A VIDA DOS OUTROS:


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Original: Das Leben der Anderen
País: Alemanha
Direção: Florian Henckel von Donnesmarck
Elenco: Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme
Duração: 134 min.
Estréia: 30/11/07
Ano: 2006


"A Vida dos Outros": um thriller competente e nada mais...


Autor: Fernando Oriente

“A Vida dos Outros” é o primeiro longa do jovem diretor alemão Florian Henckel Von Donnersmarck e chega aos cinemas brasileiros após receber diversos prêmios internacionais, incluindo o Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme, também escrito por Donnersmarck, é um competente thriller com fundo político que tem como cenário os últimos anos da República Democrática Alemã, quando o estado que nasceu dentro de uma esperança socialista já era um regime falido, corrompido por erros históricos e por uma burocracia fatal para qualquer pretensão política.

Em meio a esse ambiente deteriorado e fadado ao colapso, o governo da Alemanha Oriental se agarrava a uma desesperada tentativa de controle ideológico e fiscalização da vida cotidiana de seus cidadãos. A Stasi, polícia política, tinha em seus quadros milhares de agentes e informantes que visavam controlar e restringir as vidas e as ações de todos os habitantes do país. “A Vida dos Outros” segue uma operação especial dessa polícia que visa espionar os passos de um famoso escritor e dramaturgo, na tentativa de descobrir algum indício de subversão e negação de valores patrióticos.

Por trás desse motivo político, encontra-se a real intenção da operação: tirar o escritor de circulação para que sua namorada, uma famosa atriz teatral, fique livre para ser consolidada como amante de um poderoso ministro de estado.

O longa funciona como thriller, principalmente pela direção segura de Donnersmarck, mas quando passa a ser analisado como filme político, deixa muito a desejar. A visão ideológica de “A Vida dos Outros” é maniqueísta, superficial, confunde o leninismo revolucionário (uma das principais vertentes político ideológicas do século XX) com a situação final de um Estado falido em todos os aspectos, vítima de inúmeros erros históricos que foram construídos em nome do marxismo e que, de fato, nada mais tinham em comum com as idéias de Marx, Lênin e outros pensadores socialistas e comunistas.

Os representantes do Governo, como o ministro interessado pela bela atriz, e os membros da Stasi são retratados de forma caricatural, maniqueísta, como pessoas “malvadas”, típicas de filmes americanos que ao longo da história ajudaram a criar uma imagem estritamente negativa de tudo e de todos que vinham dos países socialistas. Não existe no longa nenhum aprofundamento na estrutura dramática desses personagens, compostos apenas para reforçar a intenção de Donnersmarck de que sejam execrados pelos espectadores.

A única exceção, e por tanto uma das maiores qualidades do filme, é o personagem do capitão da Stasi, Gerd Wiesler, encarregado da missão de vigiar o escritor. No início ele aparece como um cruel funcionário de estado que cumpre rigorosamente as tarefas das quais é encarregado, mas, ao longo do filme, passa por um processo de humanização, onde começa a questionar as atitudes de seus superiores e a se envolver emocionalmente com os personagens que tem de perseguir, chegando até a protegê-los. As mudanças no personagem são muito bem encarnadas pelo ator Ulrich Tukur, que interpreta de forma muito competente o capitão Wiesler.

Embora seja uma construção dramática interessante, as mudanças do personagem não deixam de ser de fundo moral, o que acentua ainda mais o tom unilateral que o diretor usa para argumentar suas idéias. Donnersmarck foge de uma discussão mais aprofundada e evita uma dialética histórica complexa que ponha em pauta o choque entre as diversas ideologias que marcaram o final do último século.

Com exceção do talentoso Fatih Akin, a maioria dos títulos do recente cinema alemão que chegam às telas brasileiras, como “A Vida dos Outros”, representa um tipo de cinema que se alinha com padrões consagrados junto ao público. Apresenta elementos típicos dos filmes de mercado americano e acaba por agradar platéias que não exigem nada além de um bom divertimento.

Como o super valorizado “Adeus, Lênin”, dirigido por Wolfgang Becker em 2003, o longa de Donnersmarck não tem nada em comum com os filmes que foram produzidos na Alemanha durante os dois maiores momentos da cinematografia do país. Para os que apreciam o grande cinema germânico da época dos filmes silenciosos e do expressionismo e para os que se encantam com as obras primas do Novo Cinema Alemão, que revelou nomes como Fassbinder, Herzog e Alexander Kluge, longas como “A Vida dos Outros” fazem sentir uma enorme saudade da época em que os alemães eram conhecidos por sua densidade e criatividade estética no cinema.
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