LILA DIZ:


Fonte: [+] [-]
Original: Lila dit ça
País: França
Direção: Ziad Doueiri
Elenco: Vahina Giocante, Mohammed Khouas e Karin Bem Haddou
Duração: 89
Estréia: 09/09/2005
Ano: 2004


" Lila Diz" - aquela que conta histórias


Autor: Cid Nader

”Lila Diz” de Ziad Doueiri bebe na fonte do cinema francês surgido nos anos 90, que calava a própria boca, e acentuava na tela as disparidades de um nova França, que sofria um refluxo colonizatório, isto é, se via "invadida" por seus antigos "protegidos", colonizados, principalmente os da África. Os de origem muçulmana, norte da África, de comportamento mais contestador, mais belicista, menos bem vistos do que os negros, centro e sul da África, tornaram-se alvo da atenção de diretores que, na contra-mão do cinema francês que vigorou por muitos anos, prolixo ao extremo, que procurava pelo em ovo e quase nunca levava a lugar algum, nos apresentaram um cinema econômico no falar, mas não em imagens fortes e cruas, com momentos de uma "secura" que, mais do que arranhar gargantas, nos arranhava o cérebro.

Mathieu Kassovitz com seu "Ódio" e Bruno Dummont de "A Vida de Jesus" e do posterior e acachapante "Humanidade", foram dois dos principais responsáveis por arrancar o cinema francês daquela interminável auto-análise, do "nósmesmismo", e jogá-lo na areia que recém cobria o chão de França, teimosa e insistentemente soprada do deserto.

Lila, interpretada por Vahina Giocante, é uma garota - um petardo ninfo sexual - com sua pele branca e olhos azuis, que muda-se para um bairro de Marselha, "Bosque Sombrio", e atrai a atenção, desperta os desejos, de quatro amigos de ascendência árabe. Mas ela interessa-se somente por Chimo, dos quatro o mais estudioso e sensível, e que, por sugestão de uma professora, começa a escrever um conto como trabalho de admissão em uma escola de melhor qualidade, destinada a alunos acima da média.

Bem a propósito de um inicial relacionamento de descoberta entre ambos, Lila acaba por se tornar o assunto do conto. Justamente ela, que também é uma contadora de histórias de enredos picantes, desejos secreto explicitados - gosta e se vê no desenho erótico "Narya". que diz suas histórias e mostra-se. Provocadora, arrebata o rapaz de "pele de oliva" que, desejoso e cativo de suas palavras e atitudes isola-se dos seus e provoca inveja e ciúmes.

Tecnicamente, o filme se mostra coeso, com imagens mais velozes e montagem mais esperta no início, condizente com os momentos de apresentação dos personagens e suas personalidades. Desacelera de maneira pensada, e tenta nos conduzir no decorrer da obra - num passeio de bicicleta com os dois protagonistas, o diretor consegue efeitos interessantes, com variados posicionamentos de câmera.

A atriz Vahina Giocante, consegue se fazer desejada não somente pela beleza, mas com olhares bem endereçados e expressivos; boa interpretação. O filme, porém, descamba num certo momento para situações de facilitação na resolução dramática, que exigiam tratamento mais cáustico e duro - como faria Dummont, com seu cinema seco e objetivo por exemplo. Usa clichês - a mãe que, sempre dura e de cara amarrada, desabrocha após uma conversa com o filho, a reação exacerbada a uma história contada por Lila à sua tia meio doidinha, com o surgimento inclusive de um padre para ...

Desvia-se do foco aparente da história e revela-se, com a velha situação de ser sempre o terceiro mundo seduzido pela beleza branca da européia. Beber na fonte, talvez seja um exagero. Mais apropriado seria dizer que umedece os lábios.

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