O GÂNGSTER:


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Original: American Gangster
País: EUA
Direção: Ridley Scott
Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Carla Gugino, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Roger Guenveur Smith, John Hawkes
Duração: 160 min.
Estréia: 25/01/2007
Ano: 2007


Riddley Scott e o mundo do artificialismo perfumado


Autor: Fernando Oriente

Primeiro é bom deixar claro desde aqui: “O Gângster”, novo filme de Riddley Scott, deve repetir no Brasil o mesmo sucesso de bilheteria que teve em outras partes do mundo. Um segundo ponto é importante ser esclarecido: O filme é fraco, pode ser atraente para um público que deseja apenas diversão descompromissada ou que aceita sem questionar ser enganado em relação ao real potencial do longa.

Scott, que tem no currículo o mérito de ter dirigido há mais de duas décadas filmes como “Alien” e, principalmente, “Blade Runner”, é um dos maiores manipuladores do cinema contemporâneo. Não é que a manipulação, necessariamente, seja um defeito. Alguns grandes cineastas são também grandes manipuladores. Mas no caso do diretor australiano, essa manipulação serve para esconder a total falta de densidade e de valor dramático da grande maioria de seus filmes.

“O Gângster”, com seus desnecessários 157 minutos de duração, é um exercício de exibicionismo estético que visa constantemente à grandiloqüência. A arrogância de Scott, que deve-se ao incrível fato de alguns o tacharem de talentoso, está presente ao longo de todo o filme. Percebe-se claramente que o longa propõe fazer um raio-x da sociedade americana em um determinado momento de forte efervescência político-social (final dos anos 60 e começo dos 70), pretende discutir valores como a auto-realização do homem comum, a possibilidade encantadora que qualquer indivíduo tem para se tornar milionário da noite para o dia em meio às maravilhas do capitalismo ianque. É, no fundo, uma tentativa de se retratar o “self-made man” pelo mundo do crime.

“O Gângster” convida o espectador para um jogo através das potencialidades do cinema. Não um desafio calcado no inverossímil, que muitas vezes produziu excelentes filmes ao longo da história, mas uma aposta na falsificação. O imenso artificialismo que Riddley Scott impõe a seu filme é baseado em uma estrutura de narração ágil, que por meio da montagem visa esconder a superficialidade das situações, e em uma fotografia, que embora pretenda ser naturalista, não esconde as tendências estéticas publicitárias do diretor. Típico caso de cinema “perfumado”, de formalismo sem nenhum conteúdo.

Os personagens, desde a dupla de protagonistas até os secundários, são de uma gritante superficialidade. As mulheres entram em cena como meros acessórios, objetos de desejo, pena, ou consumo. As ações que ocorrem ao longo do filme são extremamente mal encenadas, chegando a desrespeitar o bom-senso do espectador. Ir até a Ásia e comprar quilos de heroína pura e conseguir fazer com que a carga chegue aos Estados Unidos sem nenhuma dificuldade é a coisa mais simples do mundo segundo a lógica do longa. Como, também segundo o que vemos em “O Gângster”, achar uma mulher atraente e conquistá-la na primeira troca de palavras é a algo corriqueiro para qualquer um. Todas as relações humanas registradas na tela são de um imenso artificialismo, o que, sem dúvida, é a principal característica deste mais recente trabalho de Scott.

O cineasta peca ao longo de todo o filme em não dar tempo aos planos, que são mal trabalhados, enxugados de qualquer possibilidade de serem mais complexos, ou, ao mínimo, bem compostos. A relação tempo-espaço é muito mal tratada. As ações sucedem-se vertiginosamente, sem serem contextualizadas, nem aprofundadas dentro da realidade sensível do ambiente em que se desenrolam freneticamente.

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de um realizador reacionário como Scott, “O Gângster” é impregnado de um moralismo disfarçado que mostra-se presente tanto no “bandido” quanto no “mocinho” e que acaba por ditar o tom de suas ações e idéias. Por mais regras que estejam dispostos a quebrar, os personagens são típicos representantes do conservadorismo de caráter tão bem defendido pela ideologia dominante nos Estados Unidos.

O melhor aspecto do filme é, sem dúvida, Denzel Washington. O grande ator, mesmo em um papel raso e mal concebido, mostra talento e cativa o espectador com seu carisma e seu charme. Não fosse por ele, o traficante Frank Lucas seria mais um dos muitos clichês que transbordam ao longo de “O Gângster”.

Dividindo com Washington o posto de estrela do filme está Russel Crowe. O ator australiano já mostrou que tem talento, mas também já deixou claro que tem um gosto no mínimo suspeito para aceitar projetos. Enquanto Leonardo DiCaprio se associa ao excepcional Martin Scorsese para trabalhar seguidamente em seus filmes e Viggo Mortensen acaba de rodar dois longas seguidos sob a direção do brilhante David Cronenberg, Crowe tem em seu currículo três filmes em seqüência sob a batuta de Riddley Scott. Alguém de bom senso deveria dar um toque para o cara.

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