OS DONOS DA NOITE:


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Original: We own the Night
País: EUA
Direção: James Gray
Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes.
Duração: 117 min.
Estréia: 15/11/07
Ano: 2007


Lei (e cinema) sem limites


Autor: Marcelo Miranda

O interesse num filme como "Os Donos da Noite", à primeira vista uma produção policial sobre tráfico de drogas, reside naquilo que mais o torna justamente o produto diferenciado que é: a abordagem intimista na questão familiar e a forma como o diretor James Gray constrói seu pequeno conto moral e ético. Se por determinado aspecto o filme tem tudo para se entregar às regras típicas do policial mais batido, Gray é esperto de focar a sua câmera não nos desdobramentos da trama enquanto movimento cinético, mas sim nos rumos surgidos a partir das ações tipicamente humanas que os personagens vão tomando ao longo da narrativa. O poder de Gray de sintetizar em poucas cenas o acúmulo de sentimentos e ambigüidades advindos de cada peça do tabuleiro em jogo torna a experiência de se assistir a "Os Donos da Noite" algo de estranhamente belo. Afinal, não há nada ali que já não tenhamos visto antes, nem muito menos algo que o torne um trabalho distintamente notável. Só que, ainda assim, ele é admirável.

Há, claro, vários elementos a provocar tais sensações positivas em relação ao projeto de Gray. A começar pela crença e respeito absolutos com que ele aborda cada personagem de seu drama. Estamos diante de um policial experiente (Robert Duvall) às voltas com dois filhos cujos caminhos não podiam ser mais distintos – Joe (Mark Wahlberg) seguiu os passos do pai na defesa da lei; Bobby (Joaquin Phoenix) é gerente de boate e faz vista grossa para negociações de entorpecentes. Só que "Os Donos da Noite" não é a visão do pai sobre os filhos. Por mais que Duvall interprete uma espécie de Rei Lear a testemunhar o racha familiar em torno do destino dos herdeiros, é Bobby a verdadeira alma e o olhar do espectador diante dos acontecimentos. É ele quem sofrerá as maiores mudanças de acordo com as surpresas que o filme lhe reserva, e é nele que Gray deposita toda a fé de ter criado um personagem de grande complexidade e sutileza.

Porque Bobby, até certo ponto alheio à autoridade policial e durão no trato com a família, verá o mundo desabar quando o irmão for baleado. É neste ponto que se dá a guinada, e é a partir daqui que James Gray caminha seu filme no rumo que lhe mais convém. Ao surpreender o espectador com a comoção de Bobby diante do parente à beira da morte, fica patente a criação de um universo dentro do filme muito maior do que a narrativa nos permitia enxergar até então. É como se Gray abrisse o leque sem mostrar os verdadeiros segredos – ou seja, ele deixa claro existirem elementos diversos ainda não expostos, mas que estão e sempre estiveram pairando nas relações afetivas apresentadas. Se num determinado momento imaginamos já estar familiarizados com aquele mundo e seus prováveis desfechos, a revelação da humanidade passional de Bobby nos tira o chão e torna "Os Donos da Noite" algo bem maior do que simplesmente um exercício de gênero – e, ainda que apenas o fosse, o filme seria igualmente significativo, tamanho o talento de Gray no trato com a câmera e no controle de cada tempo e arco de cenas (sempre separados por fade outs que nos colocam no passo seguinte da saga exposta na tela).

Torna-se impossível falar de um trabalho como este, que lida com a questão policial, especialmente a lei e seus limites, sem citar "Tropa de Elite", filme-fenômeno de José Padilha. A começar pela abordagem da faceta familiar – se, de um lado, temos o capitão Nascimento em busca de um substituto após a gravidez da esposa, aqui há a relação pai-filho desequilibrada pela presença do fator "polícia" na vida de todos. Mas o que mais aproxima os filmes – e, ao mesmo tempo, os distancia – é a questão do "ser policial", do como agir diante de uma situação-limite e, mais importante ainda para uma discussão estética, a forma como o diretor vai exibir isso na tela. Seria simplista para um cineasta pegar o personagem, deixá-lo sem saída e solucionar a pendenga com o famoso tiro no rosto. Tanto em "Tropa de Elite" quanto em "Os Donos da Noite", a delicadeza da situação-limite está fora da situação em si: reside, no primeiro, na morte do melhor amigo de André e, no segundo, na morte do pai de Bobby. Só que, se Padilha utiliza a câmera na mão e os cortes contínuos (inclusive dentro de um mesmo plano) para dar caráter de urgência à perseguição em torno do traficante Baiano, Gray é mais funesto ao inserir composição musical melancólica na seqüência final e deixar Bobby absolutamente fragilizado diante da iminência de encontrar seu algoz (efeito potencializado pela fumaça do gás disparado pelos agentes policiais). Antes de soar urgente, o desfecho de "Os Donos da Noite" torna-se nervosamente triste. É ainda emblemático como, no final de cada um dos filmes, exista o mesmíssimo dilema – dar ou não o tiro de misericórdia. E mais emblemático ainda é que Gray prefira manter o filme mergulhado na profunda melancolia a decidir numa bala o destino de seu protagonista.

Longe de qualquer juízo de valor sobre um e outro, importa que "Os Donos da Noite" cresce substancialmente a cada nova cena, a cada novo diálogo e a cada nova relação desenvolvida. Utilizando da elegância e do domínio do classicismo estético, James Gray, neste seu terceiro projeto como diretor e roteirista, demonstra maturidade e sofisticação. Um nome a ser acompanhado de perto e com bastante interesse.
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