A DESCONHECIDA:


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Original: La Sconosciuta
País: Itália/França
Direção: Giuseppe Tornatore
Elenco: Kseniya Rappoport, Michele Plácido e Claudia Gerini.
Duração: 118 min.
Estréia: 21/12/07
Ano: 2006


"A Desconhecida" : o engajamento social de Tornatore elevado à décima potência


Autor: Anahí Borges

Havia uma grande ansiedade para saber o que Giuseppe Tornatore ofereceria aos seus admiradores depois de seis anos sem realizar filme algum. Tornatore, o cineasta de “Cinema Paradiso”, “O Homem das Estrelas”, “A Lenda do Pianista do Mar” e “Malena”, todos filmes que conquistaram espectadores no mundo inteiro pela sensibilidade dos temas abordados, pela referência ao cinema, ao sonho e à arte que possuem, pelas histórias de amor e desejo romântico que suas personagens vivenciam, pelo engajamento social de Tornatore que faz de suas obras um retrato sócio-político da Itália, e mais diretamente da Sicília, no registro do melodrama social, e, como ponto forte da razão das emoções que seus filmes despertam no público: a trilha sonora de Ennio Morricone. Partindo de todo esse peso referencial é que os espectadores deverão ver “A Desconhecida”, filme que levou este ano 5 prêmios “David de Donatello” para melhor filme e diretor, direção de fotografia, trilha sonora, além do merecido de atriz protagonista para Ksenia Rappoport, que está surpreendente no papel de Irena.

A primeira cena do filme é um desfile de mulheres nuas e semi-nuas sendo escolhidas pelo cafetão mafioso. A trilha de Ennio Morricone, como é de praxe, já marca presença desde o início, mas desta vez nada de lirismo e romantismo, o tom é pesado, grave, de suspense. Tornatore diz a que é que veio depois de seis anos – prostituição, sadomasoquismo, venda de crianças, máfia, imigração, dor, desespero, relações de gênero e poder – todos elementos conjugados em “A Desconhecida”, um filme de suspense com muito sangue e assassinato. Um thriller que espectador algum esperava ver na tela dirigido por Tornatore. Fato este que inclusive levou alguns idosos a abandonarem a sessão, desconfortados com o sangue, porrada, tesourada, violência...

Irena é uma ucraniana que ao chegar à Itália se envolve com prostituição. Seu cafetão é um mostro, troglodita, mafioso que a obriga a participar de relações sadomasoquistas, a engravidar de seus clientes para que ele vendesse os bebês e, após entregar-lhe o dinheiro necessário, ser assassinada por ele – prática que como costuma ter com as outras prostitutas. Nesta trajetória de violência, miséria e escravidão Irena se apaixona por um feirante que é morto pelo cafetão. Até que a personagem consegue fugir do prostíbulo e tenta resgatar o último dos nove filhos que teve de clientes e para isso se aproxima da família que adotou a criança que acredita ser sua, trabalhando como doméstica em seu apartamento. Mas para o tormento de Irena, a máfia a persegue, espancando-a, ameaçando-a e causando tragédias à família de sua patroa. Tornatore nos apresenta os fatos em encadeamento não cronológico, com inserções de flashbacks e surpresas que geram o fator suspense. As imagens relativas à prostituição optam por cores fortes – vermelho, amarelo, laranja – e elementos visuais de impacto como máscaras, sangue, metal brilhante. Já as cenas em que Irena está à procura da filha e se envolve com a família Adacher possuem fotografia escura e tons frios de azul, cinza, marrom e preto, dialogando com a sensação de tristeza e dor da personagem.

“A Desconhecida” intercala boas e más cenas, eventos puramente cruéis e dramaticamente fortes com outros de extremo mau gosto. O melodrama entre Irena e o feirante tem um visual alaranjado de comercial de margarina e a caracterização do mafioso perde força no decorrer da narrativa devido ao forte estigma que possui. No todo, o filme exibe a receita de um suspense seguida passo a passo – nada mais, nada a menos, incluindo o uso exagerado e repetitivo da trilha sonora. Mas, sem dúvida, a composição das imagens no tom das cores e objetos de cena e a complexidade emocional que Ksenia Rappoport atribui à personagem de Irena deixam marcadas diversas cenas na mente do espectador, o que significa que algo do filme permanece em quem o assiste. E esse algo que permanece, diferentemente dos filmes anteriores de Tornatore, não é o romantismo-melancólico, mas a tragédia humana: a crueldade, a desgraça, a dor. Neste ponto, “A Desconhecida” representa o engajamento social de Tornatore elevado à décima potência, um retrato cruel, sensacionalista e moralizador sobre o submundo italiano, as desgraças que atingem diversas imigrantes que chegam ao país e se envolvem com a máfia da prostituição.

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