O DIÁRIO DE UMA BABÁ :


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Original: The Nanny Diaries
País: EUA
Direção: Shari Springer Berman/Robert Pulcini
Elenco: Scarlett Johansson, Laura Linney, Paul Giamatti, Chris Evans, Alicia Keys e Donna Murphy
Duração: 105 min.
Estréia: 11/01/2008
Ano: 2007


Concessões diluem potencial ácido de comédia


Autor: Fernando Oriente

“O Diário de uma Babá” propõe uma dúvida interessante quanto a sua análise. Vale a pena ver o filme apenas como uma fábula moderna, cheia de clichês e um inevitável happy end, ou valeria mais a pena julgar o filme como uma tentativa de se construir uma comédia ácida e crítica sobre o mundo do dinheiro, do sucesso social e da futilidade das classes altas?

O longa é assinado pelos roteiristas e diretores Shari Springer Berman e Robert Pulcini, a mesma dupla que realizou o interessante “O Anti-Herói Americano”, de 2003, filme que conquistou diversos prêmios de crítica nos Estados Unidos e foi considerado um dos mais destacados produtos do recente cinema independente americano. Esse gênero há muitos anos deixou de ser um espaço para a ousadia e a experimentação estética para se tornar uma espécie de grife onde se maquia um estilo tipicamente hollywoodiano de cinema com um verniz estético “moderninho” e de aparente originalidade, mas que não esconde a superficialidade e a falta de densidade dramática dos filmes feitos sobre esse selo.

A intenção dos produtores de “O Diário de uma Babá” era conferir ao filme, uma adaptação do livro best seller “The Nanny Diaries”, uma aura “independente”, de algo mais denso e complexo que uma simples comédia puramente comercial. Por isso a tarefa de levar a história da jovem recém saída da faculdade de administração, mas que sonha ser antropóloga, e acaba aceitando o emprego de babá do filho de um rico casal da alta sociedade de Nova York, ficou a cargo da dupla de cineastas, que aparentemente trazia consigo esse “selo de qualidade” do cinema independente dos Estados Unidos.

Berman e Pulcini até que tentaram imprimir um estilo criativo ao filme, o que funciona na primeira parte do longa, principalmente através das cenas alegóricas e fantasiosas onde personagens da alta sociedade nova-iorquina são apresentados como figuras do museu de História Natural da cidade. Esse recurso estético que foge totalmente do naturalismo, o ritmo ágil e a forma caricaturalmente cínica como os ricos aparecem na tela são algumas das poucas qualidades de “O Diário de uma Babá”. A futilidade da alta sociedade com todo o seu lado ridículo e grotesco aparecem de forma bem-humorada, o que garante algumas boas risadas.

O problema começa quando o filme passa a introduzir as concessões que vão acabar por dinamitar todo o potencial crítico do longa. Logo surge um interesse romântico na vida da protagonista, que servirá para o filme adotar um estilo conciliador e concluir, de forma piegas, que em meio aos ricos existem boas pessoas, que não são de todo más e que tem olhos para seus semelhantes, mesmo que não tenham contas bancárias como as suas. O romance entre eles soa artificial, aparece como um recurso vulgar e forçado, que pretende apenas atrair um número maior de espectadores para engrossar a bilheteria.

Mas o pior ainda está por vir. Quando a personagem da patroa da babá, que representa ao longo de quase todo o filme o arquétipo da milionária fútil, burra e vulgar, passa a se humanizar, o filme despenca de vez para o mais banal sentimentalismo. A intenção de apresentar conclusões fáceis e de fundo moralista, o intuito claro de evitar conflitos e a recusa de seguir até o final radicalizando as potencialidades de uma crítica ácida são sintomas da falta de coragem dos cineastas. Fica a sensação clara de que eles subestimam o senso crítico do espectador, achando que o público deseja apenas desfechos simplistas e rasos.

Outra questão que o longa levanta é sobre qual rumo Scarlett Johansson pretende dar a sua carreira. Uma das atrizes mais bonitas surgidas no cinema americano nos últimos anos, ela já protagonizou filmes de peso, como os belíssimos “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola, e “Match Point”, de Woody Allen, além de já ter aparecido em cena em trabalhos de outros cineastas de prestígio como Brian de Palma (“A Dália Negra”) e os irmãos Coen (“O Homem que não Estava Lá”). Se a pressão do “star system” de Hollywood pesar tanto sobre as escolhas de Scarlett, seremos obrigados a nos acostumar a vê-la em filmes tolos como “O Diário de uma Babá” com mais freqüência, o que é, sem dúvida, um fato a se lamentar.

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