O ENGENHO DE ZÉ LINS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Vladimir Carvalho
Elenco: Documentário
Duração: 80 min.
Estréia: 14/12/07
Ano: 2006


A figura em toda a sua humanidade


Autor: Cid Nader

Um dos grandes craques entre os documentaristas brasileiros sem dúvida sempre foi Vladimir Carvalho. Mais ligado a temáticas sociais ou assuntos políticos, divide uma espécie de patamar de excelência com o mestre Eduardo Coutinho e com João Moreira Salles - fácil compreender essa atitude, essa opção de trabalho, quando se sabe ser ele um professor da UNB, berço de batalhadores sociais. Mas antes de mais nada trata-se de um artista o diretor, e não deveria surpreender essa espécie de guinada que ele deu quando, fugindo um pouco do seu meio ambiente, resolveu retratar a figura do escritor José Lins do Rego, autor entre outros do quase mitológico Menino de Engenho.

A capacidade de um diretor diferenciado, especial, já se revelou quando de sua percepção de que, na realidade, no livro, o autor pareceu mais retratar momentos e pontos de sua vida; fato do qual acabou por se aproveitar bastante no momento da confecção de seu documentário. Esse perceber traços do ser humano dentro da obra ficcional, só fez com que Vladimir se impusesse autoridade suficiente para arrojar, e não somente venerar. Quando a figura do escritor vai sendo esmiuçada ante nossos olhares, percebe-se que não se tratava de figura fácil, dócil, de alma somente "artística", dentro do que costuma concebê-la o imaginário comum. José Lins tinha personalidade forte, figura forte, comportamento e reações fortes. Esses tipos ambíguos – principalmente se fizerem parte de um reconhecimento ampliado junto ao público - perfazem figuras ideais a serem retratadas por autores atentos; facilitam o ir e vir das informações; enriquecem as possíveis mesmices que emanam de santos ou demônios. Vladimir foi capaz – como não – e utilizou-se muito bem do "material" autenticamente humano que tinha nas mãos.

O grande trabalho do diretor já começa a se configurar nesse modo fluido com ou qual consegue descortinar a figura de uma pessoa que não tem muito trânsito entre nossas informações mais cotidianas – apesar de fazer parte inequívoca da pouca informação popular/literária nacional - , revelando-o um flamenguista doente quando optou por morar na cidade do Rio de Janeiro, que agia como dirigente apaixonado, e reagia também como torcedor apaixonado. Esse lado da história contado por Vladimir se faz mais interessante quando retrata a figura que vinha sendo revelada como se fosse um ser do século XIX, em seu ambiente natural que é o nordeste dos coronéis, resgatando-o dos fundões, e trazendo-o muito junto da contemporaneidade – em se pensando num Brasil idealizado, o que mais do que o futebol e Rio de Janeiro têm "cara" de coisa contemporânea e urbana. Surge para fortalecer o trabalho esse contraponto de tempos e lugares; contrapontos entre um passado marcado por uma tragédia das mais consideráveis e um "presente" de felicidade. O que se percebe, na realidade, é Carvalho construindo e revelando a imagem de alguém dentro dos padrões, dos procedimentos, mais comuns; mas se percebe, também, que nem sempre os que tentam conseguem (apesar de parecer comum, afinal) – daí o diferencial entre o comum e os "bons". Percebe-se que as grandes obras quase sempre advém da simplicidade, e que nem sempre tal simplicidade é de fácil manipulação, ou execução.

Bem filmado, é recheado de detalhes e de sutilezas captadas pelas lentes. Bem montado, segue a estrutura pilar necessária a um documentário, quando desfila alternadamente depoimentos e imagens de arquivo – frutos óbvios de grande trabalho de busca e pesquisa. E com todo um final, dramático e dramatizado, que explora os últimos momentos do escritor quase como se estivéssemos diante de uma história de ficção escrita por ele. Note-se que essa dramatização, ficcionalização, da realidade documental, vem ganhando terreno como maneira de aproximar públicos mais dispersos; e Vladimir Carvalho soube utilizar-se desse "estratagema" da melhor maneira possível. Um dos grandes filmes do ano.
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