O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD:


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Original: The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford
País: EUA
Direção: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Shepard, Mary-Louise Parker, Sam Rockwell, Garret Dillahunt, Paul Schneider
Duração: 158 min.
Estréia: 23/11/07
Ano: 2007


A arte deve ser bem encarada quando marqueteira?


Autor: Cid Nader

Andrew Dominik, com sua direção, resolveu que iria botar o espectador dentro da história quase mitológica que narra o assassinato do mais famoso bandido do western americano – e isso implica botar os espectadores da Terra dentro de assunto que povoa o imaginário cultural mundial dos últimos tempos (coisa de dezenas de anos, advinda com a ascensão da importância dos Estados Unidos da América do Norte dentro da necessidade internacional em busca de referências e modos culturais) -, através de uma porta (ou diversas, na realidade) pouco comum, utilizada quando se quer contar histórias dos tempos das diligências. A idealização que boa parte do mundo faz daqueles tempos – e muito por conta da (re)criação que o cinema fez dos momentos, visuais e comportamentos do velho oeste, teve quase sempre um amparo muito forte e firme na marca de instantes violentos, em que os climas e possibilidades humanas, intrincados nos veios mais profundos do que se poderia considerar a história de então, foram constantemente sepultados por uma superfície ríspida, aonde somente os bravos poderiam sobreviver – é desde o primeiro instante, nesse filme, colocada em xeque, numa tentativa bastante evidente por parte do diretor de demonstrar um outro modo de observação, um outro modo de compreensão, outras possibilidades de tentativas de entender que a marca forte no inconsciente coletivo não se fez somente por temor da rispidez, da aridez, do comportamento "macho" e desbravador. Na realidade, as verdadeiras grandes obras do cinema "westeriano" procuraram observar, por "vezes" diferenciadas, o que havia se tornado uma regra quase única; só que tais tentativas, normalmente, ganharam tal reconhecimento com o passar do tempo (em alguns casos), ou com sutilezas reais (em outros) e pouco evidenciamento ostensivamente marqueteiro de se colocarem como obras à parte do comum.

Por partes. O trabalho de Dominik tem evidente cuidado em se mostrar como um outro lado da moeda comum – e isso é obtido realmente, com destreza no manuseio da câmera, na velocidade lentificada imprimida ao ritmo narrativo (o que faz com que o filme percorra 160 minutos para se contar), nas buscas dos ângulos inusitados, das boas composições obtidas através de requintados jogos de luzes e sombras, das atuações contidas e pouquíssimo estereotipadas obtidas principalmente de Brad Pitt (um Jesse James entre o pacato e quase aposentado – apesar de seus trinta e poucos anos – pai de família, e o sádico tranqüilo, que assusta pela frieza e calculismo, muito mais do que poderia se supor como modo de atuação do mais famoso bandido da América), e de Casey Afflek (beirando a genialidade com seu sorriso infantil emprestado à fisionomia do jovem Robert Ford, de modo observador e de reações acovardadas e camufladas, que delineiam bem o "tipo" que se deve esperar ao final de seu reconhecimento por parte do público). Há as virtudes estéticas bastante evidentes, que fazem do filme durante seu transcurso uma bela peça visual – a cena do assalto noturno é um grande exemplo "estético", quando o trem é parado sob as luzes dos lampiões, os passageiros iluminados com réstias de luz fraca em seu interior, a alternância entre o ambiente externo e o interno causando impacto visual; afora outras tantas que se dão com o movimento da câmera que acompanha alguém e se fixa no céu, por exemplo, numa rápida mudança de perspectiva, ou pelo constante "observar" das condições climáticas, que emprestam ao cenário a verdade necessária para fazer crível o bom retratar de uma região.

Outra virtude a ser destacada – e por enquanto parece descabida aquela minha sutil desviada de assunto, praticamente acusando o filme de aproveitador marqueteiro de suas virtudes, mas isso tentarei justificar um pouco mais abaixo – é o cuidado e o carinho com que o momento histórico é observado nesse trabalho pelo diretor. Sem ter lido o livro de Ron Hansen em que foi baseado o roteiro, mas sabendo que ali, já como um de seus méritos, se destaca isso, há uma evidenciação em se mostrar um momento de ruptura temporal, quando um idílico tempo – o dos últimos desbravadores – sucumbe à modernização (talvez o maior símbolo disso esteja na figura física da estrada de ferro), e um certo ar nostálgico impregna observações sutis do diretor. Esse modo de olhar o ocaso de um tempo também foi utilizado por outras obras cinematogáficas, denominadas como outonais, e não é uma exclusividade de Dominik, mas ele o faz com muita sensibilidade, criando um paralelo muito ajustado com a lentidão "observacional" do fluir da história no filme, e um paralelo com a opção de Jesse James em se retirar, se aposentar, talvez até com o se deixar matar por alguém que simbolizaria "os novos tempos".

Mas o que poderia significar um outro grande ponto do filme – que é o se esticar a mais após a morte do grande bandido, deixando bem nítido que o personagem de Ford tem tanta importância (no mínimo) quanto o de seu ídolo – se faz uma armadilha reveladora de que muito do que havia sido feito até então, mais do que significar uma obra diferenciada a ser pensada e descoberta por suas sutilezas e levezas, talvez fosse lá em seu íntimo um grande modo de marketing. O filme passa a se "mostrar" demais nos devaneios do assassino que sobrevive ao tempo, mas que se sente acusado e quase um pária na sua idealização de covarde criada pelo povo órfão de Jesse James. A sutileza deixa de ser executada, e um peso de obra "pensada" demais passa a poluir cada instante derradeiro – e conspurcar os momentos passados. Resta saber se a maioria das obras de arte não funcionam dentro de uma expectativa já bastante pré-concebida pelos seus idealizadores. Se visto sob essa ótica puramente "pragmática" - e me desculpem a liberdade tomada com o termo –, o filme não tem do que ser acusado e se faz inteiramente bom. De qualquer modo - "pensado demais" ou não – tem virtudes suficientes para atrair um público mais exigente e que consiga captar alguns de seus sub-textos e muito de sua beleza visual.
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