SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLETT:


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Original: Sweeney Todd: The Demoniac Barber of Fleet Street
País: EUA
Direção: Tim Burton
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Jamie Campbell Bower, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen, Jayne Wisener
Duração: 116 min
Estréia: 08/02/2008
Ano: 2007


" Sweeney Todd": Tim Burton apresenta mais uma fantasia em tom de “ópera”


Autor: Fernando Oriente

Tim Burton confirma, filme após filme, sua imensa capacidade de explorar o fantástico. Trabalha no registro do universo da fantasia em seu estado puro, com muito vigor estético e tira dele todo o seu potencial simbólico. As imagens que cria traduzem na tela toda a capacidade criativa do cineasta, que usa como poucos o repertório de fábulas e lendas para construir longas de beleza impactante e que tocam em temas clássicos com muita originalidade.

“Sweeney Todd – O Demoníaco Barbeiro da Rua Fleet” é baseado em uma lenda popular inglesa que data do século XVIII e que serve como combustível para Burton na construção de um mundo sórdido – representado por uma Londres imunda e habitado por seres humanos abjetos - onde os instintos mais cruéis regem as ações dos homens. Esse aspecto grotesco do cenário é potencializado e, ao mesmo tempo, caricaturalizado por uma direção de arte precisa e por uma fotografia impecável que destaca os tons escuros em contraste com a palidez do rosto dos personagens.

O que torna o filme muito mais interessante é a capacidade do diretor em tirar da feiúra do mundo que retrata e da crueldade de seus personagens, um aspecto delirante de fábula, uma beleza estética singular que envolve o espectador exatamente através do aspecto do exagero e da espetacularização da imagem e da mis-en-scene. Para ampliar ainda mais esse potencial do fantástico, não podemos esquecer que o filme é um musical. Os atores cantam do começo ao fim do longa. Essa falsificação da realidade é proposta como um jogo lúdico por Tim Burton, que chama o público a embarcar em seu mundo fantástico onde as vicissitudes do homem são fonte para as alegorias operísticas da tragédia encenada.

Tim Burton usa muito bem todos os recursos estéticos a sua disposição para criar um grande impacto visual em sua fantasia. Extrai do material com que trabalha parábolas e metáforas que exprimem todo seu conceito sobre a crueldade e o aspecto vil do homem. A vingança, sentimento que move o personagem principal o torna, também, um ser abjeto, desprovido do menor sentimento de afeição por qualquer um que seja; nada pode interromper seu caminho rumo à consumação de seu ódio.

Incapaz de eliminar o objeto máximo de sua cólera, o barbeiro passa a matar aleatoriamente pessoas comuns, que habitam as ruas de Londres sem terem um “rosto definido”, são apenas párias com quem ninguém se importa. Executa-os e os faz virarem recheios de torta, para serem devorados por outros indivíduos que acabam, indiretamente, consumindo o lixo social que a sociedade descarta. É um processo de reciclagem do homem.

“Sweeney Todd” pode ser visto como uma tragédia em seu aspecto mais clássico. A jornada de vingança e redenção, a procura por algo que a o mundo lhe arrancou, faz o barbeiro vivido por Johnny Depp vagar obstinado por um caminho que só pode levar à dor. Dor que o alimenta e que ele quer dividir, impor aos outros, e que representa para ele o aspecto determinante que caracteriza uma sociedade que nunca fez nada para aliviar seu sofrimento, nem daqueles que um dia amou.

A nova obra de Tim Burton é também um estudo de cores, no caso o vermelho. Vermelho do sangue que jorra aos borbotões ao longo do filme. Sangue que alimenta o corpo, que é uma das substâncias mais viscerais do ser humano. É o único elemento “vivo” que ressalta na tela. O vermelho, o sangue, contrasta de forma direta com os tons de preto e cinza que marcam o cenário e o figurino e com o branco no rosto dos atores. É ele o objetivo do barbeiro, é fazê-lo jorrar que o conduz. E é o seu próprio sangue, que ele sabe que também será derramado, que o aguarda em seu destino redentor.

Outro aspecto importante no filme é o trabalho de composição do personagem do barbeiro assassino desenvolvido por Johnny Depp. Todo o talento do ator está em compor um tipo humano complexo, que tem todas suas texturas muito bem exploradas por Tim Burton. As mudanças de fluxo que sofre ao longo do filme, bem como as possibilidades dramáticas de sua personalidade são encenadas com perfeição por Depp, que embarca na fantasia que move o longa sem diminuir todo o potencial humano do personagem que vive. Ele vai, de uma cena a outra, do contido ao exagerado sem perder o controle do sujeito que encarna.

Tim Burton é um dos maiores autores do cinema americano na atualidade. Tem seus conceitos artísticos e se mantém sempre fiel a eles. Desenvolve projetos em que acredita e nos quais se sente à vontade para abordar. Não pensa na bilheteria que seus filmes podem dar, seu compromisso é com sua visão da arte e o que ela pode representar.

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