SEXO COM AMOR?:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Wolf Maya
Elenco: Carolina Dieckmann, Eri Johnson, José Wilker, Malu Mader, Maria Clara Gueiros, Marília Gabriela, Reynaldo Gianecchini, Natasha Haydt
Duração: 90 min.
Estréia: 01/02/2008
Ano: 2007


Cinema com desamor


Autor: Érico Fuks

Em rodas informais de amigos, costumo dizer que tem filmes que você assiste, outros você enfrenta. “Sexo com Amor”, como se pode supor, não passa de uma trepadinha rápida e mal dada, típica de uma bebedeira: segundos depois você já esqueceu tudo.

Curiosamente, as preliminares são muito boas. A vinheta estilizada de abertura traduz uma riqueza embutida pela simplicidade de significantes que permite um amplo olhar de seus significados. Vários pontos de interrogação vão surgindo na tela, invertidos, que procuram suas “caras-metades”, ou seja, outros pontos de interrogação igualmente espelhados. A união desses reflexos forma um conjunto de coraçõezinhos que, aos poucos, vão sendo eliminados por tiros vindos da base. À medida que os corações de interrogação se deslocam, enfileirados, da esquerda para a direita, vão sendo cada vez mais dizimados, o que faz com que essa animação lembre o lendário videogame Space Invaders. Um achado do filme, talvez por acaso: seu minimalismo quase não diz nada, mas muito quer dizer. Seria o amor uma somatória de mistérios? O amor verdadeiro está fadado a acabar? O revival aos anos 70 seria uma maneira de se reverenciar a verdadeira década do amor livre, sem culpas, sem preconceitos? A esse jogo organizado de clipartes que abrem portas a muitas interpretações, soma-se a figura do diabinho ao lado dos créditos dados aos atores mirins. Perfeito, não precisa dizer mais nada.

Agora vamos ao filme. Ah, o filme... Bom, eu ouvi dizer que é baseado, ou é uma refilmagem, de um longa chileno homônimo de uns quatro anos atrás que fez o maior sucesso em seu país, mas que aqui passou despercebido. Procurei no google alguma coisa que confirmasse essa versão, mas o máximo que consegui encontrar foram as fotos das beldades e celebridades presentes na pré-estréia. Tá bom ou quer mais? No país em que a revista Caras é a que mais vende, pouco importa de onde vem ou deixa de vir o roteiro, se o texto original é uma comédia farsesca ou uma paródia das vivências pessoais do autor, coisas do tipo. Nem no site da distribuidora, Fox Filmes, há quaisquer referências mais estruturais e mais completas. Não é essa a proposta. A descartabilidade de seus objetivos é estampada até mesmo nos processos e métodos de divulgação. Tão efêmero quanto uma partida de Atari, esse retrato burlesco e vaporoso da classe média fútil carioca versa sobre a traição, nos mais diversos contextos, parâmetros e intensidades. São três histórias paralelas de casais que confirmam ou não (eis o cume do conflito) se vale a pena pular a cerca. A saga inicial mostra o autista José Wilker no papel de um escritor de sucesso, que acaba de lançar um best-seller de auto-ajuda, Sexo com Amor? (daí o nome do filme). Ele é casado com a frígida Marília Gabriela, mas tem um caso platônico com a professora do primário Carolina Dieckmann. Esta, por sinal, a própria Vênus de Milo: beleza escultural, pele branca e lisa, mas sem braço, sem perna e sem o mínimo talento para a arte de interpretar. O outro fragmento pecaminoso conta a vida do empresário vivido pelo mala-sem-alça Reynaldo Gianecchini, casado com a fiel Malu Mader, mas que não se controla quando vê um rabo-de-saia. É traidor compulsivo. A terceira fração, a que poderia render a melhor mise-en-scène e que conta com os atores mais bem tarimbados para o gênero, é vivida pelo casal Eri Johnson e Maria Clara Gueiros, um típico par comum e apaixonado, mas que já encontra na carne a presença da idade e os sinais de declínio do império brasileiro. Essa mistura de rugas e de impotência se complica com a chegada inesperada de uma sobrinha adolescente do interior.

Para filmar esse sexo sem graça, o diretor televisivo Wolf Maia parece ter ligado a câmera (ou ligou o “f..a-se”?) e depois se deslocado ao Shopping Frei Caneca para dar suas aulas aos aspirantes a ator. Não há qualquer preocupação com o cinema na raiz de sua palavra: planos, cortes, campo e profundidade, enquadramento. Tudo é feito às pressas, ou melhor, nas coxas. Maia parece querer dar uma de Iñarritu com Mal de Parkinson tentando entender Nélson Rodrigues. O diretor pinça algumas referências textuais das comédias de erros do vaudeville teatral, o que poderia trazer uma bossa ao produto, mais a linguagem dinâmica de suspense em close das telenovelas, mais alguma coisa sei-lá-o-quê que poderia ser considerado tipicamente cinematográfico, mas não consegue nem uma coisa nem outra. Esse exercício copular nas interfêmuras traduz bem a que o filme veio. Não há a mínima vontade de transcender sua imagem para além daquilo que ela está mostrando. Ao optar pelo caminho mais fácil, e mais oco, Maia acusa seu público de possuir uma capacidade limítrofe de compreensão e apreciação de seus acordes semânticos. Basta comparar uma cena, possivelmente inspirada no curta “Eletrodoméstica” de Kleber Mendonça, que mostra o coito rápido e frenético sobre uma máquina de lavar. No trabalho do premiado pernambucano, há toda uma orquestração de ruídos do aparelho tremulante, do silêncio antagônico do ambiente da casa, da conivência entre os protagonistas, que só tem a enriquecer o filme. Aqui, há apenas a retratação pitoresca de como é ridículo e inusitado fazer amor onde não se deve fazer amor.

Se esse amor de qualquer jeito fosse acomodado do começo ao fim, sua análise seria mais simplória. Basta levantar a questão de que tratar o elenco como maquete e o roteiro como um edital público, tamanho descaso e preguiça, não interfere diretamente no sucesso de bilheteria, pois os fatores televisivos do filme estão exaustivamente alocados a seu tipo de público a que se dirige. O que deixa a coisa mais complexa é a conclusão de que não há qualquer elemento conectivo entre a simplicidade com fartura da vinheta de abertura e os rechonchudos procedimentos filmográficos do sexo sem tesão. Pior do que um trabalho assumidamente ruim do começo ao fim, é achar um bilhete premiado de loteria jogado no lixo, onde não foi feita nenhuma aposta no sentido de se elevar esse amontoado de qualquer-coisa a um patamar mais digno de análise.

P. S.: quando o sexo é feito com amor e o filme é feito com dinheiro, tudo fica mais fácil e mais gostoso. Como se pode observar nos logotipos sobre a tela preta inicial, “Sexo com Amor” obteve recursos da Ancine e do BNDES. É dinheiro público, a minha grana, a sua mufunfa, que está financiando esse catre de leviandades ao cinema nacional.
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