A ESPIÃ :


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Original: Zwartboek
País: Holanda/Alemanha/Bélgica
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Dolf de Vries
Duração: 145 min.
Estréia: 11/01/2008
Ano: 2006


"A Espiã": Verhoeven mostra fôlego em thriller de guerra


Autor: Fernando Oriente

Alguns cineastas têm a capacidade de utilizar gêneros tradicionais, muitas vezes ligados ao cinema meramente comercial, e transformar em filmes que transcendem o lugar comum e os clichês, obtendo um resultado estético mais complexo e profundo. O holandês Paul Verhoeven é um desses diretores, que desde de seus primeiros longas rodados na Holanda (como “Louca Paixão” e “O 4º Homem”) até seus trabalhos realizados em Hollywood (“Conquista Sangrenta”, “Robocop”, “O Vingador do Futuro” e “Tropas Estelares”, entre outros), mostra grande habilidade e criatividade ao imprimir uma assinatura pessoal em sua obra.

“A Espiã”, seu mais recentemente filme, retoma o clássico thriller de guerra, cheio de suspense, ação, drama e romance. O resultado final é bem interessante, acima da média das releituras recentes que o cinema faz desse gênero tão comum nos anos 40 e 50. Verhoeven e seu parceiro de roteiro Gerard Soeteman trabalharam por vinte anos na realização desse longa, partindo da idéia inicial da trama e pesquisando centenas de documentos históricos.

A história acompanha uma jovem judia holandesa, que durante a ocupação de seu país pelas tropas nazistas, passa por inúmeras dificuldades para evitar ser capturada e enviada para os campos de concentração. Em uma tentativa de fuga, sua família é assassinada pela SS, mas a moça consegue escapar e acaba se envolvendo com membros da resistência. A situação fica ainda mais perigosa quando ela aceita a missão de seduzir um oficial alemão para obter informações.

Ao longo de duas horas de vinte e cinco minutos, Verhoeven mantém o ritmo do filme com total domínio dos elementos da ação, criando cenas de impacto e momentos de suspense e tensão que envolvem o espectador. Os personagens são baseados em arquétipos já consagrados pelo cinema quando o tema é a Segunda Guerra Mundial. Temos os corajosos membros da resistência, os cruéis oficiais nazistas, mulheres aparentemente inocentes que mostram determinação destemida ao arriscarem suas vidas por uma causa, além dos tradicionais traidores. Todos envolvidos em uma trama que não economiza nas reviravoltas.

Um dos trunfos do filme é exatamente na abordagem da questão da traição e do heroísmo. Muitos personagens, que aparentemente seriam heróis, mostram-se traidores, seduzidos por interesses próprios de ganância e lucro. “A Espiã” mostra como em meio ao caos que é uma guerra de proporções mundiais, a tentação de se beneficiar e enriquecer muitas vezes tem apelo muito mais forte do que as ideologias e as causas nobres. Verhoeven explicita as possibilidades passionais e humanas dos personagens em meio às situações limites que vivenciam.

Uma guerra não é apenas suja em seus combates e extermínios, mas também em seus bastidores, nas razões pessoais que levam homens e mulheres a perderem as referências éticas. A crueldade e a indiferença pelo próximo contaminam tudo e todos e não deixam de marcar presença no mundo nem mesmo com a chegada da paz. Para Verhoeven, o verdadeiro heroísmo é raro e só se manifesta nos anônimos e esquecidos pela História.

Embora “A Espiã” seja, sem dúvida, um bom filme, existe um problema muito sério no longa. A música incidental, chata, exagerada e onipresente chega a irritar. É uma pena ver como esse recurso pobre, que visa comandar e manipular as emoções do público é tão freqüentemente usado no cinema e, muitas vezes, por autores de talento como o cineasta holandês.

Música à parte, a habilidade de Paul Verhoeven fica clara na forma vigorosa como filma, no fôlego com que conduz os eventos que aparecem na tela. As seqüências são muito bem compostas, ajudadas por uma fotografia precisa e que confere grande beleza estética ao filme. O diretor pode não primar pela sensibilidade, mas compensa isso com o apelo espetacular de suas imagens.

Uma das características sempre presentes nos filmes de Verhoeven é a capacidade do diretor em explorar muito bem as situações-limite e as tensões das cenas que compõe. Em “A Espiã”, essa qualidade fica explícita na cena em que a jovem judia, já infiltrada em meio aos nazistas, canta em uma festa acompanhada ao piano pelo oficial que assassinou sua família.

O elenco do filme funciona em seu todo. Carice Van Houten (que interpreta a personagem principal), Thom Hoffman, Waldemar Kobus e Sebastian Koch (que pode ser visto no recém lançado “A Vida dos Outros”) estão muito bem em seus papéis, o que garante um maior envolvimento e identificação do público com a trama. Tanto a jovem que aceita se anular e “prostituir” pela causa, quanto o oficial alemão, que ao ser seduzido demonstra seu lado humano, são bons exemplos de personagens bem trabalhados, que são explorados de forma mais densa, indo além das limitadas possibilidades de meras caricaturas.

“A Espiã” é mais uma prova de como um cineasta talentoso pode trabalhar com gêneros muitas vezes tidos como saturados e criar um resultado final interessante e que agrada não só aqueles que buscam diversão descompromissada, mas também os que exigem algo mais de um filme.
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