A CASA DE ALICE:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Chico Teixeira
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Zécarlos Machado, Luciano Quirino, Renata Zhaneta, Vinícius Zinn, Ricardo Vilaça, Felipe Massuia.
Duração: 90 min.
Estréia: 15/11/07
Ano: 2007


"A Casa de Alice": Humanidade e Feminino latentes


Autor: Anahí Borges

Há quem diga que o problema do filme é que não acontece nada e há quem diga o contrário: que acontece demais. Mas o fato é que em “A Casa de Alice” vemos um retrato possível de uma família urbana de classe média baixa, cuja estrutura é das mais tradicionais: na casa moram Alice, sua mãe, seu marido e três filhos homens. Quem realiza os afazeres domésticos e cuida do lar são as mulheres, mãe e avó, enquanto aos homens cabem o conforto, o usufruto e a liberdade. Chico Teixeira constrói uma narrativa sob o ponto de vista feminino, colocando em evidência as relações de gênero e poder existentes dentro da estrutura familiar tradicional brasileira, e no caso, a de Alice. Se coincidência ou não, os comentários negativos que ouvi sobre o filme vieram mais de homens do que de mulheres, e suas críticas se centraram, principalmente, na representação do universo masculino na obra, considerada por eles estigmatizada. Se Jorge Furtado, em “Houve Uma Vez Dois Verões”, pôde nos apresentar um masculino dócil, frágil e ingênuo através da figura de Chico, o adolescente romântico, por que Chico Teixeira não pode nos apresentar o masculino bruto, viril e instintivo? (Cabe grifar que Júnior, o filho caçula de Alice, se aproxima muito da personagem de Furtado). Ambas as representações, tanto a de Teixeira quanto a de Furtado, são plausíveis no que concerne a olhares que buscam uma feição da masculinidade na contemporaneidade sem que lhe seja impressa juízo de valor algum. Talvez o que incomode o público masculino de “A Casa de Alice” é o fato de a história ser contada sob o ponto de vista de Alice, o que faz com que a obra seja preenchida de uma melancolia própria às mulheres que é antagônica à brutalidade masculina. Assim, se o fato de eu ser mulher deslegitima minha análise, então torna-se clara a força para o debate de gênero que o filme possui.

Tanto as personagens femininas quanto as masculinas se aproximam de um olhar mimético em relação à vida: os conflitos que vivenciam, os segredos que ocultam no seu dia a dia, seus interesses, necessidades e desejos estão inseridos em uma ótica universalizante que por vezes transcende o universo popular ao qual fazem parte. Temas tabus como adultério, pedofilia, roubo, prostituição, incesto, inveja, entre outros, perpassam o filme de maneira natural, sem holofotes e moralismos, mas de modo a identificá-los como comportamentos críveis dentro do universo cotidiano do ser humano. Chico Teixeira ao evitar o registro sensacionalista presumível na abordagem de tais temáticas, e identificando neles aspectos de verdade e dignidade, cria um retrato do ser humano como um ser ambivalente por excelência. O garoto que rouba o dinheiro da avó, por exemplo – quem nunca pegou dinheiro na carteira da avó, ou do pai, ou da mãe, alguma vez na vida? Teixeira observa os comportamentos dessa personagem sem julgá-los, como se os considerasse próprios da idade e do contexto familiar em que vive, possíveis, portanto, de ocorrerem. E para sancionar a proposta de humanização das personagens, a interpretação dos atores, e aqui cabe a menção ao trabalho primoroso de Fátima Toledo no nosso cinema, valoriza o minimalismo, a melancolia, o silêncio e os olhares entre as personagens.

O registro contemplativo do cotidiano da família de Alice perde força quando eventos exteriores às personagens, ainda que de alguma forma ligados a elas, começam a brotar na história. Nesses momentos a sensação desconfortável de supersaturação de ocorrências atinge o espectador e como principal exemplo cito a cena da morte da cliente de Alice: ainda que tal morte interfira diretamente na vida de Alice, pois a cliente era esposa de Nilson, seu amante e antigo namorado, a maneira como ela foi eliminada da história afim de que Alice pudesse usufuir dessa paixão, foi artificial, uma solução dramatúrgica inverossímil – um “deus ex machina” que incomoda o espectador na fruição estética que até então estava mediada pelos movimentos internos das personagens, por suas densidades emocionais e psicológicas.

Outro aspecto do filme que merece ser sublinhado é a maestria da montagem de Vânia Debs. Em “A Casa de Alice” as passagens temporais são primorosas: vemos e sentimos o momento do “acordar” da casa, dos movimentos que aos poucos dão vida àquele ambiente, assim como o final do dia, o jantar, a casa que começa a se tornar mais escura e silenciosa, pronta para “ir dormir” para depois recomeçar. Tais sucessões temporais desenham o caráter contemplativo proposto por Chico Teixeira. Os respiros dramáticos somados ao feminino que lateja na tela, fazem de “A Casa de Alice” um filme melancólico e despretensioso, que busca humanidade nas falhas individuais e nas relações familiares.
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