MEU NOME NÃO É JOHNNY:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Mauro Lima
Elenco: Selton Mello, Cléo Pires, Júlia Lemmertz, Cássia Kiss, André de Biase, Rafaela Mandelli, Eva Todor, Luis Miranda
Duração: 107 min.
Estréia: 04/01/2008
Ano: 2008


“Meu nome não é Johnny”: Meu nome é Selton Mello


Autor: Cesar Zamberlan

“Meu nome não é Johnny” leva para as telas a biografia do traficante João Guilherme Estrela que ficou famoso no Rio de Janeiro por ser um jovem de classe média alta que se envolveu com o tráfico. Predecessor de uma série de outros jovens burgueses que se meteram na mesma atividade – se bem que hoje esses jovens preferem vender ecstasy e similares em raves -, a vida de Estrela virou livro, filme e é encarada por muitos como um exemplo de redenção e regeneração.

Se a história é boa e tem ingredientes que poderiam resultar num filme de fácil apelo para o grande público, a forma como a receita é preparada, o deslocamento dessa realidade para o mundo ficcional, talvez não atinja um sucesso maior por apostar todas suas fichas na interpretação sempre muito bem humorada de Selton Mello. Selton é o filme e há pouca coisa a ser observada além dele, além do olhar dele, além das piadas e trejeitos dele. Ele está em mais de 90% das cenas do filme e o seu acerto ao compor o personagem é o que o filme tem de mais significativa do ponto de vista narrativo.

Esse foco no carisma e humor do ator se dá, no entanto, de forma diferente da construção do personagem de Selton em “O Cheiro do Ralo”. No filme de Heitor Dhalia, Selton roubou o filme para si, esvaziou uma série de outras questões que poderiam soar interessantes no filme, seja do ponto de vista técnico, seja na construção da narrativa. Já em “Meu nome não é Johnny”, o roubar a cena não ofusca outros elementos do filme, porque não há nenhum indicio da presença destes outros elementos. Tudo em torno de Selton Mello é opaco, nenhum outro personagem ou elemento fílmico tem força, e até a belíssima Cléo Pires está incrivelmente apagada e mal fotografada.

(Abrindo um parêntese que pouco tem a ver com o filme, vi dias desses um obscuro filme brasileiro no Canal Brasil, O Resgate do diretor Valdi Ercolani, filme de 1975 também conhecido como Nem os bruxos escapam e uma das coisas notáveis no filme, que por sinal é bastante irregular, é a maneira como a câmera de Dib Lufti namora Cristina Aché).

Em “Meu nome não é Johnny” a relação da câmera com os atores e com o que ela narra parece buscar sempre um distanciamento, mas longe de conseguir algum efeito nisso, ela só provoca um ruído, tornando clara sua presença entre espectadores e filme. Isso também porque a fotografia não ajuda e não há uma fluência narrativa na montagem, tudo mais uma vez gira em torno de Selton Mello.

Outra questão mal resolvida é roteiro com alguns pontos bem soltos, caso do japonês no presídio, o pensamento da juíza ao deliberar a sentença, entre outras situações mal exploradas e extremamente suavizadas. O personagem, por exemplo, cheira 100 gramas por semana e o filme não cita uma possível crise de abstinência, a relação com os presos também não é construída, os loucos no manicômio por sua vez são caricatos, distantes infinitamente dos loucos de Bicho de Sete Cabeças. O fato de o filme ser baseado num episódio real não contorna estas situações, pois o fato, comprovadamente verdadeiro, quando reproduzido num outro meio e reconstruído numa outra lógica narrativa precisa ao menos ser verossímil.

Pior que isso, é a intenção de tornar o filme mais light, mais aceitável e palatável, suavizando a descida ao inferno. A opção por um realismo maquiado desequilibra o filme que elege a falsa glória como momento marcante da trajetória do personagem quando, na verdade, o que o torna a figura que é, seria justamente a sua volta por cima. Isso, sim, tornaria o filme edificante. Coisa que ele assume querer ser, por mais careta que isso possa parecer.

A citação de um trecho de Marguerite Yourcenar que aparece duas vezes no filme: “o verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos” comprova isso. Mas, parece que o filme não compreendeu a citação e uma das poucas seqüências com vida no filme, seqüência que lança um olhar mais inteligente sobre o personagem, é justamente a final, o passeio de Estrela e os amigos pela praia e o olhar de Estrela para o mar. O filme acaba quando começa, uma pena.

P.S.: João Guilherme Estrela, que hoje é produtor musical, aparece no filme. Ele faz uma figuração como enfermeiro do manicômio. A informação está nos créditos finais do filme.
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