VIAGEM A DARJEELING:


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Original: The Darjeeling Limited
País: EUA
Direção: Wes Anderson
Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Camilla Rutherford, Irfan Khan, Bill Murray, Anjelica Huston
Duração: 91 min.
Estréia: 23/11/07
Ano: 2007


Um olhar Fraternal


Autor: Cid Nader

Não há como negar que Wes Anderson tem se firmado na cinematografia como diretor que faz obras bastante pertinentes a seu tempo. Seu método de confecção consiste em utilizar maneirismos e ferramentas bastante contemporâneos, e o resultado são filmes que – uns bem, outros nem tanto – ficarão marcados como obras típicas de um momento. O que seria isso? O tipo de fotografia que utiliza, mesmo sendo tomada em película, tem velocidade, cor e ligeireza dos tempos digitais – aí poderia incluir modelos de cor (sim, garanto que os há), texturas procuradas, e até forma de enquadramentos. Seria bom ou ruim ficar marcado por estilo ou tempo? Obras datadas existem aos milhares; mal datadas algumas e outras que se mantém dignas, como retrato desse momento. Imagino que o diretor venha a ser considerado num futuro um "bem datado", porque, quando digo que ele faz obras de "seu tempo", estendo minha observação ao interior de seus trabalhos. Seus filmes têm alma, têm razão, não são fúteis e somente forma. O diretor faz parte de uma geração de cineastas norte-americanos criados no mundo acadêmico e bastante atentos ao que passa em seu entorno.

Deslocar sua ação para um país tão atípico quanto imaginariamente arquétipo como é a Índia, já faz de um novo filme do diretor alvo das atenções. Anderson viaja para o país dos deuses, da miséria e das pessoas sorridentes, levando consigo uma trinca de personagens quase surreias: os irmãos Jack (Jason Scwartzman), Francis (Owen Wilson) e Peter (Adrien Brody). Leva também uma história quase surreal, que junta os irmãos num passeio de busca pelo país, após a morte do pai e à cata de uma mãe sempre ausente, Patricia (Angelica Huston). Já no início se nota que o filme caminhará por rotas aparentemente leves, coloridas, "espertas" e atraentes, quando um apressado Peter corre com suas malas coloridas atrás do trem no qual deverá encontrar os irmãos. Na sua rabeira corre um executivo interpretado por Bill Murray, que não terá outra função específica na obra – a não ser a possível, de fazer uma ligação da imagem de um americano numa terra desconhecida, tal qual seu papel em "Encontros e Desencontros" de Sophia Coppola. O encontro dos irmãos vem permeado por um desmembramento de suas personalidades , aos poucos, de maneira pouco didática, mas bastante cinematográfica – meio que num jeito "moderninho" bastante utilizado para esses fins (ligá-lo a realizador de sua época).

O filme que vai sendo montado com todas as possibilidades que imaginaríamos as quais ele lançaria mão, amplia essa revelação de pessoas que, apesar de bilogicamente tão próximas, não têm muito em comum, e estende-se para o descortinamento de um país colorido e "vivo". Certo que a Índia é alvo de uma baciada de trabalhos que procuram revelá-la sempre de maneira pitoresca, mas o enfoque de Was Anderson tem outra observação, e , apesar de continuar pitoresca, mostra um sentido de admiração mais companheiro, menos paternalista, turista sim, mas não com camisa de bolinhas coloridas e máquina fotográfica no pescoço. A eterna alternância entre o revelar os personagens com suas histórias, e o olhar espichado carinhosamente para o país, criam um contraponto bastante atraente dentro de uma dinâmica típica do diretor. O fato de ele ter abandonado sua terra para fazer o filme, tem a vantagem de nenhuma intimidação sentida, e a outra de demonstrar que ele é seguro do que faz, e que pode utilizar seu método em quaisquer circunstâncias.

Mas vai mais longe o filme, quando integra os personagens centrais a situações que atraem outros – locais – para a trama, ganhando muito peso e consistência na situação que remete a história a uma aldeia, envolvendo crianças, um rio e rituais. Justamente nesse momento de maior interiorização dos irmãos na vida local, o filme possibilita um flashback que os remete aos Estados Unidos, e fica evidente que olhar os "outros" de modo companheiro é muito mais correto; porque situações de tristeza ou alegrias são humanas, acima de tudo. O diretor revela, aos poucos, que soube observar – talvez idealizar, mas uma boa idealização – o estrangeiro; que soube exercitar nele. Fez um filme que pode atrair por vários aspectos, nada cansativo, nada didático, e muito bom de música.
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