MUTUM:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sandra Kogut
Elenco: Thiago da Silva Mariz, Wallison Felipe Leal Barroso e João Miguel.
Duração: 90 min.
Estréia: 15/11/07
Ano: 2007


Um filme de silêncios


Autor: Fernando Oriente

O sertão sempre foi um dos cenários mais importantes do cinema e da literatura do Brasil. Seus dramas, tragédias, esperanças e desilusões inspiraram grandes nomes como Glauber Rocha, Guimarães Rosa, Ruy Guerra e Graciliano Ramos, mas também serviu de pano de fundo para produções de gosto duvidoso e todos os tipos de caricatura vulgar. “Mutum”, de Sandra Kogut, é um belíssimo exemplar do melhor que a cultura brasileira pode extrair da sua relação com o universo sertanejo.

E é exatamente no sertão que Sandra filma “Mutum”, baseado no conto “Campo Geral” de Guimarães Rosa. O longa acompanha um período determinante na vida de Thiago, menino de dez anos que vive com a família em um lugarejo isolado no meio do Brasil.

Sem perspectivas além de remotos sonhos que compartilha com o irmão mais velho, Thiago é confrontado todo o tempo por um ambiente áspero e seco e por uma realidade dura e muitas vezes cruel que esmagam sua inocência de criança e reprimem suas expectativas e seus desejos.

O choque entre o menino sensível (e ainda cheio de ternura e esperança) e o mundo adulto (com pessoas secas, amargas, rudes e totalmente desesperançadas) é filmado de forma precisa por Sandra e está no centro desse que é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos.

“Mutum” é um filme de silêncios, de emoções recalcadas em que apenas Thiago tem uma remota chance para escapar de uma realidade sem perspectivas, sem esperanças. Somente o menino de dez anos, por ser diferente, “por ser sensível”, como diz sua mãe em um momento do filme, tem a possibilidade de consolidar sua subjetividade em meio a seres humanos forjados na dureza e na secura. Os diálogos são poucos, vagos, os personagens pouco dizem, revelam seus sentimentos através das expressões em seus rostos, olhares e gestos.

Sandra utiliza de forma preciosa os enquadramentos fechados, os closes no rosto de Thiago, como se estivesse sufocando seu personagem, mostrando como a realidade esmaga o menino. A edição alterna essas imagens com planos longos nos quais se vê a imensidão do sertão, onde os personagens aparecem pequenos em meio a um cenário amplo, minúsculos sob um céu que registra a lenta passagem do tempo, passagem essa que não traz nenhuma esperança de mudança para o destino a que estão condenados.

Ao contrário de muitos filmes atuais, que utilizam-se de crianças como personagens centrais para cair num sentimentalismo raso e piegas e forçar emoções catárticas de piedade no espectador, “Mutum” usa de forma densa e profunda as possibilidades dramáticas e estéticas de um personagem complexo, humano e universal. O filme é registrado totalmente através da ótica de Thiago. Vemos o que ele vê, ouvimos o que ele ouve, somos guiados pelos seus olhos, pelo seu estranhamento em relação ao mundo adulto, imposto como normal, mas calcado no individualismo, no conformismo e na aceitação do fracasso.

Em uma das mais significativas passagens do filme, a avó de Thiago diz: “Quando você quer muito alguma coisa na vida pode saber que ela tá errada”. É exatamente essa resignação, essa visão derrotista com fundo moral que caracteriza o universo das pessoas adultas que cercam Thiago, que marcam a personalidade rude e violenta do pai, os desejos reprimidos e o conformismo da mãe e o romantismo sem futuro do tio.

Muito do mérito do filme se deve à excelente atuação do garoto Thiago da Silva Mariz, que interpreta Thiago. Poucas vezes um ator jovem teve uma interpretação tão marcante no cinema brasileiro, sem os vícios que costumam acompanhar os chamados atores mirins. Outro grande trunfo de “Mutum” é a opção pela ausência de música, que reforça através de ruídos e do som direto a percepção do universo em que os dramas de desenrolam.

O tema do sertão e seus tipos humanos é mostrado de forma natural, sem a necessidade de retratar um ambiente exótico para um público urbano das grandes cidades do Brasil. Forma e conteúdo se completam de maneira precisa em “Mutum”. As imagens têm forte significado. Planos e enquadramentos são construídos em função da narrativa, nenhuma imagem é gratuita no longa.

Sandra exibiu seu filme na “Quinzena dos Realizadores” do Festival de Cannes deste ano e obteve críticas entusiasmadas da imprensa internacional. Em meio a uma cinematografia que ainda procura definir seus rumos e voltar a ter a importância artística dos anos 60 e 70, a estréia de “Mutum” é um dos melhores acontecimentos dos últimos tempos.
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