ALLEGRO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Dinamarca
Direção: Christoffer Boe
Elenco: Ulrich Thomsen, Helena Christensen e Nicolas Bro
Duração: 88 min.
Estréia: 11/01/2008
Ano: 2005


Egocentrismo


Autor: Fernando Watanabe

Christoffer Boe ganhou notoriedade internacional com o seu primeiro longa, Reconstrução de um Amor (Reconstruction, 2003), premiado com a Câmera D`Or em Cannes. No entanto, desde seus curtas anteriores, ele já demonstrava uma vontade de trabalhar numa direção alternativa àquela proposta pelo movimento Dogma, cujas leis propunham um cinema que deveria priorizar no resultado final dos filmes o efeito de “despojamento” na maneira de filmar.

Então, percebendo que estamos diante de um cineasta que não diz amém de joelhos a seus conterrâneos contemporâneos, pode-se entender melhor seu cinema, cuja característica que mais chama atenção – justamente por soar totalmente oposta às regras “dogmáticas” – é sua autoconsciência extremada. Na verdade, mais do que ser auto-consciente, o que importa é que seus filmes parecem fazer questão de expressar um efeito dessa dita auto-consciência. A artificialidade, para Boe, não deve ser escondida sob justificativa de uma demanda de transparência. Ao contrário, recursos audiovisuais conjugados de maneira artificiais (em relação ao naturalismo clássico) devem ser exaltados.

Em Allegro, ele recorre à referências do gênero ficção científica ( mais explicitamente à Stalker, do Tarkovski) para manipular o tempo e espaço. Mas, o primeiro plano do filme, um efeito especial que leva a câmera e o espectador a entrar na caixa de memórias do personagem, já mostra o que estar por vir: uma série de malabarismos gráficos, animações “bem sacadas”, câmera inquieta repleta de zooms e flaires (luzes incidindo na imagem) feitos para cegar os olhos. Há de se observar ainda a textura visual da imagem ( feita com scope, granulamento, mistura de suportes DV, 35mm, 16mm), criada por Boe e seu fotógrafo Manuel Alberto Claro. Tais virtuosismos justificam-se pela filiação\homenagem ao gênero da ficção científica? Sim e não. Sim por que todos esses recursos empregados realmente criam um universo ficcional que lembra o aspecto de algumas ficções científicas. E não, justamente porque, ao explicitar demais seus mecanismos de construção (a auto-consciência), o filme parece não acreditar na ficção em questão, praticamente implodindo o gênero adotado ali mesmo, de dentro. Soa mais como des-homenagem, portanto.

O filme preocupa-se mais em exibir os cacoetes de estilo de seu diretor, e, logo, concentra-se menos na dramaturgia. Após a curtíssima introdução, na qual em apenas duas cenas uma relação de amor é fragilmente construída entre Zetterstriom e Andréa, Zetterstriom iniciará sua viagem rumo à Zona, e o ritmo da narrativa se distende. Gasta-se muito tempo em conversas entre ele e o seu “mestre”, em diálogos redundantes que não transmitem nenhuma informação nova, mas cujo problema é estarem justamente querendo (re)informar. Não são expressivos, em hipótese alguma. O mecanismo desses diálogos é simples: Zetterstriom questiona durante boa parte do filme os acontecimentos estranhos que acontecem na Zona, e seu mestre não se cansa de responder: “É a zona”! Repetidamente. Tamanha postergação culmina na resolução: Zetterstriom passa a amar e acreditar no amor, porém não terá Andrea. Andrea? Para o espectador, passado todo o filme, ela ainda é uma estranha (pois tratada com o distanciamento do tipo frio), e percebe-se que ela termina por ficar muito limitada à função de pretexto para a jornada existencial de Zetterstriom.

Se o enredo em si não importa muito – nem para nós, nem para o próprio filme – o que mais fica retido mesmo em nossas mentes são os truques audiovisuais do diretor Christoffer Boe e sua auto-denominação de “manipulador”. O primeiro plano de seu filme anterior era o de um mágico. Um cinema egocêntrico, que parece se vangloriar de poder gritar “olha o que eu estou fazendo!”, sem com isso trazer muito de realmente propositivo. No entanto, há lapsos de beleza pura em seus filmes, principalmente no quesito visualidade, mas tal potencial criativo permanece ainda sufocado por uma imaturidade misturada a uma certa pedância. Chrstoffer Boe, até então, tem se limitado a tentar destruir o cinema de forma bastante inofensiva.

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