PARANOID PARK:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Gus Vant Sant
Elenco: Gabe Nevins, Daniel Liu, Taylor Momsen, Jake Miller, Lauren McKinney, Winfield Jackson, Joe Schweitzer, Grace Carter
Duração: 85 min.
Estréia: 25/01/2007
Ano: 2007


O hipnótico Paranoid Park


Autor: Cid Nader

Gus van Sant vem se "especializando em tentar compreender a molecada norte-americana, dentro de seus domínios, com cuidado de artesão estético e observador da psiquê de grupos. Para isso tem utilizado razões limites como ponto de partida, e, a partir daí – assassinatos, brigas... - passando a investigar minuciosamente comportamentos e entornos. O mais incrível é que ele tem detectado melancolia, falta de comunicação com outros setores – pais, escola, sociedade estabelecida - nesses moleques. Tem feito filmes que acabam criando um clima tão particular por conta dessa observação, e por conta das conclusões a que chega que começou a criar um caminho de autor. Repetições temáticas, repetições de estilo, de signos, e um caminho autoral a mais na história do cinema sendo delineado.

Em "Paranoid Park" se conta a história "melancólica" de um garoto de 16 anos, skatista, residente na cidade de Portland, que divide seu tempo – por obrigação – entre a escola e família (apesar da figura genial de seu irmão mais novo), e – por prazer, ou identificação com próximos incompreendidos - o mundo da rua dos skatistas, um novo e mitológico lugar (justamente o Paranoid Park, uma namorada, e vaguear pelas solidões que somente jovens sabem valorizar. Acontece um crime e o filme nos coloca em sua rota, de maneira a percebermos quantas razões podem ser as de origem para atos semelhantes – nem sempre de raiz violenta ou vingativa. Gus aproveita esse mote de "partida" para contar melhor de "uma" pessoa, no meio físico por onde as imagens transitam. Investiga sem fazer juízo ou tentar impor idéias, e vai revelando, aos poucos, traços comuns que se repetem nas sociedades contemporâneas (o que deixa muito evidente o quanto a cópia superficial desses comportamentos extrapola modismos estéticos por parte de jovens do mundo todo, e revela que há conjunções de pensamentos, de tristezas, de inconformismos, dando a notar que há um mundo muito mais fechado na essência, nos dias atuais).

Mais: com seu jeito interessante de filmar, onde sua câmera por vezes transita sobre skates para filmar os que estão observando ou os que estão à frente, van Sant volta a firmar um estilo, volta a repetir uma estática interessante. Há as imagens filmadas como se por Super8, tênues luzes, ambientes enevoados, tudo pronto a compor um ambiente muito interiorizado; como se a tentar entrar nas possibilidades de um ambiente físico que pudesse ser refletido fisicamente, via imagens, via velocidades. Ele transfere suas lentes para ambientes interiores, as traz para da noite para o dia, embarca em trens (e é interessante como trens de carga continuam tendo uma relação com liberdade, com fuga do real, no imaginário americano; desde os tempos dos beatniks; mais atrás ainda, lá nos tempos do ocaso do velho-oeste no cinema), mas sempre mantendo um padrão de "descobrimento", de detalhamento comportamental, notáveis.

Se quiséssemos resumir seus filmes a definições, "hipnóticos" poderia ser um termo utilizado. Porque se pensarmos em como somos conduzidos pelo seu jeito, o quanto ele abdica das palavras e investe em estética, em técnica, e mesmo assim passa seus recados; se notarmos o modo de seus personagens transitarem pelo seus trabalhos, como se fossem entidades à parte da sociedade comum – de alguma maneira o são, por opção -; se percebermos, com pés no bem chão e a cabeça focada, o modo sempre interessante de utilizar as músicas – como se fossem peças que contam estilos, momentos -; portanto, se tentarmos estabelecer padrões lineares de pensamento e de observação para compreender sues filmes, perceberemos mesmo que não estão num patamar "comum". Perceberemos que conseguem penetrar em nossas cabeças por vias menos lógicas. Poderíamos defini-los como hipnóticos mesmo. Se bem que, talvez seja reducionismo pensar sua obra por um termo. Ela é muito mais, e será muito mais bem definida em nossos conceitos, à frente.

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