ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ :


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Original: No Country For Old Men
País: EUA
Direção: Ethan e Joel Coen
Elenco: Javier Bardem, Josh Brolin, Tommy Lee Jones, Kelly Macdonald, Woody Harrelson, Stephen Root, Garret Dillahunt
Duração: 122 min.
Estréia: 01/02/2008
Ano: 2007


"Onde os fracos não têm vez": a violência vagueia pelo oeste decadente


Autor: Fernando Oriente

Um cenário pode, além de conter inúmeras possibilidades de ação, representar de forma estética os confrontos éticos e psicológicos que o homem carrega em seu interior e que atingem toda a sociedade. Joel e Ethan Coen levaram seu olhar e suas lentes para o Oeste norte-americano para registrar, em meio a paisagens amplas, áridas e melancólicas a decadência de valores e o embrutecimento das relações. O resultado dessa experiência é “Onde os Fracos não têm Vez”, com certeza um dos melhores trabalhos desses irmãos que, há anos, estão entre os poucos que representam o lado mais criativo e inteligente do cinema dos Estados Unidos.

O longa começa por situar, através de belas imagens, o ambiente onde a ação irá se desenvolver. Vemos, em ângulos abertos, o vasto e amplo cenário do Oeste americano, um dos panos-de-fundo mais míticos para o cinema, onde lendas e heróis foram consagrados e, também, desconstruídos ao longo da história. Os Coen caprichosamente delimitam o espaço físico que irá conter o tempo das ações. A relação tempo-espaço é proposta com muito rigor estético, as primeiras cenas se desenvolvem em ritmo cadenciado, a duração e a construção das tomadas acompanham o movimento temporal que o ambiente sugere. A tensão que irá ser desencadeada está contida e chega ser sentida através das imagens. Existe uma forte sensação de espera, sabe-se que toda aquela amplidão será perturbada.

Os personagens começam a surgir e são retratados de forma seca, toda a aspereza e a rudeza do cenário estão contidas em suas ações e expressões. Há um forte senso de desencanto em suas figuras. Há uma crueldade intrínseca em cada um de seus semblantes, não existe possibilidade para a ternura e muito menos para a comiseração e as ações que passam a surgir na tela só tornam a situação ainda mais tensa. E é exatamente a tensão um dos pontos fortes do filme. Os irmão Coen mostram total domínio do longa ao fazerem a evolução do filme impregnar-se de forte angústia.

Os valores éticos, ou melhor, a ausência deles é o fio condutor das ações. O homem simples interpretado por Josh Brolin, veterano da guerra do Vietnã, que acha em meio a vários cadáveres no deserto uma mala com milhões de dólares, simplesmente age por impulso e ganância. Toda a violência que o cerca não o afeta em nada, ele é seco em suas intenções, nem as conseqüências mais ameaçadoras para seus atos o impedem de simplesmente seguir em frente com seus instintos. O personagem é a representação da forma puramente instintiva como seres humanos agem em uma sociedade que não abriga mais espaço para choques de consciência.

A violência, que sempre caracterizou o Oeste americano, já é algo incrustado naquele mundo em 1980, ano em que se passa o longa; ela não choca mais. E é a violência em seu estado mais puro e bruto que representa o personagem de Javier Bardem (monumental em sua interpretação). Ele vai atrás do dinheiro, mas não é nem os dólares, nem o homem que os pegou que importam. Ele é movido visceralmente pela ação de perseguir e destruir. Ele é a criação mais autêntica da sociedade decadente e carente de valores que o gerou.

A perseguição, a relação de gato e rato entre os dois homens, é brilhantemente registrada pelos irmãos Coen. O suspense é constante, as cenas criadas transbordam tensão e suspense e atingem o espectador em cheio. Vemos os dois personagens em uma disputa em que o instinto de destruir e o de sobreviver subjugam tudo. Nada os impede de continuar, não existe possibilidade de se voltar atrás, o embate terá de ser travado até o final. Não existe mais sentido em suas ações, nos atos que são obrigados a cometer para prosseguirem e, muito menos, finalidades lógicas.

Contrastando com toda essa situação, há o personagem do xerife veterano vivido por Tommy Lee Jones. Ele é um homem da lei, como foram seu pai e seu avô, em tempos antigos onde isso ainda significava algo. É o único dos protagonistas que demonstra apego aos valores éticos. É um peixe fora d`água, representa a frustração diante da decadência moral do mundo em que vive. A única opção que lhe resta é se aposentar, sair de cena, em um cenário que não é mais para “velhos”.

O longa é composto com um rigor primoroso por Joel e Ethan Coen. Cada cena, cada enquadramento, bem como a fotografia e a edição, são desenvolvidos de forma preciosa. Todos os fotogramas estão a serviço da grandeza do filme como um todo, não existe exagero estético e sim um preciosismo de forma e conteúdo em total comunhão.

O mundo de “Onde os fracos não têm vez” é, e continuará sendo, habitado por tipos como o personagem de Javier Bardem. A violência e a brutalidade vagueiam sem rumo e sem controle pelo que sobrou do “Velho Oeste”.

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