (gargantas degoladas, retalhação de corpos para não serem identificados, e uma luta das mais espetaculares, duras e "estranhas" da história do cinema, que acontece dentro de uma sauna). Em "Marcas da Violência", o diretor fez um filme que era nitidamente mais desenhado dentro de padrões narrativos "compreensíveis" – tinha história mais linear, personagens com um entorno a ser contado, a ser utilizado -, e mesmo assim resultou um de seus trabalhos mais estranhos, e um dos melhores (se não o melhor). Essa mesma adeqüação a um padrão narrativo mais "comum" está presente em "Senhores do Crime", e, novamente, um outro filme bastante incomum se concretizou. O que fica evidente, cada vez mais, é que realmente não é ele quem procura criar alguns tais "climas à parte" para seus filmes. Fica óbvio que a diferença entre as obras dele e outras, é que nas dele ele não oculta, não defende o ser humano e nem seu comportamento.

David Cronemberg anda parecendo agora, com esse seu cinema que caminha por vias narrativas mais "normais", alguém que antecipava um mundo humano que nunca foi menos estranho, mas que parece (culpa da velocidade e da facilidade das informações?) a cada momento cada vez mais estranho. "Senhores do Crime" fala dos desvios evidentes e mais facilmente perceptíveis da raça, quando embrenha pelo mundo do crime. Mas não inocenta todos que não pactuem com esse "estilo de vida". Ele não "confia" mesmo nas aparências. E para demonstrar ostensivamente o quanto desconfia, sangra a tela, mutila quem nela existe, "sexua-a" doentiamente.
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