SANTOS E DEMÔNIOS:


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Original: A Guide to Recognizing Your Saints
País: EUA
Direção: Dito Montiel
Elenco: Robert Downey, Shia LaBeouf, Chazz Palminteri, Dianne Wiest, Channing Tatum, Rosario Dawson
Duração: 98 min.
Estréia: 21/12/07
Ano: 2006


Filme repassa temas clássicos com vigor


Autor: Fernando Oriente

A forma com que um diretor desenvolve e lida com seus personagens e as situações que eles vivem pode ser um das principais qualidades de um filme. O estreante em longas Dito Montiel consegue em “Santos e Demônios” esse feito, que pode ser considerado como a principal qualidade do filme. O que vemos na tela é a história autobiográfica de Montiel, narrada em dois tempos distintos. Quando ele já é um adulto, em 2005 (interpretado por Robert Downey Jr) e volta para sua cidade natal devido à doença do pai e quando o personagem é adolescente, em 1986, e vive um momento decisivo em sua vida que determina tudo o que virá a ser na fase adulta.

Os temas abordados no longa são universais e já foram tratados pelo cinema de diversas formas em inúmeros filmes dos mais diversos gêneros. Vemos situações clássicas na vida de seres humanos como a luta contra um ambiente hostil, o sonho de romper com uma realidade nada promissora e ir atrás dos sonhos, a superação dos laços familiares para se construir uma personalidade própria e quanto o peso do passado pode ser carregado ao longo de uma existência.

Embora “Santos e Demônios” chegue a escorregar em alguns momentos, como no uso de clichês sentimentalistas em certos diálogos, o filme tem mais qualidades do que defeitos. O vigor na condução do longa, mérito do cineasta estreante, e a autenticidade de todos os personagens e da maioria das situações predominam ao longo de toda a projeção. A atuação do elenco também chama bastante a atenção, desde de veteranos premiados como Dianne Wiest, Chazz Palminteri, e o próprio Downey Jr, até os jovens intérpretes que encarnam os personagens adolescentes.

“Santos e Demônios” é baseado em livro do próprio Dito Montiel, em que ele narra fatos marcantes da época quando vivia em um bairro de classe média baixa no Queens, em Nova York. Nesse ambiente hostil, onde as pessoas não tinham quase nenhuma possibilidade de realizarem seus sonhos ou de concretizarem suas esperanças, os jovens viviam em famílias desestruturadas, com pais resignados com o fracasso de suas vidas. A violência e a intolerância em relação aos outros eram as únicas possibilidades de extravasar os sentimentos de raiva e inconformismo que carregavam dentro deles e de se auto-afirmarem como indivíduos.

O cotidiano de Montiel e seus amigos adolescentes é muito bem transportado para tela através de uma direção segura, uma fotografia competente e discreta de Eric Gautier e uma edição vigorosa que garante bom ritmo à narrativa. A relação entre os personagens e a forma que interagem com um cenário sufocante de resignação e falta de perspectivas é muito bem composta. As pessoas que vemos em cena têm grande dificuldade em se expressar, em se fazer compreender; não existe entendimento entre eles. O filme tem autenticidade suficiente para transmitir a sensação de angústia e a falta de opções que levam os jovens a se conformarem de que o máximo que conseguirão em vida é se tornarem frustrados e infelizes como seus pais.

Essa relação entre os adolescentes e o mundo adulto que os aguarda é muito bem representada através da relação que o pai de Montiel, interpretado por Palminteri, tem com um dos melhores amigos do filho, Antonio. A frustração e a melancolia do pai de família encontra refúgio na forma em que ele se vê representado no jovem, ainda novo, cheio de vida, exalando inconformismo e vigor físico. Tudo que um dia ele foi e que o peso dos anos e da realidade dura e medíocre de sua existência arrancaram dele estão presentes na postura agressiva e contestadora de Antonio.

O Montiel de 2005, vivido por Downey Jr, já adulto, após ter rompido com o círculo vicioso do ambiente onde foi criado e se firmado como escritor e artista, vive a milhares de quilômetros do cenário sufocante onde cresceu. Faz questão de manter essa distância, tem medo de enfrentar situações e pessoas que marcaram sua formação como indivíduo e que teve de abandonar para buscar suas possibilidades de realização.

A doença do pai faz com que seja obrigado a voltar e a lidar com pessoas e lugares que ele aparentemente não tem estrutura de encarar de forma objetiva. O que vê em seu regresso é exatamente a confirmação da realidade que ele tanto temia e da qual fugiu. A tensão desse retorno e desse choque do personagem com seus temores, sentimento que produz sensações de culpa e impotência, é mais um ponto forte do longa.

Abandonar a realidade opressora é um caminho necessário para a realização do homem, mas o peso do passado, o vínculo que ele carrega em relação às pessoas e aos lugares que deixou para trás acabam voltando e perseguindo sua existência. São esses os “Santos e Demônios” que todos temos que enfrentar e encarar.

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