DE TANTO BATER MEU CORAÇÃO PAROU:


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Original: De Battre Mon Coeur S´Est Arrété
País: França
Direção: Jacques Audiard
Elenco: Roman Duris, Niels Arestrup e Jonathan Zaccai
Duração: 107
Estréia: 09/09/2005
Ano: 2005


"De tanto bater meu coração parou": a França cindida entre a arte e a barbárie


Autor: Cesar Zamberlan

Poucos filmes se definem tão bem pelo título como este “De tanto bater meu coração parou”, filme de Jacques Audiard, exibido no último Festival de Berlim.

Os opostos aqui representados pelos batimentos do coração, ora acelerados, ora zerado servirão como metáfora para um personagem, um país e uma civilização e também indicarão o andamento do filme, no seu coração, a montagem e na sua trilha musical.

O andamento inicial do filme acompanha a música eletrônica ouvida por Tom Seyr, Roman Durys, o mesmo ator de “Exílios”. A câmera é rápida e tremula, pontuada por cortes tão violentos como a ação desfechada por Tom e seus sócios que soltam ratos num condomínio para acelerar a saída de moradores - quase sempre imigrantes, chineses, africanos e árabes - de prédios e conjuntos habitacionais, disputados por imobiliárias na mais cruel e desumana disputa imobiliária.

Franzino, Tom está metido até o último fio de cabelo com este mundo. A Paris de Tom é a Paris de seu pai, também envolvido com a especulação imobiliária. Uma cidade caótica e cruel, onde imigrantes buscam espaço para viver e na qual a lei se dá mais na queda de braços entre criminosos, sejam eles franceses como Tom, ou ligados à máfia russa, do que pela vigência ou existência de contratos.

Este é o mundo do pai de Tom que vive pedindo ao filho que resolva, na base da força, aquilo que ele, velho, já não consegue fazer, ou seja, espancar e aterrorizar os inquilinos que não pagam aluguel ou ameaçar aqueles que não honram a palavra. Tom, apesar da aparente fragilidade, o faz ou tenta.

O corpo de Tom, assim como Paris, pulsam num ritmo frenético, selvagem, no limite entre o humano e a barbárie. O contraponto a esse andamento acelerado do personagem e do filme virá via mãe, pianista e já falecida; via música clássica; via passado.

Temos então a cidade do pai: violenta, sem justiça, ligada à especulação imobiliária, ao mundo moderno e à barbárie e a cidade da mãe, já morta, mas pianista de sucesso. A Paris antiga e a atual, cindidas entre a arte e a barbárie.

A questão da justiça ou da falta da, relacionada ao pai, até então totalmente presentes darão espaço, portanto, à Paris antiga, a arte, às origens, ao humano, esferas relacionada à mãe, falecida.

No filme, essa ressurreição da mãe e do que ela representa, se dá quando Tom encontra, casualmente, com o ex-empresário desta que pergunta a Tom se ele ainda toca. Tom mente e diz que sim. O empresário o convida então para uma audição, pois acredita que Tom possa ter herdado da mãe o seu talento. Tom, aceita e vê na audição a possibilidade do reencontro com a mãe e consigo mesmo, possibilidade de redenção.

O andamento do filme agora é predominantemente outro, a música eletrônica que preenchia as cenas, dá lugar à música clássica e Tom busca o auxílio de uma professora para se preparar para a audição. A professora é uma chinesa que não fala francês e com a qual Tom se entenderá e desentenderá via música.

Esse novo Tom do filme, personagem e trama, que dividirá espaço com o anterior é uma metáfora da Europa hoje, o dilema de uma civilização dividida entre a história, arte e cultura e a violência do mundo moderno, globalizado e desumanizado.

“De tanto bater meu coração parou” trabalha até o fim - a última seqüência do filme é extremamente bela e simbólica - com esse dilema, com esses limites, com essa complicada coexistência. Recomendo.

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