IMPÉRIO DOS SONHOS:


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Original: Inland Empire
País: EUA/França/Polônia
Direção: David Lynch
Elenco: Karolina Gruszka, Jan Hencz, Krzysztof Majchrzak, Grace Zabriskie, Laura Dern, Ian Abercrombie, Karen Baird, Bellina Logan, Amanda Foreman, Peter J. Lucas, Jeremy Irons.
Duração: 172 min.
Estréia: 14/12/07
Ano: 2006


"Império dos sonhos": Hollywood e as fissuras humanas.


Autor: Rogério Ferraraz

"O cinema é cósmico, atuar é cósmico, porque é uma espécie de símbolo de uma verdade, que está acontecendo, independente se percebemos ou não. Então, quando você atua, você diz adeus à sua personalidade. Qualquer coisa que você saiba sobre si próprio, você diz adeus àquilo e pega uma outra personalidade e isso é cósmico. E o quão bom você vai atuar, depende do quão profundo você sente, de quanta realidade você consegue obter na profundeza. Em outras palavras, se você atuar a partir da profundidade, quando aquilo emerge, vai significar alguma coisa. Mas aquilo vai empreender uma nova persona e esse processo é um negócio complicado.” Assim Lynch nos respondeu, numa entrevista realizada em 2002, quando questionado sobre um diálogo entre Betty (Naomi Watts) e Rita (Laura Elena Harring), em Cidade dos sonhos (Mulholland Dr., 2001). A fala de Lynch, porém, poderia servir muito bem como epígrafe para sua mais nova obra-prima, o filme Império dos sonhos (Inland Empire, 2006, 197min.), sem dúvida um dos destaques entre as estréias de 2007.

Todo feito em câmera digital (a Sony PD-150), o filme foi apresentado pela primeira vez no Festival de Veneza do ano passado, quando foi eleito como a melhor obra do Future Film Festival Digital. Ainda em Veneza, Lynch recebeu também um prêmio especial pelo conjunto da obra. Além disso, Império dos sonhos foi escolhido como o Melhor Filme Experimental pela National Society of Film Critics, em 2007. Resumir o enredo do filme é tarefa árdua. No site 31a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (http://www2.uol.com.br/mostra/31/), ele foi assim descrito: “A atriz de Hollywood, Nikki Grace [Laura Dern], recebe uma oferta para interpretar a infeliz Sue Blue [Laura Dern], protagonista do novo filme do diretor Kingsley Stewart [Jeremy Irons]. Nikki não se detém mesmo quando descobre que está no remake de um filme polonês chamado 47, que nunca foi finalizado porque os atores principais se apaixonaram e acabaram assassinados com uma chave de fenda oxidada. Quando se permite ser seduzida por Devon Berk [Justin Theroux], seu parceiro na trama, o mundo transparente de Nikki se transforma. Os amantes chamam um ao outro pelos seus nomes da ficção e as fronteiras entre várias realidades diferentes se misturam.” Uma boa descrição, sem dúvida, mas que não esgota todos os meandros, as fissuras, os fragmentos do enredo e do (não)roteiro do filme, além de não dar conta do número enorme de personagens que gira em torno da(s) protagonista(s).

Como não citar, por exemplo, o seriado televisivo que é visto por uma personagem do filme, que acaba refletindo e intensificando a atmosfera estranha (pensamos, aqui, no conceito do estranho familiar freudiano) e surrealista da obra? Os homens-coelho do seriado juntam-se à galeria dos homens-planta lynchianos, assim denominados e analisados pelo crítico e teórico francês Michel Chion: o ser humano e sua imobilidade diante da vida cotidiana, geradora de uma angústia sufocante e perturbadora. Lynch aproveita, aqui, de seu seriado Rabbits, feito desde 2002 diretamente para seu site, www.davidlynch.com, que mostra o dia-a-dia depressivo, mas ao mesmo tempo cômico, de uma família de homens-coelho. O surrealismo é que dá o tom, fazendo lembrar de outras obras de Lynch, como, por exemplo, seu primeiro longa, Eraserhead (1977).

Império dos sonhos, porém, parece concluir uma espécie de trilogia, composta por A estrada perdida (Lost Highway, 1997) e Cidade dos sonhos. Alguns temas são fundamentais nas três obras: a fratura e a duplicação do indivíduo; a presença real e fantasmagórica do duplo; a memória, como uma espécie de região pantanosa ou movediça, forjada e atravessada pelas lembranças imaginadas e/ou midiatizadas; os limites da representação e da atuação e o embaralhamento total, até a dissolução, das fronteiras entre o real e a ficção, ou entre o real e a ilusão de real; etc.

Não é à toa que Lynch constrói esses três filmes em torno de Hollywood, cidade símbolo do poder de construção e destruição da imagem. Cenas-chave desses longas ocorrem em locais muito próximos uns dos outros: a casa onde moram as personagens Fred Madison (Bill Pullman) e sua esposa Reneé (Patrícia Arquete), na qual ocorre um suposto assassinato, em A estrada perdida, fica em uma rua de Hollywood Hills, um pouco abaixo da Mulholland Drive, onde ocorre a tentativa de assassinato e o acidente de carro no início de Cidade dos sonhos, e um pouco acima do cruzamento da Hollywood Blvd. com a Vine St., onde ocorre a suposta resolução da(s) trama(s) envolvendo a(s) personagem(ns) de Laura Dern, em Império dos sonhos.

Aliás, vale observar que a casa vista em A estrada perdida é do próprio Lynch, que possui outros dois imóveis na mesma rua, onde ele mora há anos. Além disso, se, em Cidade dos sonhos, víamos os letreiros de Hollywood filtrados pela imaginação da sonhadora Betty, em Império dos sonhos, eles são mostrados com uma câmera nervosa, causadora de um estranhamento potencializado pelos efeitos sonoros inquietantes. Além disso, aqui, Lynch faz questão de mostrar o caminhar desesperado de Nikki/Sue pela famosa calçada da fama, na Hollywood Blvd, fechando, num dos símbolos máximos daquela cidade e daquela indústria, um ciclo de angústia, horror e tragédia.
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