ARMÊNIA:


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Original: Le Voyage en Armenie
País: França
Direção: Robert Guédiguian
Elenco: Ariane Ascaride, Gérard Meylan, Simon Abkarian
Duração: 125 min.
Estréia: 07/12/07
Ano: 2006


Guédiguian troca retórica ideológica por sentimentalismo piegas


Autor: Fernando Oriente

O cineasta francês Robert Guédiguian construiu ao longo das últimas três décadas uma carreira sólida dentro do chamado “cinema político social”. Trabalhando sempre com temas que incluem os excluídos e marginalizados da sociedade de consumo e abordando os dramas e conseqüências do capitalismo, Guédiguian levou às telas histórias de personagens muitas vezes esquecidos dentro da lógica do cinema comercial. “A Cidade Está Tranqüila”, de 2000, foi seu primeiro filme exibido comercialmente no Brasil, e nele podemos perceber o que de melhor o cineasta pode oferecer e o que faz dele um dos principais destaques do cada vez mais marginalizado cinema de ideologia, ao lado do consagrado diretor inglês Ken Loach.

“Armênia”, último filme do cineasta, chega agora às telas brasileiras. Embora possamos perceber várias características que estão presentes nos bons filmes que marcaram sua carreira, o longa fica muito aquém do que podem esperar os admiradores do trabalho de Guédiguian. O filme acompanha a personagem Anne, interpretada pela mulher do diretor, Ariane Ascaride, que parte para uma viagem à Armênia em busca do pai, que após descobrir que sofre de uma grave doença cardíaca, resolve voltar para sua terra natal.

A viagem de Anne à procura do pai nada mais é do que uma viagem iniciática de uma pessoa em busca de suas origens. Ela, uma médica de sucesso nascida e criada na França, sempre manteve distância de suas raízes armênias, de qualquer possível ligação afetiva e cultural com o país de seu pai. Em um primeiro momento, ao chegar à Armênia, Anne só quer saber de encontrar o pai, não tem o menor interesse pelo local e por seus habitantes.

Com o desenrolar do filme, a personagem vai sutilmente superando o estranhamento do choque entre sua racionalidade (francesa) e suas origens (armênias). Vai descobrindo os pequenos detalhes que compõem o cenário daquele país, tão estranho para ela. Anne começa a perceber a nova realidade que a cerca, as pessoas, as igrejas, os mercados, os lugares históricos.

Até seus últimos vinte minutos de projeção “Armênia” se desenvolve de forma competente, embora repetitiva e sem muita criatividade, dentro do universo fílmico de Guédiguian que muitos já estão acostumados. São exatamente as seqüências finais que literalmente implodem o filme. São dolorosos minutos onde o espectador é obrigado a agüentar um amontoado de clichês, situações que chegam a ser constrangedoras de tão piegas. Sente-se que Guédiguian trocou seu talento em abordar temas humanos por um sentimentalismo vulgar cuja única intenção parece ser provocar emoções superficiais no público.

Robert Guédiguian conduz o filme até a parte final com um bom domínio narrativo, com ritmo leve e introduz de forma competente as novas relações sociais que surgem entre a protagonista e os diversos tipos humanos com quem ela vai tomando contato.

O elenco do longa é composto por atores que sempre trabalham com o cineasta, um grupo sólido que garante interpretações competentes e seguras, principalmente pela relação de confiança mútua que tem não só com a proposta artística de Guédiguian, mas também por suas afinidades ideológicas. A ideologia, como não poderia deixar de ser, está presente em “Armênia” também na composição dos personagens, muitos deles com um passado marcado pelo envolvimento engajado em causas de esquerda.

Robert Guédguian é de origem armênia, e trata do tema em seu novo longa de forma muito pessoal, onde tenta fazer prevalecer uma relação de afetividade em relação a um país que recentemente voltou ao cenário internacional. A questão do genocídio dos armênios pelo governo turco no início do século XX foi tema recente de diversas produções, muitas delas exibidas na 31ª Mostra Internacional de São Paulo. Abordaram o tema desde de documentaristas como Carla Garapedian em “Screamers” até os consagrados irmãos Taviani em seu recente “A Casa das Cotovias”.

Guédguian não foca seu filme no genocídio, embora faça claras alusões ao fato ao longo de “Armênia”. A intenção do cineasta em abordar temas relacionados a suas origens e a todo um processo de redescoberta de identidade é infelizmente frustrado pelas concessões que ele faz ao sentimentalismo e à conclusões fáceis, piegas e superficiais.
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