NOVO MUNDO:


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Original: Nuovomondo
País: Itália/França
Direção: Emanuele Crialese
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Federica De Cola, Vincenzo Amato, Francesco Casisa, Ernesto Mahieux, Andrea Prodan, Filippo Pucillo, Aurora Quattrocchi, Vincent Schiavelli
Duração: 112 min.
Estréia: 07/12/07
Ano: 2006


"Mundo Novo" - um dos modos de observação de um novo mundo.


Autor: Cid Nader

Há cerca de dois, três anos, uma quantidade razoável de produções tomou as telas de cinema, contando histórias de um mundo novo, nitidamente desesperançado pela falta de oportunidades decorrentes da "vitória" do capitalismo sobre um viciado e burocrático sistema socialista, onde seres vagavam - principalmente pelo continente europeu e EUA - em busca de um recanto qualquer que possibilitasse um novo início de vida. Filmes que acusavam o recente fenômeno da falta de empregos, incentivada também pela veloz automação dos cargos (o que é, afinal de contas o capitalismo, na essência, senão a procura desesperada do lucro?) que antes só podiam ser realizados por braços humanos, em um mundo cada vez mais distante de ideais comunitários movidos a excesso de suor, voltado ao lucro fácil e rápido. Tais obras surgiam e nos jogavam na cara - com suas imagens - o quão distante está da realidade o rótulo de paraíso emprestado a esses locais mais ambicionados e desejados por quem procura fugir de "misérias". E não eram só latino-americanos ou africanos que faziam o papel de protagonistas da miséria: via-se europeus do leste (local de maior baque por conta da queda em dominó dos regimes comunitários que se embalaram com prerrogativas oportunistas) de asiáticos, e saía-se do cinema entristecido pela perspectiva de um futuro tenebroso e de fome. Inúmeras produções, numa seqüência de chamar a atenção.

Um pouco mais recentemente, no ano de 2006, produções que já imaginava terem perdido a razão de existir, voltaram a se insinuar numa tentativa implícita de contar o passado provável que remeteu à situação atual. São filmes de época, que mostram os tempos das batalhas na África colonizada, e o início das revoltas contra os colonizadores exploradores de uma história mais recente (século XIX, principalmente), ou que retomam o assunto dos primeiros imigrantes do grande movimento/fluxo que se estabeleceu quando as oportunidades sopradas desde o Novo Mundo - América - chegavam a uma Europa esfomeada; ventos que chegavam com cheiro de chão mais cultivável e de óleo das inúmeras fábricas que se instalavam para mudar definitivamente o rumo da economia mundial.

Dessa seara o destaque a ser comentado é "Mundo Novo", de Emanuele Crialese, que reconta a saga de um grupo de imigrantes que chegarão aos Estados Unidos num navio, em busca de novos tempos - incluído aí, casamentos arranjados. Desse grupo de imigrantes, os escolhidos para protagonizar os papéis principais são uma família de Sicilianos, absolutamente "brutos"em seu distanciamento do resto do mundo - fechados secularmente em suas aldeias, com suas tradições, honradez absoluta, superstições e religiosidade como o mote condutor de suas vidas. Crialese compõe uma "primeira parte" do filme dentro dos limites dessa família e de seu mundo (paese), num resgate absolutamente preciso - apesar de, às vezes, pitoresco um pouco a mais da conta - dos últimos momentos na terra natal e a escolha pela empreitada rumo ao outro lado do oceano. O filme tem tenacidade humana exacerbada, mas tem também humor: as cenas dos grandes vegetais (uma espécie de "propaganda" que circulava o mundo vendendo a América como a verdadeira terra da fartura e do inimaginável) são bem bacanas, ou o momento da escolha de roupas que serão usadas na jornada; no quesito tenacidade, a subida de um monte, sob sacrifício reforçado por opções próprias, em busca da "religiosidade", chega a ser emocionante.

Numa "segunda parte", as tradições sicilianas encontram outras tão pitorescas e particulares quanto, e todo um grupo de esperançosos (gente de várias nacionalidades) cruza o oceano, com suas idiossincrasias, seus modos aparentemente refratados. Modos refratados que perdem a condição de impermeabilidade quando se percebem objetivos comuns, tentativas comuns para burlar a rígida lei de imigração dos Estados Unidos (acordos de casamento, por exemplo). Ao desembarque na América, fica nítido que o processo de "acolhimento" não é gentil ou motivado por humanidade intrínseca, e sim por um novo modelo de gestão que tem como único objetivo o lucro (capitalismo), e as diferenças entre os povos viajantes desabam, praticamente, num momento mais exato, de necessidade de cumplicidade.

E é justamente aí, nessa parte do filme que também é composta por belos e significativos momentos - o momento em que se sobe nas costas do outro para poder observar, pela primeira vez, o novo país e suas torres de "cem andares"; ou um pouco anteriormente, numa sessão de catarse quase hipnótica e tribal alcançada ao som de batuques nos porões do navio (forte e inimaginável momento); ou ainda no simbólico e forte final, emoldurado e potencializado pela voz rascante de Nina Simone (cantora e músicas que tem a tudo a ver com a "pureza" da luta) -, que pode-se tentar compreender essa nova safra de produções cinematográficas como aquela que parte à busca das razões iniciais do que ocorre no mundo atual, e que acabou por gerar essa enorme safra de trabalhos desesperançados de alguns poucos anos. Tem, um certo jeito de filme dos anos 70 e 80, executados pelos irmãos Tavianni, ou por Herzog. "Mundo Novo", em si, oscila como obra - tem bastante desses bons e fortes momentos que relatei, mas não uma continuidade irrepreensível (quando alguns apelos de ordem estética e estetizante tentam "desenhar" com tintas "puras" algumas situações). Mas é de importância interessante para se analisar um provável novo ciclo que está em voga.
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