3 EFES:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Gerbase
Elenco: Anibal Damasceno Ferreira, Cristina Kessler, Carla Cassapo, Ana Maria Mainieri, Leonardo Machado, Felipe de Paula, Paulo, Rodrigues, Marcos Rangel, Artur Pinto
Duração: 100 min.
Estréia: 07/12/07
Ano: 2007


Sejamos inteligentes, falemos de representação!


Autor: Fernando Watanabe

Neste novo filme, Carlos Gerbase mantém vários de seus temas anteriores, trabalhados principalmente em uma badalada carreira de curtas-metragens na década de 80/90 do século passado. Sua atenção principal sempre esteve voltada para as relações sexuais entre os indivíduos (é importante não confundir com a questão “sexo” em si) e a hipocrisia, a censura, e demais conseqüências sociais que tal necessidade humana acarreta em uma sociedade civilizada. Para Gerbase, o prazer proporcionado pelo sexo sempre foi visto como sendo o “bem” em oposição à hipocrisia da representação imposta pelos códigos sociais (o casamento, a família, os valores morais) que, por sua vez, representa o “mal”. Tal contradição vem sendo “denunciada” de forma sistemática pelo cineasta.

Não é necessário voltar aos filmes anteriores do diretor, mas, tal introdução se faz necessária a fim de que melhor se possa compreender a proposta deste seu novo filme, que, em linhas gerais, pode ser definida assim: “O ser humano necessita de 3 “Fs” (efes), a Fome, a Foda e o Fasmo(o simulacro).” Esta é a teoria que, se porventura o espectador não leu na sinopse do filme, uma introdução montada como videoclipe didático e pedagógico – ainda devedora da matriz “furtadiana” de Ilha das Flores - fará questão de afixar logo de cara.

Pulemos agora para o final do filme, cuja última frase é a seguinte: “(...) Quando experimentam os 3 “efes” simultaneamente os seres humanos podem desfrutar de raro momento de alegria verdadeira”. Com a devida ressalva de que a frase não é exatamente essa (falta de papel e caneta e problemas de memória deste crítico frente à avalanche de informações verborrágicas que o filme jorra do início ao fim). Mas, o que há para ver, enfim, entre a introdução informacional e tal desfecho conclusivo da tese?

É justamente o ato de “ver” que aparece como gravemente problemático (longe de ser problematizado) no filme. Não vem ao caso explicar as condições nas quais o filme foi realizado; em entrevistas e resenhas, os divulgadores do trabalho já o fazem suficientemente bem. Importa que, na tela, a imagem aparece tratada com um desleixo altamente prejudicial aos objetivos do filme. E não se está falando da baixa qualidade de resolução do digital empregado, que, por pior que seja, não deixa de fazer um contraste interessante com quase todos os trabalhos anteriores do diretor, em sua maioria filmados em película e muitas vezes em tom solene. Aqui, também pelo fato do emprego do digital precário, o tom é mais ameno, leve. No entanto, o desleixo em questão independe do suporte, ele está nos enquadramentos, que chegam a prejudicar a (potencial) dramaturgia e os (potenciais) personagens, tamanha a falta de critério no ato de compor os quadros. A montagem, sem muitas opções que não a de trabalhar com um material que se limita a alternar planos gerais com campos e contra-campos, acaba por pesar a mão também em determinados momentos, com jump cuts que sabotam a imersão do espectador e chamam atenção demais para a já evidenciada artificialidade do projeto.

Se falou-se em “potencial dramaturgia” e de “potenciais personagens”, é óbvio que isso se deve ao fato de que nem a trama nem os personagens chegam a existir com algum sinal de verdade. E tal exigência de crença não quer dizer “verossimilhança com o real”, ou “realismo”, ou “naturalismo”. Entende-se que a artificialidade, essa necessidade de explicitar em tom alto os métodos de construção do próprio filme – nesse caso ainda derivadas daquele momento especial na produção de curtas gaúchos do anos 80/90 - , seja uma questão de opção estilística. O fato é que, diferente de um curta, onde o experimento de linguagem esperto e funcional ainda é cabível, num longa a exigência é maior. Ao longo de 90 minutos de projeção, surge uma demanda por “algo mais” do que a simples exposição de uma tese (que, convenhamos, não traz nada de muito novo). Quais seriam esses upgrades? Uma dramaturgia envolvente que seja, personagens vivos, força na linguagem audiovisual. Em “3 Efes”, tudo isso está ausente pois descartado de antemão.

A insistência no vazio intencional que existe entre a introdução e o final só vêm a evidenciar que este é mais um exemplar de projeto de resultados imediatos, ou seja, um cinema que chega a seu objetivo mensageiro sem passar pelos caminhos mais exigentes do trabalho cinematográfico. Ansioso, parte do roteiro soberano e voa de avião direto rumo aos significados almejados, descartando a hipótese de caminhada por terra junto à linguagem audiovisual que pede socorro. Fecha-se os olhos também para o fato de que cinema inteligente não quer dizer exibir inteligência via roteiros rebuscados, atiradores sinistros de informações explicativas e situações engenhosas que culminam num sentido final único. E insiste-se aqui na crítica à forma do filme por um simples motivo: o filme fala sobre o comportamento humano, mas, sua forma controlada em demasia pelo roteiro cheio de certezas absolutas, que privilegia demais a comunicação intelectual com o espectador em detrimento da sensorial, simplesmente vai contra à natureza humana ela própria. Filme que se localiza acima dos seres humanos. De maneira proposital, que fique bem claro. Por que?

Pensando-se que o curta de mais sucesso de Gerbase possui justamente o nome de “Deus Ex-Machina” (1995), entende-se um pouco tal visão de cinema. Se “3 efes” está acima da humanidade é porque está questionando a necessidade de representação (o Fasmo) dos indivíduos que vivem em sociedade, à maneira de um cientista onisciente e onipotente. Para tal, o método escolhido é o do artificialismo. Porém, a verdadeira forma artificial é confundida com interpretações assumidamente falsas (em relação ao naturalismo) e técnica sofrível. Como se, para se questionar algo estabelecido (a representação e as convenções que o cinema usa para atingi-la), fosse suficiente simplesmente fazer o contrário, deteriorando o cânone, fazendo cinema ruim. Questionar a representação necessita de outras formas mais elaboradas que simplesmente ser “do contra” e que carreguem mais violência nas articulações de linguagem. Se limitar a uma degradação bastante passiva, sem com isso propor nada de positivo no lugar do degradado (a pobre da representação cinematográfica!) é sinal de cinismo. Pensando assim, a proposta de “3 efes” beira o escolar: nega o prazer do espectador de propósito, pois ambiciona ser inteligente com artifício altamente imaturo.
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