LADY CHATTERLEY :


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Original: Lady Chatterley
País: Bélgica/França/Inglaterra
Direção: Pascale Ferran
Elenco: Marina Hands, Hyppolyte Girardot, Jean-Louis Coullo'ch, Hélène Alexandridis, Hélène Fillières
Duração: 168 min.
Estréia: 23/11/07
Ano: 2006


"Lady Chatterley": nem sempre é necessário inventar para adaptar


Autor: Cid Nader

O cinema tem na literatura um de seus grandes abastecedores de textos – vale sempre lembrar, que lá no início, quando histórias quiseram ser contadas, tudo vinha do mundo das escritas. Fica sempre no ar, quando filmes são feitos a partir de obras literárias mais famosas, uma discussão que procura remeter o resultado a avaliações que tendem a exigir – para que o trabalho do cinema ganhe louvores – um distanciamento estético e formal da obra matriz, a fim de que seja considerado satisfatório e digno de discussões relevantes. Há uma tendência à torção de narizes quando a película se mostra muito fiel ao texto, e torna-se quase inevitável um achincalhamento do diretor, que passa a ser definido como, no mínimo, vagabundo ou comodista. Mas há de se notar, que obras bem transpostas e fiéis, também podem ser fruto de belos trabalhos – diria que fazer grandes filmes sendo reverente ao livro, talvez seja mais difícil, portanto, produto a ser mais admirado.

A diretora Pascale Ferran, inscreveu-se nesse segundo e não tão facilmente admirável time de realizadores que não tentam inventar demais, não erram por tal opção e mais, conseguem realizar um produto de altíssimo nível. É o que poderia-se dizer desse seu filme, "Lady Chaterley": um produto de altíssimo nível. A obra literária, já por si só, é um dos clássicos da literatura moderna. Contida e um tanto seca no seu modo de se narrar, consegue transportar suas emoções aos leitores por vias não tão comuns – apesar de ter seu pé estético bastante fincado na beleza do entorno e das situações (se passa numa região campestre da Inglaterra, próxima a um floresta, no período da primavera, e fala da descoberta do prazer feminino, afinal de contas).

E Pascale já começa acertando ao conseguir reproduzir essa beleza de "entorno", mas não só com a utilização dos cenários – apesar de ser inegável o que consegue atingir de bom com o capricho nesse quesito -, e sim, principalmente, pela maneira "mecânica" da condução desse potencial aos olhos do espectador. Isso é: a diretora realizou um filme bastante classudo, com sua adequada utilização das lentes – inclua-se aí, os movimentos corretos de câmera, a grande percepção e adequação das "luzes" em seus devidos momentos, algumas seqüências maravilhosas e uma esplendorosa (quando os amantes correm nus em meio à vegetação, observados e seguidos pela câmera a partir de um ponto fixo, mas sem desgrudar, com atenção, e obtendo um resultado plástico bastante belo; e ponha bastante nisso) -; e com atuações, que desfazem e jogam ao chão aquele tipo de ator que "super-atua", esperneia, se transfigura e é maquiado para se fazer acreditado e admirado, obtidas com "jeito" pelo par central, com sutileza e com o acerto no ângulo obtido – não há como não se perceber a mudança fisionômica na face de Marina Hands quando se relaciona pela primeira vez com seu amante, o guarda-caças, Parkin (a outra interpretação maravilhosa do filme – de quem seria o mérito: volto a dizer que isso tem a ver com a condução {diretora} e modo de saber se deixar conduzir {atores}; há que haver a química). Seu rosto adquire um outro "sentido" - e a câmera sabe como captar.

A diretora encontrou o tempo certo para contar a história – em termos de números exatos 168 minutos (que não parecem longos, jamais; somente bastante necessários e bem aproveitados) – e soube fazer da não timidez dos corpos nus, da descoberta do prazer, do ludicismo campestre, as sessões necessárias para preenchê-lo. Ao fixar – não fugindo absolutamente do texto original, somente optando por um de seus entretrechos – o forte da procura do filme na relação dos amantes, revelou, além do prazer da descoberta desse tipo de felicidade por parte de Lady Chaterley, um Parkin extremamente sensível (aliás, Jean Loius Coulloc'h), que se "desnuda" num diálogo final dos mais importantes e reveladores do cinema; notadamente, mais um dos méritos de Pascale Ferran, pela sensibilidade em achar o momento exato para sua inserção. Nem sempre é necessário inventar para adaptar. Nem sempre o que pode parecer comum é tão correto.
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