SANGUE NEGRO:


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Original: There Will Be Blood
País: EUA
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Kevin J. O'Connor, Dillon Freasier, Ciarán Hinds, David Willis
Duração: 158 min.
Estréia: 15/02/2008
Ano: 2007


"Sangue Negro": Thomas Anderson retorna com drama de grande impacto e cenas espetaculares


Autor: Fernando Oriente

Paul Thomas Anderson, que virou uma nova referência entre os cinéfilos após o sucesso de “Boogie Nigths” (1997) e “Magnólia” (1999), volta às telas com um filme grandioso e repleto de cenas espetaculares. “Sangue Negro” chega aos cinemas do país após recolher inúmeras indicações ao Oscar e entrar no Festival de Berlin como um dos favoritos. Independente das credenciais que o acompanham, o filme é a comprovação do talento desse cineasta que impressiona pela competência em assumir projetos ambiciosos e transformá-los em experiências estéticas sofisticadas.

“Sangue Negro” começa com seu personagem central, interpretado por Daniel Day-Lewis, em um cenário amplo e repleto de possibilidades para ser explorado. Vemos um homem solitário numa paisagem vasta, movido por uma determinação que contamina cada um de seus gestos. Os primeiros 15 minutos do longa quase não têm falas, assiste-se na tela o esforço imenso de uma pessoa que age apenas guiada pela sua ambição, que sofre fisicamente para conseguir seus objetivos. Nessas belas imagens, o cenário é inundado por uma luz forte, chapada, o que torna o ambiente das ações agressivo e inóspito.

Toda a intensidade do esforço começa a render frutos, as possibilidades de riqueza sucedem-se uma atrás das outras. Até o final do filme o personagem não irá recuar um único passo em direção às suas ambições, em meio a uma jornada que assumirá ares épicos. É um homem contemporâneo, que entra na marra no mundo do capital e que não mede nem uma conseqüência para tirar todo o proveito deste sistema de viver e enriquecer. Em um diálogo do filme, Day-Lewis põe em palavras o que o público já havia percebido: ele não gosta de ninguém, desconfia de todos; o ódio aos seus semelhantes é uma de suas principais forças motoras. Não se apega a nada, o que, dentro de sua lógica de eterna competição, lhe dá uma grande independência em relação ao mundo, uma liberdade maior para perseguir única e exclusivamente seus objetivos pessoais.

As cenas externas são fotografadas sempre com a mesma luz chapada que marca presença desde o início do filme. Como contraponto, as seqüências internas são escuras, refletem o estado de espírito não só do protagonista, mas também daqueles que o cercam. A paleta de cores é composta por tons sóbrios, frios e desbotados, na grande maioria variações do marrom e do bege. Mas a cor que marca o filme é o preto, o negro do petróleo, que mesmo quando não é mostrado, se impõe como presença constante no longa. Em um belíssimo enquadramento, Thomas Anderson nos mostra o rosto de Day-Lewis coberto de petróleo, com o fundo do quadro todo enegrecido onde vemos apenas os olhos do ator, sua intensa expressão e tudo que ela exprime dentro da cena.

Além do personagem central, o filme desenvolve de forma complexa um outro tipo fundamental dentro da trama. O jovem pastor protestante, que prospera dentro de seu “negócio” (no caso a religião). Ele é o mesmo lado da moeda do empreendedor de petróleo. Escala a sociedade conquistando seu espaço com ambição e determinação, vê apenas seus fins em suas ações e assume a mesma postura severa e determinada do outro. Eles acabam sendo os grandes rivais de “Sangue Negro”, são tão parecidos que, para triunfarem por completo, precisam eliminar um ou outro do caminho. O desfecho do longa será marcado pelo inevitável embate entre os dois, em que o sangue prometido pelo título em inglês (“There Will Be Blood”) será derramado.

Paul Thomas Anderson é um cineasta que gosta de mexer com o emocional da platéia. Manipula de forma muito competente os sentimentos do público, construindo cenas de grande impacto visual que traduzem todas as emoções em que seus personagens estão mergulhados. Como em “Magnólia”, ele põe o espectador como agente participativo do potencial dramático de suas imagens e do que quer transmitir através delas.

Duas seqüências merecem registro pelo impacto e pelo aspecto grandioso que atingem. A primeira é composta em tom de espetáculo pelo cineasta; vemos através de enquadramentos belíssimos e movimentos de câmera precisos e envolventes – principalmente travellings – o momento onde o petróleo começa a jorrar em uma propriedade do protagonista. Todo o poder e o sucesso são exibidos de forma explícita através dos planos criados por Thomas Anderson. O triunfo da conquista é, ao mesmo tempo, diluído por um acidente que irá marcar para sempre a vida do filho do personagem de Day-Lewis. Entre a dor e a glória do momento, o que realmente prevalece para ele é a glória, o objetivo supremo de toda a sua existência.

Em outra passagem marcante do longa, vemos o homem do petróleo frente a frente com o pastor, na igreja, e tendo que se curvar para fingir que busca o perdão cristão para seus pecados. Suas ações são movidas por interesses muito maiores dentro de suas ambições, mas o “homem de Deus” aproveita o momento para impor sua força sobre o adversário. O que era para ser uma encenação toma ares de confissão e de arrependimento. A atuação de Day-Lewis na seqüência é impressionante.

E por falar em Daniel Day-Lewis, sua presença em “Sangue Negro” é espetacular. O ator inglês assume seu personagem com toda a intensidade que seu talento permite. Oscila entre o contido e o expansivo com completo domínio de seus atos. Ao contrário de muitas interpretações caricatas feitas por atores que desejam impressionar os membros da Academia em busca do Oscar, Day-Lewis passa absoluta veracidade para o tipo que encarna, sobe e desce o tom de sua interpretação dentro da proposta dramática do longa. É um dos principais destaques desse que é um dos melhores filmes americanos dos últimos anos.

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