EM PARIS :


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Original: Dans Paris
País: França
Direção: Christophe Honoré
Elenco: Romain Duris, Louis Garrel, Joana Preiss, Guy Marchand, Alice Butaud
Duração: 92 min.
Estréia: 28/12/07
Ano: 2006


"Em Paris": dentro de uma nova e interessante tendência francesa


Autor: Cid Nader

Filmes também são feitos para serem descobertos. Filmes, por vezes, são descobertos como surpresa agradável surgida do nada. Alguns, extrapolam a expectativa ou matemática que indica possibilidade percentual de surpresas e se revelam obra quase superiores: uns por capacidade técnica baseada em muito estudo e conhecimento teórico da arte e de seus grande artistas; alguns outros, por aliarem às novas possibilidades de execução técnica um frescor que não esconde ser fruto até de algum academicismo, os desloca da apreciação mais "embasada", remetendo-os ao gosto mais doce, mais terno, mais fácil (no melhor dos sentidos).

O diretor de "Em Paris", Christophe Honoré, demonstra muito conhecimento do assunto, inclusive num nível mais "acadêmico", já que realizou esse trabalho com evidentes ligações formalistas a filmes franceses oriundos de um novo cinema ligado ao mundo da crítica e da análise. Um dos temas discutidos dentro de "Em Paris" remete à solidão, ao abandono por alguém amado, à não aceitação e às possibilidades mais agressivas que podem resultar de um rompimento que não está totalmente estragado - agressividade que pode ser dirigida contra o próprio "agressor", com tentativas de suicídio e estado de depressão se mostrando na esquina. A maneira com que o diretor trata desse segmento de seu filme é grave e consciente, mas não abdica de um humor leve que se caracteriza por um "evidenciamento" de atitudes técnicas na busca desse modelo mais "solto" - algo que está bastante presente em momentos do grande e duro "Amantes Constantes", de Philipe Garrel. O filme não deixa de captar imagens de modo límpido - muito ao contrário, vai à busca de possibilidades que possibilitam e emprestam agilidade a seqüências que poderiam ser somente cruas -; algo parecido ocorria no outro filme, como em seus momentos de dança ou nas conversas "drogadas" na casa do jovem mecenas da turma. Uma característica em comum que não é fruto, absolutamente, de fugacidade e ligeireza boba, mas de trabalho em prol da melhor fluidez cinematográfica.

O filme é muito bonito e sensível quando trata seus personagens. As reações do pai ante a entrega do filho ao sofrimento caracterizam um personagem que vagueia entre a brutalidade oriunda da falta de educação, que sempre foi considerado chato e teimoso, e a beleza que só pode advir de quem se preocupa de verdade com alguém - coisas de pais, afinal -; que não sabe como agir, exagera, incomoda-se e tenta não entender que um período de isolamento talvez seja um passo na direção da solução. A figura desse pai vai ganhando corpo com o passar do tempo e torna-se impossível imaginar as outras figuras do filme sem ele por perto. Já o irmão do abandonado, Jonathan - Louis Garrel, coincidentemente (?) filho do diretor de "Amantes Constantes" e mais novo queridinho francês - empresta uma leveza ao seu personagem que pode fazer parecer que ele age por atitudes despretensiosas, inconseqüentes, molecas: mas como não, afinal, já que é um garoto ainda em plena busca dos prazeres que são mais facilmente obtidos por pessoas de sua faixa etária, mas que revela-se também alguém muito capaz e ligado ao sofrimento do irmão (o andamento do filme, as revelações que são lançadas mais próximo do final, fazem com que a platéia perceba a "grandeza" de mais esse personagem). E o próprio motivador da história, Paul (Romanin Duris), abandonado e inconformado revela-se, modifica-se, mortifica-se e emociona em sua angústia; despreza o pai e evita a ajuda do irmão, mas avança e tenta se "enquadrar", revelando-se figura interessante e bastante bem desenhada.

Mas, se é filme de figuras bem concretizadas e empáticas, é filme também que vai longe na ousadia estética, quando possibilita uma interferência da realidade e propõe Jonathan falando diretamente com o espectador, explicando cinema, e com rápidas outras interferências, mesmo após a promessa de que iria somente atuar em seu papel, por exemplo. Ou quando corta cenas em alternância de velocidades, de iluminação ou de procedimentos outros, possibilitando andamentos mais interessantes que dão vivacidade ao filme, também, por exemplo. As cenas de paixão por Paris são mais belas que o comum, pois revelam outras facetas da cidade, aproximando-a muito mais da gente e isso é fruto de intenção bem concretizada. A seqüência do rio Sena à noite e de Paul é forte e ao mesmo tem leve. As mulheres que vão caindo na rede do galanteador irmão mais novo são belas e tem especificidade. Afora o grande momento em que uma comunicação é estabelecida via música, via canção, indicando definitivamente que o filme é grande em suas intenções estético/técnicas (aliás, um modismo - o da música que interfere, como que quase a caracterizar musicais - que aparece forte e inédito entre alguns jovens autores do país). O resultado é um grande e agradável filme, que está dentro das possibilidades matemáticas, mas que corria como azarão.

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