4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS:


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Original: 4 Luni, 3 Saptamani Si 2 Zili
País: Romênia
Direção: Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov e Alexandru Potocean
Duração: 113 min.
Estréia: 25/01/2007
Ano: 2007


Duro demais


Autor: Cid Nader

Não há como negar que uma nova cinematografia surgiu recentemente na Europa – talvez a que mais possa estar num nível de competição, por excelência e frescor, ao que vêm sendo exportado pelos países do extremo oriente (a grande e reiteradamente discutida onda dos últimos tempos) -: e ela vem da Romênia. Curioso é observar que o país foi um dos que mais sofreu perdas na época de um comunismo burocrático e falsamente executado, que colocou no país um de seus "líderes" mais sangüinários e carrascos, dentre os enganos que a potência União Soviética proporcionou: Nicolau Ceausescu. O país já se constituía um fenômeno para nós aqui mais distantes, por conta de sua formação étnica, que embaralhava povos "brancos" a signos latinos – aliás, mistura já milenar - num miscelânea que sempre causou espanto. O país continuou a causar surpresas, quando percebíamos que o líder sangüinário persistia no poder, aterrorizando e amedrontando – sem nenhum tipo de medo de investidas estrangeiras mais potentes -, até o momento de uma das deposições mais vingativas (mesma moeda?) e festejadas dos tempos modernos.

Os resquícios de tamanha e tão prolongada insanidade persistem até hoje de maneira bastante evidente: resultou um país pobre (miserável se considerarmos o nível de seus vizinhos), com grandes dificuldades em entrar num ritmo mais aceitável de realizações estruturais, das mais básicas – desde calçamento de ruas, até miséria no sistema de saúde -, mas, em contrapartida, com uma evidente e entusiasmadora vontade da volta por cima, executada por um povo que sabe utilizar-se bem de sua misturada herança "genética". Pensando nisso, talvez seja aí que possamos incluir o fenômeno pelo qual vem passando o cinema de lá: que é mordaz quanto ao que resultou do país, nunca deixando – ao menos nas obras que ganharam reconhecimento internacional – de evidenciar a culpa da antiga estrutura e seus estruturadores, mas que também sabe olhar e relatar tais percalços com humor "estranho".

Talvez, uma das falhas desse bom filme, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", dirigido por Cristian Mungiu, esteja justamente em se enxergar e a seu relato de forma rígida demais, ressentida demais, inconformada demais; com um tanto de jogo de cintura a menos. É trabalho forte no que se propõe denunciar. Bem realizado, sem dúvida, sim. Com atuações e modos de construção nas seqüências que fazem da naturalidade dos protagonistas – e dos coadjuvantes também – algo acima do que se tem visto por aí, muito acima, o filme se mostra competente como obra dentro de um dos princípios básicos de sua arte. Raramente vi atuações tão bem orquestradas e executadas, a ponto de fazer pensar como é possível se obter isso? Um trabalho de direção de atores notável.

Tecnicamente o filme também tem momentos que beiram o primoroso. A câmera é utilizada meio que à irmãos Dardenne, perseguindo seus personagens de modo muito próximo, mas numa semelhança de trabalho que cessa por aí. Esse modo de execução dela ganha um adicional ao que fazem os irmãos belgas – que assumidamente utilizam suas lentes junto às costas de seus atores com a evidente e assumida função de fazer-nos pensar, respirar, sentir com os atores -, quando se nota que ela "observa" as cenas de um ponto estático (como que a fazer perceber que existe um entorno que necessita ser mostrado e evidenciado – já que o filme fala de um Estado e de uma estrutura extremamente burocratizados, e que necessitam também ser observados fisicamente pelo espectador), partindo, então, com a chegada da principal protagonista no cenário, em sua perseguição, fazendo que só então "sejamos" ela (a personagem). Um achado esse mecanismo de procedimento; supera inclusive, em alguns aspectos, a função idealizada pelos irmãos geniais.

Mas o filme começa a se mostrar um pouco "rateante" quando insiste demais na dureza das situações. Empresta um caráter muito pesado ao sofrimento das garotas, principalmente da principal, e não possibilita algum momento necessário de respiro – e aí talvez se faça necessário retirar a minha solicitação de humor feita lá em cima (pareceria descabido), mas solicitar esse espaço para um "respiro". É grande a cena em que o "contratado" para executar uma tarefa bastante perseguida pelo sistema político de então chantageia as garotas com palavras de punição e amedrontamento; mas termina de maneira acima das possibilidades, com favores físicos e degradação moral – um bom exemplo da falta de respiro, de um pouco de pé no freio, e que compromete fortemente o trabalho. E por alguns momentos, essa necessidade do diretor em mostrar o quão duro era o sistema, o quão mal funcionavam as cabeças, mesmo que na intimidade de uma festa em família, acaba se fazendo necessária demais, rebaixando a qualidade estética do filme. Que poderia ser quase genial: como mais um exemplo, basta reparar na câmera que filma a garota à mesa da festa da mãe do namorado , com a mente a mil; câmera que não desgruda dela (primor técnico), e feição que vai pesando ante as atitudes dos familiares (primor de interpretação); isso é uma configuração de primor estético. Que o filme tem aos montes. Por pouco não chega "lá"!

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