O CAÇADOR DE PIPAS :


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Original: The Kite Runner
País: EUA
Direção: Marc Forster
Elenco: Khalid Abdalla, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Ahmad Khan Mahmidzada, Shaun Toub
Duração: 122 min.
Estréia: 18/01/2008
Ano: 2007


"Caçador de Pipas": Afeganistão agridoce


Autor: Marcelo Miranda

Marc Forster é um diretor que, não soubéssemos de sua carreira no cinema, passaria perfeitamente como profissional de TV naquilo que este veículo menos tem de atrativo: a ausência de crença na imagem. Ainda que represente uma forma de expressão audiovisual, há tempos a televisão se entregou à idéia de que seu espectador não está muito a fim de decodificar o que se passa na tela. Então, deve ser pensado, facilitemos ao máximo o entendimento, via palavras, explicações, reiterações e repetições de mais do mesmo. Forster segue essa filosofia. "A Última Ceia", "Em Busca da Terra do Nunca", "A Passagem", "Mais Estranho que a Ficção", são filmes em que o estatuto da imagem, ainda que por vezes aparente ser questionado (especialmente nos três últimos), simplesmente inexiste. Interessa fazer-se entendido, aparar arestas e não deixar qualquer espaço à liberdade de quem vê - algo irônico se pensarmos que boa parte desses filmes lida com a temática da ficção, da criação ou da mentalização de sonhos e delírios.

Por essa linha, "O Caçador de Pipas" estaria mais próximo de "A Última Ceia" do que dos demais, ao escolher acompanhar conflitos em escala crescente de sensações e sentimentos. Porém, há um fator de imensa diferenciação: Forster trabalha em cima de uma material bombástico em termos de vendagem, o romance de Khaled Rosseini lido por mais de 12 milhões de pessoas ao redor do planeta. Junto a um orçamento de superprodução de Hollywood, o diretor não tinha muita liberdade de mexer no que lhe havia sido proposto. E "O Caçador de Pipas" soa o tempo inteiro exatamente assim: um filme de controle pleno e absoluto, em que cada fotograma parece ter sido criado para fazer jus às páginas que o originaram, em que até a escolha pela utilização da língua original dos personagens no Afeganistão parece menos preocupação com a identidade cultural de um país do que simplesmente fidelidade à matéria-prima. E Forster, no meio disso tudo, parece ter sido obrigado (ou optado, vai saber) a se manter firme no tal controle, não permitir ao trem descarrilar, segurar a atenção do espectador em voltagem máxima.

Nisso, surge um filme anódino, agridoce e, se funciona em algumas partes, parece não se acertar com o todo. A primeira parte (o longo flashback que nos apresenta o eixo principal da ação) é bastante superior à metade seguinte, muito porque Forster se desapega das amarras de seu cinema e dá certa espontaneidade à narrativa. Lá estão aqueles dois garotos afegãos indo ao cinema, recitando diálogos dos astros de "Sete Homens e Um Destino", soltando pipas e vivenciando as diferenças sociais e políticas de um universo marcado por contradições e dúvidas. É muito por conta do olhar desses meninos que "O Caçador de Pipas" consegue ganhar bons minutos de respiro, por mais que a câmera e a montagem do filme pareçam querer tirá-los logo da tela, como estorvos a impedirem o centro da problemática do enredo (a culpa carregada pelo personagem Amir).

Quando o filme sai dos anos 70 de volta aos 2000, a desadequação de Forster ao material vem à tona com maior facilidade. Ele aproveita cada movimento dos personagens para colocar uma música triste e melancólica, transforma a viagem de Amir de volta ao país natal num passeio de final de tarde e jamais consegue fazer sentir o real perigo que o cerca. Mesmo na cena mais forte (a morte de uma mulher a pedradas), o espectador pressente estar assistindo a um espetáculo bastante afastado do protagonista. Há, aqui, um processo interessante na linguagem, e que talvez não tenha sido proposital: ao regressar ao Afeganistão, o filme adota tom de novidade, de susto, de surpresas a cada nova descoberta de Amir - enquanto que, anteriormente, na fase das crianças, tudo era tratado de forma mais natural. Há, porém, a justificativa de que o olhar da câmera é o olhar do Amir adulto, que não reconhece o Afeganistão de sua infância - assim como nós, espectadores, também não o reconhecemos. Mas precisaria de muito mais do que pedras e casas destruídas passando no fundo da imagem, ou aiatolás barbados ameaçando inocentes, para transmitir o horror verdadeiro que parece trespassar os olhos de Amir.

Não é questão de comparação nem de cobrança, mas Abbas Kiarostami soube fazer tudo isso ao retornar a uma cidade do Irã após um terremoto, em "Vida e Nada Mais... E a Vida Continua". Bastaria Forster enxergar seres humanos como seres humanos, e não como joguetes de roteiro a se movimentarem de acordo com a necessidade do próximo passo narrativo (como na cena do menino usando estilingue contra o agressor de Amir). Mas aí seria querer de Marc Forster mais do que ele é capaz - ou, sendo respeitoso, mais do que ele quer dar ao seu público.

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